Varsóvia e Munique, sinais de ruptura na Aliança Atlântica

Dois recentes encontros realizados na Europa são exemplos da fratura exposta nas relações transatlânticas e mostram os limites e as dificuldades com os quais se defrontam o Establishment dirigente dos EUA e seus apêndices europeus, no esforço para preservar a hegemonia unipolar baseada no fomento de um conflito da Europa continental com a Rússia, em uma torpe tentativa de retomada da Guerra Fria. Em ambos os casos, é cada dia mais patética a obsessão e a arrogância dos representantes estadunidenses, aferrados ao moribundo cenário global unipolar, cegos à difícil, mas firme emergência de um mundo multipolar e cooperativo. Em ambos os eventos, observou-se uma reação aberta dos aliados europeus contra uma escalada de confrontação que, claramente, contraria os próprios interesses europeus, crescentemente mais desprezados por Washington.

O primeiro ocorreu em Varsóvia, onde, com o apoio da sua contraparte polonesa, o Departamento de Estado dos EUA articulou às pressas uma reunião de 60 países, alegadamente, para discutir o tema “Paz e segurança no Oriente Médio”. Realizado em 13 e 14 de fevereiro, o encontro foi, na verdade, uma plataforma para ataques ao Irã, que compartilha com a Síria de Bashar al-Assad e o grupo libanês Hizbollah a condição de principais “bestas negras” de Washington no Oriente Médio. Tal objetivo foi candidamente explicitado por uma das estrelas do evento, o premier israelense Benjamin Netanyahu, o único chefe de governo ou Estado presente, antes do seu embarque para a capital polonesa.

A delegação estadunidense foi encabeçada pelo vice-presidente Mike Pence, o secretário de Estado Mike Pompeo, o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, estes últimos notórios representantes dos “neoconservadores” que dominam a política externa do governo de Donald Trump, além do genro do presidente, Jared Kushner, e seu advogado pessoal, o ex-prefeito de Nova York Rudi Giuliani.

De forma significativa, com a previsível exceção do Reino Unido, que enviou o chanceler Jeremy Hunt, os demais aliados europeus de Washington enviaram a Varsóvia apenas funcionários diplomáticos de segundo escalão, que se limitaram a acompanhar os trabalhos. A diplomata-chefe da União Europeia (UE), Federica Mogherini, recusou-se a participar. A Turquia, importante aliada na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), esteve ausente, assim como a Rússia e a China. O Líbano desistiu à última hora e, por motivos óbvios, o Irã e a Síria não foram convidados.

Em síntese, estiveram ausentes os países diretamente engajados na reconfiguração e reconstrução do Oriente Médio e sem os quais não é possível qualquer discussão séria sobre “paz e segurança” na região. E os aliados europeus dos EUA explicitaram a sua contrariedade com a sabotagem do acordo nuclear de 2015 com o Irã, que se transformou em uma mais das obsessões do governo Trump.

Na semana anterior, os governos do Reino Unido, França e Alemanha anunciaram a intenção de estabelecer um sistema de trocas comerciais específico (nome oficial: “veículo de propósito especial”) para a compra de petróleo iraniano, visando a contornar as restrições de uso do dólar impostas pelos EUA, que deverão entrar em vigor no próximo dia 5 de maio.

Embora todos os enviados estadunidenses tenham feito declarações e discursos bombásticos, o destaque ficou com o vice-presidente Pence, que não perdoou a audácia dos europeus: “Eles chamam isso de ‘veículo de propósito especial’. Nós o chamamos de um esforço para romper as sanções estadunidenses contra o regime revolucionário assassino do Irã. (…) Chegou a hora de os nossos parceiros europeus se retirarem do acordo nuclear com o Irã e se juntarem a nós, enquanto exercemos a pressão econômica e diplomática necessária para dar ao povo iraniano, à região e ao mundo a paz, a segurança e a liberdade que eles merecem (White House, 14/02/2019).”

Aparentemente, nem mesmo a plateia arranjada se deixou impressionar com a retórica inflamada dos três patetas “durões” de Washington (Pence, Pompeo e Bolton). Como observou o veterano ex-analista da Agência Central de Inteligência (CIA), Philip Giraldi: “A cúpula de Varsóvia não produziu os resultados vislumbrados pela Casa Branca, reunir um grupo disposto a uma escalada de pressões contra o Irã antes de atacá-lo, enquanto, simultaneamente, gerava apoio para o muito discutido Plano de Paz Israel/Palestina de Jared Kushner. (…) Como resultado da morna recepção em Varsóvia, mesmo de Estados árabes que odeiam verdadeiramente o Irã, Washington está agora mais fraca no Oriente Médio do que nunca antes. Isto é uma coisa boa, pois as políticas abraçadas por Trump, Bolton, Pompeo, Giuliani e Kushner não são apenas um embaraço, elas são um desastre potencial para todo mundo na região, inclusive os EUA (Strategic Culture Foundation, 21/02/2019).”

