Tragédia dos refugiados: Europa paga conta de submissão à agenda belicista dos EUA

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Quando os adultos se esquivam de admiti-la, às vezes, como no proverbial conto de Hans Christian Andersen sobre a roupa nova do imperador, é preciso que uma criança lhes chame a atenção para a nudez da realidade. Ou duas, como no caso da tragédia dos refugiados que acorrem em massa à Europa, fugindo das guerras e da implosão das suas sociedades.

Uma delas foi o pequeno sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos, que morreu afogado juntamente com seu irmão de cinco anos e sua mãe, no naufrágio da precária embarcação na qual sua família tentava chegar à ilha grega de Kos. As devastadoras fotos do seu cadáver em uma praia turca, tiradas pela fotógrafa Nilufer Demir, da Dogan News Agency, deflagraram uma onda de comoção e indignação em todo o mundo, pressionando os governos europeus para que adotem um posicionamento mais sério sobre o problema dos refugiados.

A outra foi outro sírio, Kinan Masalmeh, dez anos mais velho, que teve mais sorte que Aylan e conseguiu chegar até a Hungria, onde foi entrevistado pela rede Al-Jazira, em uma estação ferroviária em Budapest. O vídeo de 45 segundos se tornou viral na internet, pois a resposta do jovem fugitivo à pergunta sobre se teria alguma coisa a dizer aos europeus expõe a realidade que muitos têm preferido ignorar sobre o conflito na Síria. Falando em inglês, Kinan é direto e objetivo: “Os sírios precisam de ajuda agora. Só parem a guerra. Nós não queremos ficar na Europa. Só parem a guerra. Só isso.”

Para completar o cenário da realidade, entretanto, é preciso efetivamente um compromisso internacional com uma solução para o conflito, o que inclui um enfrentamento a sério das hordas do Estado Islâmico (EI) e, queira-se ou não, um entendimento com o regime de Damasco.

Em Vladivostok, onde participou do Fórum Econômico Oriental, o presidente russo Vladimir Putin reafirmou a sua proposta de um esforço internacional coordenado contra o EI, ao mesmo tempo em que apontava para a causa da onda de refugiados sírios:

É claro, nós sabemos que existem abordagens diferentes para a Síria. A propósito, as pessoas estão fugindo não do regime de Bashar al-Assad, mas do Estado Islâmico, que tomou grandes áreas na Síria e no Iraque e estão cometendo atrocidades por lá. É por isso que estão fugindo. Eles matam centenas e milhares de pessoas, as queimam vivas ou as afogam, cortam as cabeças das pessoas. Como se espera que as pessoas vivam lá? É claro que estão fugindo (RT, 4/09/2015).

Em Moscou, o chanceler Sergei Lavrov respondeu às acusações de capitais ocidentais sobre o envio de equipamentos e forças militares russas à Síria, que ganharam corpo nos últimos dias, com um recado direto:

Nós ajudamos e continuamos a ajudar o governo sírio a equipar o Exército sírio com tudo o que precisa para evitar [uma repetição] o cenário líbio e outros eventos lamentáveis que ocorreram naquela região, porque alguns dos nossos parceiros ocidentais estavam possuídos pela ideia de remover regimes indesejáveis (Sputnik News, 10/09/2015).

De fato, não é preciso um profundo conhecimento geopolítico para se concluir que o surgimento do EI e a tragédia dos refugiados têm uma origem comum na decisão estratégica dos grupos mais belicistas do Establishment oligárquico anglo-americano, de converter a África do Norte e o Grande Oriente Médio em um dos campos de batalha do “choque de civilizações”, a sua formulação escolhida como substituta da Guerra Fria para justificar a existência do colossal aparelho do “Estado de Segurança Nacional” estadunidense e seus tentáculos. Quanto à Europa, o Velho Continente está pagando o preço da submissão a tal agenda, personificada nas atribuições da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), crescentemente convertida em uma “gendarmeria” de alcance global, cujas ações desde há muito já não se restringem á sua área de jurisdição original.

A destruição da Líbia de Muamar Kadafi e a obsessão quase doentia com a derrubada do presidente sírio Bashar al-Assad constituem manifestações claras da pusilanimidade das lideranças europeias, que simplesmente não conseguem se desvencilhar do alinhamento semiautomático com Washington, que tem prevalecido desde o final da II Guerra Mundial, mesmo quando a agenda estadunidense contraria frontalmente os interesses maiores da Europa, como nos dois casos citados (e, não menos, no conflito na Ucrânia).

Pelo menos um líder europeu, o presidente checo Milos Zaman, não esconde tais fatos, como admitiu em uma entrevista recente à imprensa de seu país. Segundo ele,

a atual onda de imigração surgiu por causa da ideia louca de invadir o Iraque, onde, supostamente, se armazenavam grandes armas de destruição em massa, mas onde, ao final, não se encontrou nada disso. Também surgiu por causa da ideia louca de restaurar a ordem na Líbia e, depois, na Síria. (…) A culpa de tudo isso recai não só nos Estados Unidos, uma vez que as ações contra a Líbia foram coordenadas também por alguns estados da União Europeia (RT, 3/09/2015).

Por outro lado, a submissão europeia a tal agenda tem sido escancarada pela quase inacreditável reação continental aos recentes acontecimentos, com a decisão de efetuar ataques aéreos em território sírio. Em entrevista à rede CNN, o primeiro-ministro francês Manuel Valls explicou a “lógica” por detrás do raciocínio:

No momento, há milhões de sírios desabrigados. Existem campos de refugiados no Líbano, na Jordânia, na Turquia, recebendo 4 a 5 milhões de sírios. E nós não vamos receber 4 a 5 milhões de sírios, então, o problema tem que ser enfrentado na fonte. Estes são assuntos muito difíceis. E, é claro, na Síria, enquanto não encontrarmos uma solução política, enquanto não tivermos destruído esse grupo terrorista, o EI, enquanto não nos tivermos livrado de Bashar Assad, não encontraremos uma solução.

Em busca da “solução”, Valls afirmou que, na próxima semana, irá ao Parlamento francês para explicar a determinação de efetuar ataques aéreos na Síria (CNN, 10/09/2015).

Por essas e outras, talvez, a mais contundente e sintética descrição desse quadro dantesco tenha sido feita pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa, em sua coluna semanal no jornal O Globo de 7 de setembro: “(…) A imagem do corpo de um menino de três anos, numa praia da Turquia, correu mundo com a legenda: ‘a Humanidade dá à costa.’ Vemos tudo isto e compreendemos, horrorizados, que, afinal, os bárbaros já tomaram a Europa. Os bárbaros estão instalados no poder, na Hungria, mas também em Portugal. Os bárbaros governam o Reino Unido, a França e a Itália. Os bárbaros triunfaram.”

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