O fator «sustentabilidade» não poderia estar ausente da Copa do Mundo. Desde o início, quando o Brasil foi escolhido para sediar a edição de 2014 da competição, em 2007, o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou uma grande preocupação com o aspecto «ecologicamente correto» do evento, em grande medida, sob influência do «espírito verde» da Copa de 2006, realizada na Alemanha. Nesta, o comitê organizador local lançou o «Green Goal» (Gol Verde), uma série de medidas de compensação das emissões dos gases de efeito estufa – geralmente, meras transações com os chamados créditos de carbono.
Agora, em sua coluna no jornal O Globo (20/06/2014), o jornalista Ancelmo Gois afirmou que a controvertida escolha de Manaus (AM) e Cuiabá (MT) como sedes da Copa de 2014, com a construção de estádios (ou arenas, na denominação adotada) que, após o torneio, deverão se transformar em autênticos elefantes brancos, devido à insignificância dos campeonatos locais, se deveu a tal ânsia pela «sustentabilidade». Segundo ele, Lula teria formulado, junto com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e empreiteiros, a ideia de se construir uma arena em uma área do bioma Floresta Amazônica e outra no bioma Pantanal, como forma de impulsionar a imagem do Brasil no exterior, como um país comprometido com o meio ambiente.
Como muitos outros destacaram antes, Gois observou o desperdício de recursos representado pela Arena Amazônia, que custou R$ 700 milhões e tem 40 mil lugares, embora o campeonato amazonense só atraia em média cerca de mil pessoas por jogo. Para ele, as medidas de compensação ambiental adotadas na construção dos estádios não justificam o barulho que se tem feito com a questão da «Copa da Sustentabilidade» – sem falar no destino de tais construções, após a Copa.
Outro aspecto do empenho de assegurar a «sustentabilidade» do evento foi a concessão de uma certificação pertinente às arenas. No último dia 18, foi anunciado que seis delas haviam sido agraciadas com o selo Leed – Leadership in Energy and Environmental Design (Liderança em projetos de energia e ambientais). Além do Maracanã, que será o palco da final da Copa, em 13 de julho, foram contemplados a Arena Castelão (Fortaleza), a Arena Fonte Nova (Salvador), o Mineirão (Belo Horizonte), a Arena da Amazônia (Manaus) e a Arena Pernambuco (Recife).
Criado nos EUA e presente no Brasil desde 2007, o LEED é considerado o principal selo de certificação «ambientalmente correta» para construções no País, que já é o quarto em número de certificados conferidos, atrás apenas dos EUA, China e Emirados Árabes Unidos.
Segundo o Green Building Council do Brasil, organização responsável pela emissão do LEED no País, para receber o selo, cada estádio teve que cumprir uma série de requisitos. Por exemplo, a Arena Fonte Nova teve 20% dos seus materiais de construção feitos a partir de materiais reciclados, 75% dos resíduos das suas obras desviados de aterros sanitários e 35% de sua energia provenientes de fontes ditas renováveis, como eólica e solar. Já a Arena Castelão reduziu em 12,7% o seu consumo de energia e 97% dos seus resíduos sólidos foram desviados do aterro sanitário.
Felipe Faria, diretor executivo do Green Building Council Brasil, elogiou o engajamento para tornar os estádios mais «verdes» e destacou que os «diversos elementos sustentáveis incorporados a estes estádios irão reduzir o impacto ambiental dos jogos no Brasil, desde o acesso de trânsito à redução do consumo de água e energia» (Redação EcoD, 20/06/2014).
A lamentar, o fato de que tantas preocupações com o meio ambiente não tenham incorporado uma destinação realmente sustentável para as arenas que ficarão ociosas após a fase de grupos da Copa, caso da «certificada» Amazônia, além de Cuiabá e Natal, que já passaram à condição de dores de cabeça para os prefeitos locais.
P.S.: Da mesma forma, poderíamos lamentar a absoluta falta de «sustentabilidade» da seleção brasileira, nos quesitos mais relevantes para a competição: qualidade do futebol e maturidade emocional.

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