Washington insiste na Guerra Fria 2.0

A virtual impossibilidade de as elites dirigentes dos EUA admitirem o advento de um mundo multipolar e cooperativo, que está relegando às páginas da História a hegemonia unipolar desfrutada por elas, após o final da Guerra Fria, se evidencia em quase todas as ações de política externa de Washington. As últimas semanas têm proporcionado exemplos relevantes:

1) O abandono do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, sigla em inglês), anunciado pelo próprio presidente Donald Trump, em 2 de fevereiro. O INF, assinado pelos os presidentes George H.W. Bush e Mikhail Gorbachov, em 1989, foi um dos acordos chave que possibilitou o fim negociado da Guerra Fria, com a proibição do desenvolvimento de mísseis terrestres com alcance entre 500 e 5.500 quilômetros, medida que beneficiavam particularmente a Europa, teatro imediato de qualquer eventual confrontação bélica entre as superpotências. Mais que a Rússia, cujas novas armas hipersônicas lhe oferecem vantagens praticamente equivalentes aos mísseis enquadrados no INF (e que, de qualquer modo, também anunciou a sua retirada), a medida tem como alvo principal a China, que não era parte do tratado e já afirmou que não pretende aderir a qualquer acordo limitador da sua tecnologia de mísseis.

Tanto a Rússia como a China são consideradas “potências contestadoras” da hegemonia estadunidense, na mais recente versão da “Estratégia de Segurança Nacional”.

2) Apesar do anúncio de Trump sobre uma iminente retirada dos efetivos militares estadunidenses na Síria, o Pentágono tem outros planos e, ao contrário, parece estar ampliando a presença de suas forças terrestres na região ao leste do rio Eufrates, sob o pretexto de combater as poucas centenas de combatentes do Estado Islâmico ainda existentes na área. Na verdade, a intenção é estender ao máximo a permanência das forças, com o intuito de vigiar a rodovia Bagdá-Damasco, para dificultar as transferências de materiais militares iranianos à Síria e ao grupo libanês Hizbollah (que não deixaram de ocorrer em nenhum momento).

3) No Afeganistão, a despeito do anúncio de negociações com as forças políticas locais, inclusive o Talibã, para encerrar o conflito iniciado em 2001, o Pentágono já deixou claro que não pretende retirar totalmente as suas forças do país. Mesmo após um eventual fim das hostilidades abertas, um núcleo de contingente será mantido ali, em bases que podem ser rapidamente mobilizadas em novas operações militares, além de funcionarem como elementos de pressão contra as iniciativas de integração da Ásia Central à vasta rede de infraestrutura encabeçada pela China, com apoio da Rússia, para integrar a massa continental eurasiática.

4) Na crise da Venezuela, a atuação de Washington é tomada dos manuais operacionais da Guerra Fria, inclusive, com a “ressurreição” de ativos personagens da época. Um deles é Elliott Abrams, célebre pela participação no famigerado escândalo Irã-Contras da década de 1980, nomeado para encabeçar os esforços “diplomáticos” para a defenestração do presidente Nicolás Maduro (ver Resenha Estratégica, 30/01/2019). Juntamente com o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, outro notório “neoconservador”, Abrams representa os círculos mais beligerantes do Establishment, para os quais diplomacia é sinônimo de força militar (apesar de poucos deles terem algum dia vestido um uniforme).

5) Para assegurar tudo isso, Trump anunciou a maior dotação orçamentária de todos os tempos para o Pentágono, 716 bilhões de dólares, montante que, acrescido dos gastos em inteligência, armas nucleares (a cargo do Departamento de Energia), cuidados com veteranos e outras rubricas, passa fácil de 1 trilhão de dólares, superando os gastos militares combinados de todos os demais países. Em síntese: a agenda é a Guerra Fria 2.0.

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