“The Economist” ao mundo: submissão ao poder anglo-americano ou guerra mundial

Submetam-se ao poderio anglo-americano ou enfrentem o risco de uma nova guerra mundial, desta vez com armas nucleares. Esta foi a mensagem direta da revista The Economist, na edição especial publicada em 25 de janeiro, sob o ameaçador título “A próxima guerra: o crescente perigo de um conflito de grandes potências”.

A proclamação do semanário londrino reflete a crescente contrariedade dos altos escalões do Establishment oligárquico centrado no eixo Washington-Nova York-Londres com o visível desgaste da estrutura hegemônica estabelecida após a última guerra mundial e, particularmente, com a atuação cada vez mais assertiva da Rússia e da China, que consideram os seus principais desafiantes, como demonstra a recém-divulgada “Estratégia de Segurança Nacional” dos EUA (Resenha Estratégica, 24/01/2018).

Tratando-se de um dos principais arautos do sistema hegemônico anglo-americano, a proclamação da revista não deve ser subestimada.

Apesar de preocupante e, em alguns momentos, verdadeiramente assustador, o manifesto da Economist proporciona uma exposição explícita e sem disfarces dos princípios orientadores do pensamento oligárquico anglo-americano, com uma candidez que mescla Trasímaco, o truculento personagem da República de Platão que definia a justiça como o interesse do mais forte, e os ardis semânticos da “novilíngua” do 1984 de George Orwell. Como no trecho do editorial que proclama que “a maior garante da paz mundial é uma América forte”. Porém, adverte:

Como argumenta o nosso relatório especial desta semana sobre o futuro da guerra, mudanças de longo prazo na geopolítica e na proliferação de novas tecnologias estão erodindo a extraordinária dominância militar que os EUA e seus aliados têm desfrutado. Um conflito em uma escala e intensidade não vistas desde a Segunda Guerra Mundial é novamente plausível. O mundo não está preparado.

Depois de citar um confronto dos EUA com a Coreia do Norte, possivelmente nuclear, como o perigo maior, “talvez ainda este ano”, o editorial faz eco da “Estratégia de Segurança Nacional” estadunidense, responsabilizando a China e a Rússia pelo cenário ameaçador:

Mesmo se a China ficar de fora de uma segunda guerra coreana, tanto ela como a Rússia estão entrando em uma renovada competição de grandes potências com o Ocidente. As suas ambições serão ainda mais difíceis de se lidar que as da Coreia do Norte. Três décadas de crescimento econômico inusitado proporcionaram à China a riqueza para transformar as suas forças armadas e dar aos seus líderes o sentimento de que o seu momento chegou. A Rússia, paradoxalmente, necessita afirmar-se agora, porque encontra-se em um declínio de longo prazo. Os seus líderes têm feito pesados gastos para restaurar o poder físico da Rússia e estão dispostos a correr riscos para provar que merecem respeito e um lugar à mesa.

Ambos os países têm se beneficiado da ordem internacional que os EUA fizeram tanto para estabelecer e garantir. Mas eles veem os seus pilares – direitos humanos universais, democracia e o mando da lei – como uma imposição que disfarça interferências estrangeiras e solapa a sua própria legitimidade. Eles são agora Estados revisionistas que querem desafiar o status quo e veem as suas regiões como esferas de influênica a serem dominadas. (…)

Nem a China nem a Rússia querem uma confrontação militar direta com os EUA, que elas certamente perderiam. Mas estão usando o seu crescente poderio físico de outras maneiras, em particular, explorando uma “zona cinzenta” onde a agressão e a coerção atuam exatamente abaixo do nível que levaria ao risco de um confronto militar com o Ocidente. Na Ucrânia, a Rússia tem misturado força, desinformação, infiltração, guerra cibernética e chantagem econômica, de maneiras que as sociedades democráticas não podem copiar e têm dificuldades para rebater. A China é mais cautelosa, mas tem reclamado, ocupado e fortificado recifes e corais em águas disputadas (grifos nossos).

Assim como a “Estratégia de Segurança Nacional”, o manifesto investe contra os “Estados revisionistas que querem desafiar o status quo” – que atrevimento, não? Mas apenas indivíduos sem um mínimo de instrução e que tenham passado as últimas décadas isolados do mundo em rincões remotos da Amazônia, Sibéria, Lapônia ou dos desertos de Gobi e do Saara, poderiam iludir-se com falácias como as supostas “dificuldades” das sociedades democráticas, EUA à frente, para utilizar recursos como os atribuídos aos “revisionistas”.

