Trump e o choque de realidade “sustentável”

A eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA ainda suscitará infindáveis análises, comentários e interpretações. Não obstante, um conjunto considerável deles converge para a constatação de que a sua vitória é mais um sintoma de um mal-estar generalizado contra o status quo, que se espalha pelo mundo. Manifestações notáveis do fenômeno foram, por exemplo, o referendo “Brexit” do Reino Unido, as negativas da população nos plebiscitos sobre a renegociação da dívida grega e no acordo com a guerrilha colombiana e as manifestações de junho de 2013 no Brasil, entre outros casos.

Acima de tudo, a vitória de Trump chama a atenção para a profunda dissonância cognitiva que afeta grande parte da sociedade em todo o mundo, no tocante à percepção dos fatos e eventos do mundo real, sob a forte influência de um conluio de interesses políticos, econômicos, acadêmicos e midiáticos, que há décadas vem promovendo a ideologia “globalista”, inclusive com a sua vertente ambiental. No próprio pleito, ele foi invariavelmente apontado como um aventureiro “desqualificado” para uma disputa contra a rival amplamente trombeteada como uma das pessoas “mais preparadas” que já disputou a Casa Branca – a despeito de ser, talvez, a mais corrupta e perversa, com a possível exceção de George Bush pai.

As questões ambientais têm sido particularmente afetadas por essa dissonância cognitiva, que distorce os problemas reais vinculados aos cuidados racionais com o meio ambiente e o bem-estar humano, ofuscando-os sob uma pletora de ameaças e emergências imaginadas ou exageradas, que concentra as atenções, esforços, recursos e formulação de políticas.

No momento, representantes de países de todo o mundo estão reunidos no Marrocos, para discutir políticas de alcance global para o “enfrentamento” das mudanças climáticas, no marco da assumida responsabilidade humana pelo chamado aquecimento global. O fato de que tal influência, simplesmente, não pode ser demonstrada nas oscilações de parâmetros como as temperaturas atmosféricas e oceânicas e os níveis do mar, no período decorrido desde a Revolução Industrial do século XVIII, não tem a menor relevância, diante do alegado – e inexistente – “consenso” que já se teria formado sobre o fenômeno. O que importa é a preservação da “indústria aquecimentista”, que engloba interesses de toda ordem, inclusive recursos financeiros de centenas de bilhões de dólares e um conveniente biombo para políticos interessados em aparentar preocupação com o Bem Comum e na popularidade auferida pelas causas ambientais. Sem falar na instrumentalização da “descarbonização” da economia como uma forma de limitar o desenvolvimento industrial dos países em desenvolvimento – este o objetivo primário do movimento ambientalista desde a sua criação, na década de 1960.

Enquanto isso, o maior problema ambiental individual que afeta a humanidade, a deficiência de infraestrutura de saneamento básico, não recebe sequer uma fração da atenção, esforços e recursos desperdiçados com o inexistente aquecimento global. Em 2007, para celebrar os seus 150 anos de circulação, a revista científica British Medical Journal fez uma pesquisa entre os seus leitores sobre os maiores avanços da medicina naquele período. Deu saneamento básico na cabeça, à frente das vacinas, penicilina, antibióticos e outras conquistas. Pois mais da metade dos 7,5 bilhões de habitantes do planeta ainda não têm acesso a essa infraestrutura fundamental para a saúde e o bem-estar das sociedades. Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso sequer a um simples banheiro, sendo obrigadas a fazer as suas necessidades fisiológicas ao ar livre – na segunda década do século XXI!!!

A conferência internacional das Nações Unidas dedicada às questões climáticas já vai na sua vigésima-segunda edição. Quantas reuniões semelhantes, na mesma escala, foram dedicadas ao saneamento? Cartas (ou e-mails) para a redação.

Um argumento recorrente é o da alegada falta de recursos para que os governos nacionais, principalmente os dos países mais pobres, enfrentem o problema. Ora, as tecnologias de saneamento são de domínio público há mais de um século, os materiais de construção necessários podem ser encontrados em praticamente qualquer país e a qualificação da força de trabalho necessária às obras de engenharia civil não requer esforços fora do alcance desses países. Ah, sim, falta dinheiro, este precioso recurso alegadamente escasso, mas que não falta para o serviço das dívidas públicas dos países e, consequentemente, para alimentar o cassino especulativo em que se converteu o sistema financeiro mundial.

Aí, e não na atual matriz energética mundial e nos níveis de vida dos países industrializados, reside o maior fator de “insustentabilidade” da humanidade em sua presente forma de organização, baseada na mal denominada “globalização”, eufemismo para a livre circulação de capitais descompromissados com os setores produtivos da economia real. Enquanto o cassino global não for devidamente enquadrado e os governos nacionais não recuperarem o controle das suas finanças e, principalmente, da capacidade soberana de emissão de crédito de longo prazo para as atividades produtivas, o conceito de sustentabilidade (sem aspas) não terá qualquer significado real, não passando de outro eufemismo para justificar uma visão distorcida das questões ambientais.

Durante a campanha, Donald Trump eriçou os pelos dos ambientalistas de todo o mundo, com suas invectivas contra os excessos regulatórios que têm prejudicado os setores produtivos e, em particular, contra a politização das questões climáticas. Entre outras ameaças, prometeu cancelar os subsídios estadunidenses às iniciativas climáticas das Nações Unidas e retirar o país do Acordo de Paris, adesão negociada por seu antecessor Barack Obama (que, de resto, precisaria de uma improvável aprovação pelo Senado). Com elas, respondia aos anseios de uma parcela crescente da sociedade que critica – corretamente – os excessos ambientalistas.

Será preciso esperar para ver se ele concretizará tais promessas de campanha. Se o fizer, desfechará um duro golpe contra a estrutura do ambientalismo vinculado ao “globalismo”, espalhando por todo o mundo o que se poderiam chamar de ondas de choque de realidade. Se isto ocorrer, o futuro próximo poderá ver as questões ambientais conduzidas ao terreno sólido da ciência, racionalidade e bom senso, do qual jamais deveriam ter sido afastadas.

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