Confronto em Munique

Da Polônia, a delegação estadunidense voou para a vizinha Alemanha, para reforçar os recados na Conferência de Segurança de Munique (CSM), que reúne anualmente líderes políticos, oficiais militares e especialistas em segurança e defesa de todo o mundo, para discussões abertas sobre questões cruciais para o cenário de segurança mundial. Em sua 55ª edição (15-17/02/2019), a conferência bateu um recorde este ano, com a presença de 40 chefes de Estado e de governo, 50 chanceleres e 30 ministros da Defesa, entre mais de 500 participantes de mais de 60 países.

Na capital da Baviera, os representantes de Washington repetiram as diatribes e ameaças vocalizadas em Varsóvia, mas Pence aproveitou para investir contra a Turquia, pela recente compra de mísseis antiaéreos S-400 russos, e contra a Alemanha, pela insistência em prosseguir com a construção do gasoduto Nord Stream 2, para a importação direta de gás natural russo via Mar Báltico, em lugar das rotas terrestres via Ucrânia. Os EUA se opõem ferozmente ao empreendimento, para viabilizar a venda de GLP aos europeus, apesar dos seus preços bem mais altos.

Desta feita, porém, em lugar de uma plateia meramente silenciosa, eles se depararam com aliados irados e representantes de países eleitos como inimigos – Rússia, Irã e outros – com uma linguagem muito mais adequada ao cenário multipolar/cooperativo, cujo efeito combinado foi, principalmente, evidenciar o crescente distanciamento entre as duas margens do Atlântico.

A réplica principal veio da anfitriã, a chanceler alemã Angela Merkel, que, em um discurso veemente, sem citar nominalmente os EUA ou seu presidente, criticou a decisão de Trump de retirar-se do acordo nuclear com o Irã e do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), afirmando que a Europa foi deixada sentada “no meio do caminho, com o resultado”. Quanto ao gasoduto, disparou: “Se durante a Guerra Fria… nós importamos grandes quantidades de gás russo, eu não sei por que os tempos sejam piores hoje, para que não possamos dizer: a Rússia continua sendo uma parceira… Geoestrategicamente, a Europa não pode ter interesse em cortar todas as relações com a Rússia (RT, 16/02/2019).”

Comentando os discursos de Merkel e Pence, recebido em silêncio, o New York Times de 16 de fevereiro observou que ambos constituem “um lembrete de quão distantes a Europa e os EUA se encontram, em uma série de assuntos globais”.

Por sua vez, a revista alemã Der Spiegel, tradicionalmente pró-Ocidente, comentou que o mundo descrito por Pence era “um estranho mundo paralelo que tem pouco a ver com a realidade”. Ironizando o discurso em que o vice-presidente reafirmou a “liderança estadunidense”, a revista contestou: “Os EUA não estão liderando; estão se retirando. Outras potências estão se movendo para ocupar o vácuo deixado pela errática política ‘EUA em Primeiro Lugar’ de Trump – China, Rússia, mas também o Irã. E os EUA não estão liderando, mas dando instruções (Sputniknews, 18/02/2019).”

Em seu discurso, o chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif, já um veterano da CSM, não mediu palavras para atacar as invectivas estadunidenses contra o seu país: “Os EUA e seus clientes locais na nossa região estão sofrendo com as consequências naturais das suas próprias escolhas erradas. Mas eles usam este e outros foros para reviver a histeria contra a política externa do Irã e obscurecer a sua realidade. Mas o Irã os forçou a fazer todas aquelas escolhas erradas, como alguns afirmam ridiculamente? Somos culpados, porque estivemos do lado certo da História, combatendo Saddam Hussein, a al-Qaida, o Talibã, o Estado Islâmico, a Frente al-Nusra e caterva, enquanto os EUA e companhia os estavam financiando, armando e apoiando (Sputniknews, 18/02/2019)?”

Em uma reunião bilateral, Zarif recebeu de sua colega europeia Mogherini a garantia de que a UE continua empenhada em preservar o acordo nuclear e com a criação do mecanismo de trocas para permitir a continuidade do comércio dom o Irã.

Já o chanceler russo Sergei Lavrov, disse aos jornalistas que sua delegação participou de mais de duas dúzias de reuniões bilaterais, e que a Europa está cada vez mais interessada no que a Rússia tem a dizer e em normalizar as relações entre as partes. “Todas as conversas foram construtivas, inclusive aquelas com políticos que, em outras situações, fazem duras declarações contra a Rússia quando fazem discursos no Parlamento Europeu e em outros lugares”, disse ele (RT, 16/02/2019).

Lavrov também investiu contra as tentativas dos EUA de “aplicar extraterritorialmente a sua legislação e forçar outras nações a obedecer às leis de um Estado estrangeiros”, que apenas contribuem para semear a “confusão entre os seus próprios aliados”.

Em síntese, os encontros de Varsóvia e Munique evidenciam o vácuo da transição de um mundo hegemônico unipolar para uma ordem de multipolaridade cooperativa. Trata-se de um momento de grandes riscos, devido à irracionalidade e à obstinação dos mentores e beneficiários de um mundo paralelo que não tem condições de sobreviver, mas ainda pode infligir enormes estragos à humanidade.

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