Venezuela: freada antes do abismo

A gravíssima crise política e econômica na Venezuela parece apresentar uma perspectiva de encaminhamento com a intermediação do Vaticano, para deter o curso de violência que ameaçava com o risco de uma guerra civil. A solicitação foi feita pelo próprio governo do presidente Nicolás Maduro, como uma medida extrema, diante da sua crescente perda de apoio interno e do seu virtual isolamento político regional, inclusive a ameaça iminente de suspensão do país no Mercosul.

A intervenção vaticana é apoiada pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Em 24 de outubro, Maduro já havia sido recebido no Vaticano pelo papa Francisco, que o instou a “um diálogo sincero e construtivo”, para aliviar o “sofrimento” da população e promover a “coesão social” (CNN, 24/10/2016).

Não obstante os préstimos pontificais, o poder interno capaz de catalisar uma solução real para o impasse reside nas Forças Armadas venezuelanas, que, a despeito das restrições crescentes ao estilo confrontacionista de Maduro, não querem que o desfecho da crise seja uma derrocada violenta do regime, que possa provocar convulsões internas potencialmente desestabilizadoras. “O papel desempenhado pelas Forças Armadas venezuelanas, na situação de acirramento de ânimos e crise que o país atravessa, saltou aos olhos, como era previsível”, afirma o sítio Defensa.com.

Anteriormente ao início do diálogo, o ministro da Defesa, Vladimiro Padrino López, afirmou que “as Forças Armadas nacionais têm estado vigilantes da situação política e social da Venezuela”, e alertou a todas as forças políticas e movimentos sociais para que “vejam a nossa instituição com a seriedade com que devem ser vistas”. E acrescentou que “exigimos respeito à Constituição e às leis”, do contrário, “isso é um atentado contra a soberania”. De forma significativa, em meio à inflação galopante, os militares têm a missão de controlar a produção e importação de alimentos e medicamentos, o que dá uma ideia da importância assumida pela instituição em meio à crise.

O primeiro requisito para um diálogo efetivo é a neutralização dos setores radicais de ambas as partes. “O diálogo que parecia impossível na Venezuela, entre governo e oposição, não só começou, mas corre a toda velocidade, embora ninguém aposte um só dólar em que não possa descarrilar a qualquer momento”, advertiu o diário El Mundo, em 31 de outubro.

Segundo o jornal, a habilidade diplomática vaticana levou a oposição a participar do diálogo, a despeito das suas restrições a Maduro e da recusa da Vontade Popular (VP), partido dirigido pelo atual preso político Leopoldo López.

As negociações têm um amplo apoio popular. Uma pesquisa de opinião realizada pela empresa Hinterlacer demonstrou que 83% dos entrevistados concordam com que o governo e a oposição se sentem para conversar e 65% consideram que a prioridade do diálogo deve ser a resolução dos problemas econômicos.

O estado deplorável da economia foi o que levou Maduro a buscar uma negociação, em face da séria crise cambial e de desabastecimento de produtos primários, especialmente, alimentos e medicamentos. Embora a situação deva melhorar com uma eventual elevação dos preços do petróleo, em decorrência do acordo de produção entre a Arábia Saudita e a Rússia, a falta de divisas é extrema, especialmente, na estatal petrolífera PDVSA. Neste cenário, tanto a Rússia como a China estão aprofundando as suas reações econômicas com a Venezuela, por meio de empréstimos diretos e projetos conjuntos para a exploração de petróleo e gás natural. Em agosto, o Banco de Desenvolvimento Chinês aprovou um crédito de 5 bilhões de dólares para a PDVSA. Na mesma linha, a estatal vem desenvolvendo contatos com a petroleira russa Rosneft e negociando novos créditos com o banco Gazprombank.

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