Nenhum dos dois tem presença militar ilegal em países estrangeiros, como os EUA na Síria, ou mais de 800 bases militares em todo o mundo; somadas, a Rússia e a China têm apenas quatro fora dos seus territórios. Nenhum dispõe de um aparato midiático com capacidade e alcance sequer aproximados dos grandes conglomerados de comunicações do eixo anglo-americano, além de suas redes de think-tanks, fundações, ONGs, institutos acadêmicos e outras entidades de apoio para a doutrinação ideológica e toda sorte de ações clandestinas disfarçadas de ações “humanitárias”, de proteção do meio ambiente e de minorias e uma pletora de outras. Embora detenham importantes capacidades de guerra cibernética, nem Moscou nem Pequim têm à disposição um aparato de inteligência eletrônica como o sistema Echelon, capaz de interceptar algo como 90% do tráfego mundial de comunicações por telefone, rádio, televisão e Internet. E se a China tem feito largo uso do seu soft power econômico, utilizando as suas colossais reservas de dólares e, de forma incipiente mas crescente, a combinação yuan-ouro, não há comparação com o emprego de sanções econômicas e políticas como instrumentos políticos, como têm feito os EUA com a Rússia, levando a reboque a União Europeia.

Adiante, o texto adverte os próprios EUA:

Se os EUA permitirem que a China e a Rússia estabeleçam hegemonias regionais, seja conscientemente ou porque as suas políticas são muito disfuncionais para formular uma resposta, lhes darão o sinal verde para perseguir os seus interesses pela força bruta. Quando isto foi tentado pela última vez, o resultado foi a Primeira Guerra Mundial (grifos nossos).

Aqui, até mesmo eremitas semiletrados estranhariam a associação das duas frases, já que nenhum dos dois países foi responsável pelo conflito de 1914. A China não passava de campo de caça das potências coloniais ocidentais e orientais, e a Rússia não fez mais que reagir – desastrosamente – ao estopim aceso pelos impérios Austro-Húngaro e Alemão.

Outra passagem explicita a ojeriza manifesta do Establishment pelo atual titular da Casa Branca, sinalizando que a sua agenda não é propriamente a pretendida pela oligarquia hegemônica:

(…) Hoje, o Sr. (Donald) Trump diz que quer tornar os EUA grandes novamente, mas está indo exatamente no caminho errado. Ele se desvia das organizações multilaterais, trata alianças como um fardo indesejável e admira abertamente os líderes autoritários de adversários dos EUA. É como se o Sr. Trump quisesse que os EUA desistissem de defender o sistema que criaram e, em vez disto, se juntassem à Rússia e à China como apenas outra truculenta potência revisionista

Com a troca do modo Subjuntivo pelo Indicativo e do adjetivo “revisionista” por “preservacionista”, esta última descrição se aplica bem mais aos próprios EUA do que às duas potências citadas. Se há no mundo, hoje, uma potência das mais truculentas, a sua capital é Washington.

Os últimos parágrafos do editorial combinam um chamado às armas e a ameaça ao resto do mundo:

Os EUA precisam aceitar que são um beneficiário central do sistema internacional e que são a única potência com a capacidade e os recursos para protegê-lo de um ataque sustentado. O poder suave da diplomacia paciente e consistente é vital, mas ele deve ser apoiado pelo poder duro que a China e a Rússia respeitam. Os EUA dispõem de bastante poder duro, mas estão perdendo rapidamente a vantagem na tecnologia militar que inspirava confiança em seus aliados e temor em seus inimigos.

Para acompanhar a sua diplomacia, os EUA precisam investir em novos sistemas baseados na robótica, inteligência artificial, Big Data e armas de energia dirigida. Tardiamente, o Sr. (Barack) Obama compreendeu que os EUA requeriam um esforço concentrado para recobrar a sua liderança tecnológica, mas não há garantias de que sejam os primeiros a inovar. O Sr. Trump e seus sucessores precisam redobrar o esforço.

A melhor garante da paz mundial é uma América forte. Afortunadamente, ela ainda desfruta de vantagens. Tem aliados ricos e capazes, ainda, de longe, as forças armadas mais poderosas do mundo, uma experiência em guerras sem rival, os melhores engenheiros de sistemas e as principais empresas de tecnologia do mundo. Ainda assim, estas vantagens poderiam ser facilmente desperdiçadas. Sem um compromisso da América com a ordem internacional e com o poder duro para defendê-la contra desafiantes determinados e capazes, os perigos aumentarão. Se isto acontecer, o futuro de guerra poderá estar mais próximo do que se pensa (grifos nossos).

A mensagem não poderia ser mais explícita: como a potência central da estrutura hegemônica, os EUA devem ater-se ao compromisso com tal estrutura de poder e estar dispostos a defendê-la a todo custo – mesmo que isto implique numa Terceira Guerra Mundial com armas nucleares.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...