Editorial do jornal Solidariedade Ibero-americana, Vol. XXVIII, no. 10, março de 2022
A inércia e o pensamento linear dos arautos da declinante ordem mundial do eixo euroatlântico não lhes oferecem outros meios para explicar o presente quadro estratégico mundial, exceto recorrer aos moldes geopolíticos do século XX. Com a eclosão da guerra na Ucrânia, muitos deles têm se empenhado em sugerir uma nova Guerra Fria, desta vez, entre um imaginário “mundo livre” e os “regimes autocráticos” encabeçados pela Rússia e a China.
De fato, a despeito da tragédia humanitária representada por qualquer guerra, a ação militar russa sinaliza o fim da ordem pós-Guerra Fria. E, embora ainda não se possa antever o futuro da civilização, não cabe dúvida de que a ordem hegemônica unipolar baseada no “excepcionalismo” anglo-saxão e na predestinação calvinista, que caracterizou toda a era colonialista desde o século XVII, está terminada. O problema é que, por um lado, ela ainda não acabou de morrer e se move agressivamente como um zumbi, representado por uma personalidade senil à frente de uma superpotência nuclear. E, por outro, a nova ordem ainda não terminou de nascer, apesar de anunciada no histórico manifesto divulgado pelos presidentes da China e da Rússia, Xi Jinping e Vladimir Putin, em 4 de fevereiro, em Pequim.
É impossível antecipar a duração dessa disputa entre dois mundos e espaços físicos irreconciliáveis. Mas já vivemos um período histórico de transição, cujo desfecho poderá ser um novo renascimento da civilização ou uma nova idade de trevas, se os defensores da ordem moribunda preferirem incinerar o planeta a renunciar às suas estruturas de egoísmo institucionalizado. Um exemplo dessa dinâmica é a condenação da guerra por uma maioria de membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e uma condenação ainda maior às insólitas sanções aplicadas à Rússia, aí incluída uma política de “cancelamento” de tudo o que representa cultural e religiosamente a nação eslava.
Essa transição também se apresentará como um confronto entre as raízes culturais e espirituais das nações e as políticas “identitárias” (ideologia de gênero, agenda LGBT etc.), que as instituições hegemônicas pretendem consolidar como condicionantes fundamentais de civilização e direitos humanos.
E salta aos olhos que a transição também implicará no fim do sistema monetário baseado no dólar estadunidense, com o advento de um sistema multipolar baseado em uma cesta de moedas e na reconversão do crédito em instrumento para o desenvolvimento, em vez de combustível para a “globalização” financeira.
Nesse cenário, os países em desenvolvimento precisam fortalecer blocos regionais (como a América do Sul), para aumentar a sua força na criação das novas estruturas de relacionamento legítimas, baseadas na justiça e não mais no poder militar, e empenhadas na defesa do bem comum mundial.

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