“Um fracasso generalizado do método científico”

Um dos fatores mais relevantes e menos percebidos da presente crise global é o crescente abandono do método científico que a Humanidade levou milênios para desenvolver, trocado por um enfoque míope e limitado de “ciência por consenso”, cujo impacto na formulação das políticas públicas de ciências e tecnologias tem sido devastador. De fato, ao vincular a “corrente principal” das atividades científicas a agendas determinadas política e ideologicamente – como no caso exemplar dos estudos climáticos -, essa tendência acaba criando um processo autoalimentado de supressão de quaisquer evidências que contrariem dogmas estabelecidos e “consensualmente” aceitos pela mainstream. Com perturbadora frequência, linhas de pesquisa que oferecem perspectivas promissoras para o entendimento de fenômenos de grande relevância para o futuro da Humanidade têm sido deliberadamente descartadas como irrelevantes ou exóticas e, portanto, não merecendo a atenção de cientistas “sérios”, autoridades e público, recursos para pesquisas, divulgação e os demais requisitos para que o conhecimento científico possa cumprir o seu papel de força motriz do progresso das sociedades.

Assim, não admira que poucos cientistas insistam em nadar contra a corrente e prosseguir em tais áreas, lutando contra o descrédito de colegas e do público, não raro beirando o desprezo, falta de verbas, equipamentos e tempo, e passem a se reunir quase em pequenas confrarias, para trocar ideias e informações com seus pares igualmente obstinados.

Dois encontros internacionais recentes abordaram duas dessas áreas “proscritas”: a 16ª. Conferência Internacional sobre Fusão a Frio (ICCF16), em Chennai, Índia (6-11/02/2011) e o simpósio sobre Fenômenos Sismoeletromagnéticos e Precursores de Terremotos, realizado durante a Assembleia Geral de 2011 da União Europeia de Geociências, em Viena, Áustria (7-8/04/2011).

A “fusão a frio”, também chamada reações nucleares assistidas quimicamente (CANR, em inglês) ou reações nucleares de baixa energia (LENR, em inglês), foi apresentada ao mundo em 1989, quando os eletroquímicos Martin Fleischmann e Stanley Pons, da Universidade de Utah, anunciaram ter detectado excesso de calor e partículas nucleares em experiências envolvendo a eletrólise de água pesada em contato com uma superfície de paládio. Posteriormente, dificuldades com a repetição da experiência e dos resultados, além de um relatório desfavorável do Departamento de Energia dos EUA, levaram ao descrédito em relação ao fenômeno, embora cientistas de vários países e até mesmo instituições governamentais (como o Departamento de Pesquisas da Marinha dos EUA) tenham continuado as pesquisas, em perfil mais baixo. Desde então, as pesquisas motivaram a realização de 16 conferências internacionais sobre o tema, sendo a de Chennai a mais recente.

A ICCF16 se realizou sob o impacto do anúncio de uma experiência ocorrida semanas antes, na Itália, quando os físicos Sergio Focardi e Andrea Rossi, da Universidade de Bologna, demonstraram publicamente um dispositivo de 10 kilowatts capaz de gerar um excesso de energia térmica dez vezes maior. No evento, do qual participaram cerca de 500 pessoas, entre pesquisadores de vários países e professores e estudantes indianos, foram relatados os avanços obtidos em pesquisas realizadas na Itália, Japão, Rússia e EUA.

Na abertura, Mustansir Barma, diretor do Instituto Tata de Pesquisa Fundamental (TIFR), o principal centro de pesquisas básicas indiano, admitiu que os fenômenos observados na área ainda constituem um enigma científico, pois ainda não se sabe como a matéria condensada deflagra as reações nucleares observadas. Ou, em outras palavras, como é possível que reações químicas na escala de elétrons-volts (eV) possam ocasionar reações nucleares na escala de MeV, um milhão de vezes maior?

