Um fim à seca nuclear

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A gravidade da crise hídrico-energética com a qual o Brasil se defronta precisa ser internalizada pelas lideranças de todos os setores da sociedade, a começar pelos tomadores de decisões, para que as lições dos equívocos cometidos na formulação e implementação das políticas específicas sejam devidamente aprendidas e as correções de rumo necessárias possam ser incorporadas aos processos decisórios.

No momento, o País se encontra diante da perspectiva real de um duplo racionamento no fornecimento de água e eletricidade, devido à seca prolongada que afeta as regiões Sudeste e Centro-Oeste, cujas consequências poderão agravar ainda mais os efeitos da recessão causada pela viciosa combinação da retração das atividades econômicas com a política de austeridade fiscal adotada pelo governo federal. Com todos esses fatores, será difícil evitar uma queda de alguns pontos percentuais no PIB e o consequente aumento do desemprego, além do sério risco de novas agitações sociais ao estilo das manifestações de junho de 2013, complicadas pela polarização política resultante das últimas eleições.

Apesar de severa, a estiagem atual está longe de ser inusitada ou imprevisível, como mostram os registros hidrológicos históricos, em especial, no estado de São Paulo, que remontam ao final do século XIX. Como têm ressaltado numerosos especialistas, os dados mostram que secas como essa ocorrem em ciclos de 35-50 anos, o que permite que os seus efeitos possam ser eficazmente enfrentados com um planejamento adequado da infraestrutura de água e energia. Portanto, o problema nada tem a ver com a dinâmica climática, mas com as opções políticas feitas nas últimas décadas, sob a influência de tendências externas alheias à realidade nacional e aos interesses maiores da sociedade brasileira.

Uma dos resultados negativos desse enfoque político é o atraso da oferta de geração de energia nuclear, que se encontra em um patamar muito inferior às potencialidades do setor e às necessidades do País. Em parte devido à baixa prioridade atribuída ao setor pelos governos posteriores ao regime militar, em parte pela imagem negativa que grande parte da população tem da energia nuclear, devido à insidiosa atuação do aparato ambientalista, há apenas duas usinas em funcionamento, Angra 1 e 2 (que respondem por apenas 1,5% da geração total), enquanto a construção de Angra 3 se arrasta e, segundo especialistas, dificilmente será concluída antes de 2020.

Assim, o parque gerador nacional deixou de contar com um eficiente complemento à geração hidrelétrica (também prejudicada pelas contradições do paradigma mercantil adotado no setor e pelas campanhas ambientalistas e indigenistas), sendo preciso se recorrer em maior escala às termelétricas convencionais, cujas limitações, por não terem sido projetadas para funcionar em tempo integral, como tem ocorrido, ficaram evidenciadas com o agravamento da seca, que reduziu a geração das hidrelétricas.

Em um oportuno artigo publicado no jornal O Globo (“Nuclear, já”, 16/02/2015), o presidente da Associação Brasileira de Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN), Antônio Muller, sintetizou as consequências do abandono da opção nuclear e defendeu a sua retomada imediata:

O Brasil tem a sexta maior reserva de urânio do mundo, mas está privilegiando matrizes energéticas complementares, como a eólica e a energia solar. Precisamos tomar a decisão certa, com urgência e optar por ampliar a nossa matriz energética com base nuclear. (…) Um estudo recente da FGV, projeto apoiado pela ABDAN, revela que o nosso país, num cenário conservador, precisará da energia de 18 novas usinas nucleares de 1.000 MW para 2040, sob o risco de vivermos uma crise ainda pior para uma população ainda maior.

