2016: novos riscos financeiros globais

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A Reserva Federal, como esperado, fechou 2015 com um aumento de 0,25% na sua taxa de juros. Evidentemente, a intenção foi transmitir a mensagem do fim da crise nos Estados Unidos e, em consequência, de esperança para a recuperação global. Porém, cremos que é preciso pensar duas vezes.

A política de “flexibilização quantitativa” e a taxa de juros zero dos últimos anos não resolveram os problemas. Desde 2008, foram injetados 3,5 trilhões de dólares no sistema bancário. Mas, além dos próprios bancos, apenas o mercado de ações estadunidense se beneficiou. Em comparação com o marco da quebra de 2008, os ganhos foram de 96% para o índice Dow Jones, 124% para o S&P 500 e 214% para o Nasdaq.

No entanto, ela deixou feridas profundas nos sistemas financeiros e nas economias de muitos países. Nos mercados emergentes, muitas empresas têm sido tentadas a contrair novas dívidas em dólares, muitas vezes, para operações de risco e baixa produtividade. De acordo com dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS) de Basileia, a dívida total das empresas privadas nos países emergentes atingiu a marca de 3,4 trilhões de dólares, mais que o dobro do nível anterior à crise.

Com a desvalorização continuada das suas moedas nacionais, as economias emergentes encontram cada vez mais dificuldades para pagar dívidas e juros. Para cobrir os buracos financeiros, elas têm recortado os orçamentos públicos, provocando graves tensões sociais. Agora, cada aumento da taxa de juros estadunidense soa como uma ameaça à sua própria estabilidade econômica e nacional. Além disso, a atual queda dos preços das matérias-primas das quais são largamente produtoras e a desaceleração esperada no seteor emergente como um todo, e não apenas na China, representam um novo agravante. Se considerarmos que eles representam 40% do PIB mundial, a sua instabilidade deverá ter consequências negativas globais.

Também, nos EUA, os juros zero e a orgia de liquidez geraram uma tendência semelhante. Em vez de ser usada na expansão dos negócios, frequentemente, a liquidez tem servido para financiar fusões e aquisições. Apenas em 2015, 327 bilhões de dólares foram dirigidos a tais operações. Além disso, entre 2009 e 2014, 1,2 trilhão de dólares foi derramado em fundos de títulos corporativos. E até mesmo o Escritório de Pesquisa Financeira da Secretaria do Tesouro estadunidense, no seu recente relatório anual, vislumbra um “alto risco” para o refinanciamento das obrigações do setor não financeiro.

Assim sendo, não é por acaso que, nas últimas semanas, uma série de fundos de investimento que operam com os chamados “bônus lixo” (junk bonds) de alto risco entrou em crise. O setor cresceu enormemente nos últimos anos, particularmente, na área de energia – na verdade, substituiu o das hipotecas imobiliárias subprime, que era o favorito antes da crise. Isto gerou vendas adicionais no vasto mercado de junk bonds, com repercussões negativas sobre todo o mercado de títulos. Estima-se que existam cerca de 1,4 trilhão de dólares em títulos de alto risco que exigem um refinanciamento de curto prazo.

Uma das expectativas decorrentes do aumento das taxas de juros seria reduzir a tendência do sistema bancário e do setor empresarial de recorrer aos empréstimos “fáceis”. Mas, na verdade, os bancos estadunidenses já têm enormes reservas excedentes na casa de 2,42 trilhões de dólares, de modo que o aumento mencionado, dificilmente, irá determinar mudanças no seu comportamento.

Como se sabe, o Banco Central Europeu (BCE), no entanto, tem a intenção de prosseguir com uma política de expansão da liquidez. Aqui, é preciso estar bastante atento para não se gerar um efeito de “carry trade” com o euro, isto é, aplicar em atividades especulativas fora da Europa empréstimos em euros a juro zero, como já ocorreu anets com o iene e o próprio dólar.

Considerando-se os riscos de novas turbulências, na Europa como um todo e na Itália, em particular, é preciso se enfrentarem de forma clara e decisiva as crescentes dificuldades do sistema bancário. Precisamos de controles mais rigorosos sobre as suas atividades, fortes restrições ou até mesmo a proibição absoluta de operações de alto risco, tanto com derivativos como com junk bonds, maior proteção para os poupadores e duras sanções penais contra diretores e gerentes de bancos que não cumprem os regulamentos.

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