Em seu discurso, que foi lido na conferência devido à sua ausência forçada, o vice-chanceler de Pesquisas da Universidade de Missouri, Robert Duncan, enfatizou que a deplorável situação que envolve as pesquisas na área se deve a “um fracasso generalizado do método científico”. Ele recordou os primeiros passos de duas tecnologias que hoje têm enorme importância, os dispositivos eletrônicos no estado sólido (transistores, circuitos integrados etc.) e os supercondutores em altas temperaturas. Problemas idênticos aos ocorridos com a “fusão a frio”, como as dificuldades de repetibilidade das experiências, prejudicaram o desenvolvimento comercial de ambas as tecnologias, hoje consagradas.

No evento, a maioria dos pesquisadores se mostrou otimista com a perspectiva de que a exploração comercial do fenômeno, para a geração de energia, poderá ocorrer em uma ou duas décadas (Infinite Energy, March/April 2011).

Antecipando terremotos

A despeito da importância do tema, o simpósio Fenômenos Sismoeletromagnéticos e Precursores de Terremotos, realizado menos de um mês após o grande terremoto que devastou o Nordeste do Japão, recebeu escassa atenção dos participantes da reunião anual da União Europeia de Geociências. Não obstante, os trabalhos apresentados permitiram avaliar os importantes progressos que têm sido feitos em vários países, no entendimento dos terremotos como fenômenos não somente geológicos, mas inseridos em um contexto extraterrestre, no qual podem ser influenciados por fenômenos como as radiações solares. Em especial, pesquisadores como os italianos Píer Francesco Biagi e Tommaso Maggipinto, o japonês Masashi Hayakawa, o russo Sergey Pulinets, o francês Michel Parrot, o estadunidense Friedemann Freund e outros, têm se dedicado a estudar os sinais precursores dos grandes terremotos, como se manifestam no campo geomagnético, na ionosfera e na própria atividade solar.

Michael Parrot, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) francês, apresentou os resultados preliminares de uma série de levantamentos feitos a partir do satélite francês Demeter, que ficou seis anos em órbita coletando dados sobre áreas sísmicas do globo terrestre. Suas palavras sintetizam a situação geral:

Estudos recentes… mostraram que sinais atmosféricos precursores foram observados ao nível do solo e no espaço, em vários eventos sísmicos recentes. A grande pergunta que se discute na comunidade científica é se esses sinais ocorrem de maneira sistemática antes dos grandes terremotos. Para responder a essa pergunta, começamos a estudar as anomalias atmosféricas durante os grandes terremotos.

Nosso enfoque se baseia na integração de vários parâmetros físicos e ambientais (radiação térmica infravermelha, concentração de elétrons na ionosfera, atividade de radônio, temperatura do ar e sismicidade), que se encontram relacionados com os terremotos… Nossos primeiros resultados sugerem o aparecimento de anomalias atmosféricas sistemática próximo à zona do epicentro, de um a cinco dias dos grandes terremotos, o que poderia explicar-se por um processo comum entre os parâmetros físicos observados e o processo de preparação do sismo.

As apresentações e discussões ocorridas no evento deixam claro que o prognóstico de grandes terremotos, em um futuro próximo, já deixou de ser especulação, para se tornar uma possibilidade concreta. Vários pesquisadores ressaltaram a necessidade de estabelecimento de um sistema global de coleta de dados, inclusive, com sensores montados em satélites exclusivos (como os que russos, britânicos e chineses se preparam para lançar), para proporcionar uma visão abrangente das interações entre a Terra, seu campo magnético e o Sol. Ainda que, como vários debatedores ressaltaram, devido à complexidade dos fenômenos envolvidos, dificilmente, se chegará a níveis de acertos próximos a 100%, a possibilidade de que milhares e, potencialmente, milhões de vidas possam vir a ser salvas com a antecipação de sismos de grande magnitude que possam afetar grandes centros populacionais, justifica todos os recursos que forem investidos nesse mais que promissor campo do conhecimento.

One comment

  1. A própria dependência do concenso para avalisar uma ‘verdade’, depõe contra a validade deste método de avaliação. Afinal, as coisas são como elas são, não dependendo da nossa concordância para isso, sejam elas científicas ou não. Mas o ideologismo que vigora atualmente não aceita limites, nem quando se trata de transformar mentiras em verdades, caso isso seja possível.

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