Temos tecnologia, conhecimento, material humano e urânio. Por que não tomar esta decisão imediatamente? A cada empreendimento deste porte, mais de 30 mil empregos diretos e indiretos são gerados. Dezenas de empresas de diferentes portes serão geradas levando riqueza e oportunidades para toda região em seu entorno. O nosso país precisa com urgência optar pelo lógico e pelo óbvio. (…)

O Brasil, além dos recursos hídricos explorados, tem para apoiar a sua matriz energética a energia eólica, a energia solar e a geração térmica a gás e a óleo. Mas elas são apenas fontes complementares. Isso precisa ficar bem claro. E um país em franco crescimento como o nosso, com ambições de proporcionar mais progresso, com a consequente melhoria de vida de sua população, educação e saúde, não pode calçar a sua escolha apenas em fontes sazonais. Elas são importantes, mas são alternativas.

A importância da energia nuclear vai muito além da geração de eletricidade, como demonstra o futuro Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que será destinado à produção de radioisótopos para uso na medicina nuclear (para aplicação em exames e tratamentos para diversos tipos de câncer) e pesquisas de aplicações nucleares na agricultura, indústria, desenvolvimento de materiais e meio ambiente. O projeto, encomendado à empresa argentina Invap, teve início no ano passado e tem conclusão prevista para 2017, se também não for alvo das restrições orçamentárias que têm sido a praga do setor.

Além disso, como descreve Jonathan Tennenbaum, no livro Energia nuclear: dínamo da reconstrução econômica mundial (Capax Dei, 2009), a área nuclear pode funcionar como: a) um setor industrial intensivo em conhecimento e indústrias avançadas, capaz de proporcionar incontáveis benefícios para a economia como um todo; b) um centro gerador de avanços científico-tecnológicos revolucionários; e c) o foco de uma mudança de paradigma cultural e educacional, baseada na ideia da participação do homem em um “Universo Nuclear”. Em suas palavras:

O setor nuclear é como uma grande orquestra sinfônica, na qual quase todos os instrumentos da ciência e da tecnologia modernas tocam juntos. Acrescentando-se o setor aeroespacial, o estudante ganha um insight singular sobre a maneira de funcionamento de uma moderna economia intensiva em conhecimento (“orientada pela mente”).

Em última análise, o descaso nacional com a energia nuclear tem raízes na mesma combinação de miopia estratégica e acomodação política, que permitiu que uma seca totalmente previsível pelos registros climáticos e hidrológicos expusesse o País a tamanha vulnerabilidade. Portanto, é imperativo que se ponha um fim à seca nuclear.

One comment

  1. Na primavera de 2012 o Primeiro Ministro da India nesta epoca, Manhoman Singh queixou no jornal da India “Science”: “The United States does not appreciate the need of India for energy!” Na India os Estados Unidos e “parceiros” europeos categoricamente estao ativos na India atraves suas ONGs para impedir todos os projetos energeticos. Ao fim a campanha das ONGs contra o projecto nuclear Kundankulam, fornecido pela industria nuclear russa, tinha chegado a tumultos de pescadores estimulados por um bispo catolica, Ivon Ambroise, junto com ONGs de EUA e Europa. O ministerio de interior da India, “Home Office”, inicou uma contra-ofensiva e deportou um agente “verde” misteriosos alemao (Sonnteg Rainer Hermann) , o que servia como sinal na midia da India. O “Homo Office” tambem inicou uma investigacao de ONGs na India que recebem financiamento desde “fora”. Ha 39,000+ ONGs na India que recebem financiamento desde “fora”: Quasi todas de America do Norte e Europa, mas tambem poucas dos emiratos arabes. 2013 o “Homo Office” proibiou financiamento desde EUA, Bretanha, Franca, Alemanha e “Escandinavia” para 4,144 ONGs ativas na India, e ameacou com acusacao criminal: “Due to diversion of funds against the national interests of India.” O Primeiro Ministro contemporaneo da India, tem relacao mas aberta com EUA, mas recentemente a diretora da Greenpeace de India tem sido impedida de viajar a Londres. Agora EUA quer permitir a India mais “independencia” com o fim de incentivar atritos contra China. ONGs estrangeiras, como “International Rivers” de California/EUA , estao ativos no Brasil e na India e outros paises “independentes”…

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