Tensões transatlânticas: como lidar com a Rússia

NATO-Ukraine_Horo-e1397093134563Em sua edição de 7 de março, a revista alemã Der Spiegel publicou um expressivo artigo sob o título “Berlim alarmado com posição agressiva da OTAN na Ucrânia”. Os lides eram autoexplicativos: “Na crise da Ucrânia, o presidente estadunidense Barack Obama apoia os esforços da chanceler Merkel para buscar uma solução diplomática para a crise ucraniana. Mas os falcões em Washington parecem determinados a torpedear a abordagem de Berlim. E o principal comandante da OTAN na Europa também não tem ajudado.”

O artigo lança luz sobre as atuais tensões transatlânticas, refletidas na frustração do governo alemão com o comportamento arrogante dos EUA, tanto no caso da espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) revelada por Edward Snowden, como nas posições aparentemente antagônicas sobre a crise russo-ucraniana. O foco principal do texto é a crescente irritação de Berlim diante da provocativa linha de propaganda alimentada por altos oficiais militares estadunidenses da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e funcionários do Departamento de Estado, como a secretária adjunta para Assuntos Europeus e Eurasiáticos Victoria Nuland, notória pelo desprezo que denota aos europeus.

A reportagem aponta que a facção dos “falcões” encastelada no governo estadunidense e na OTAN está “solapando” cada etapa na busca de uma solução diplomática para a crise na Ucrânia, empreendida pelos alemães e outros governos europeus. O método usado tem sido a disseminação de desinformação e propaganda alarmista.

Um exemplo foi a entrevista coletiva do comandante militar da OTAN, general Philip Breedlove, em Washington, no mesmo dia em que o acordo de Minsk entrou em vigor, na qual ele afirmou que o presidente russo Vladimir Putin havia “aumentado a aposta” no Leste da Ucrânia, enviando para lá “mais de mil veículos de combate, forças de combate russas, alguns dos seus mais sofisticados sistemas antiaéreos e batalhões de artilharia”. Segundo ele, “o que está claro, neste exato momento, é que a situação não está melhorando; está piorando a cada dia”.

Embora o governo alemão não tenha feito qualquer pronunciamento oficial, a reportagem afirma que a reação foi de estupefação, e que esta não teria sido a primeira vez em que isto ocorreu. “Outra vez, o governo alemão, apoiado pela inteligência reunida pelo BND, a agência de inteligência externa alemã, não compartilhou a visão do Supremo Comandante Aliado na Europa (SACEUR) [título oficial do chefe militar da OTAN – n.e.]”, diz o texto.

No dia 9, o diário Frankfurter Allgemeine Zeitung, o mais importante do país, publicou uma longa reportagem sobre as informações do BND sobre a Rússia e a Ucrânia, destacando que, ao contrário das suas contrapartes de outros países, a agência alemã não reduziu as suas fontes ligadas aos acontecimentos russos. Em algumas ocasiões, diz o texto, até mesmo o presidente Putin, em suas conversas com a chanceler Angela Merkel, pareceu se surpreender com o nível das informações de que dispunha a sua interlocutora.

O que tem deixado Berlim desconfortável é o tom das declarações de Breedlove, repletas de afirmativas falsas, exageros e declarações estridentes sobre supostas movimentações de tropas e veículos blindados russos.

A reportagem da Spiegel afirma que “o governo de Berlim está preocupado com que as declarações de Breedlove possam prejudicar a credibilidade do Ocidente. Fontes do governo dizem que “se tornou conspícuo o fato de que as controvertidas declarações de Breedlove ocorrem, com frequência, quando um passo adiante foi dado nas difíceis negociações em torno de uma resolução política” da crise.

Em novembro de 2014, Breedlove disse ao FAZ que havia “unidades regulares do Exército russo no Leste da Ucrânia”. No dia seguinte, afirmou à revista Stern que não se tratavam de unidades de combate, mas, “na maioria, instrutores e assessores”.

Fazendo coro com ele, o tenente-general Ben Hodges, comandante do Exército estadunidense na Europa, ao mesmo tempo em que ocorriam as negociações em Minsk, disse que havia uma “intervenção militar russa direta” – ocasião em que o BND estimou que não havia qualquer sinal de tal coisa.

O outro ataque da Spiegel foi dirigido contra Nuland, que está sendo considerada como uma potencial secretária de Estado em um eventual governo republicano, a partir de 2017. Afinal, seu marido, o conhecido ideólogo neoconservador Robert Kagan, é “o originador da ideia de que os estadunidenses são de Marte e os europeus, sendo como são, pouco dispostos a compreender que a sua verdadeira segurança depende do poder militar, são de Vênus”.

O “desprezo de Nuland pela fraqueza europeia” ficou claramente manifestado em fevereiro de 2014, quando uma conversa telefônica dela com o embaixador estadunidense em Kiev foi interceptada, permitindo que se conhecessem as suas imortais palavras: “Foda-se a União Europeia!”
Nos bastidores da última Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro, em uma reunião com funcionários e oficiais militares estadunidenses, Nuland se referiu com sarcasmo à recente viagem de Merkel a Moscou, para uma conversa com Putin antes da reunião de Minsk, como “aquela coisa de Merkel em Moscou”. E complementou: “Nós podemos lutar contra os europeus, lutar contra eles retoricamente”.

A reportagem da Spiegel – que, muito provavelmente, recebeu o sinal verde do governo alemão – conclui que, “em Berlim, tem-se a impressão de que importantes próceres do poder em Washington estão trabalhando contra os europeus. Funcionários de Berlim têm observado que, após a visita de políticos e líderes militares estadunidenses a Kiev, os funcionários do governo ucraniano estão muito mais belicosos e otimistas sobre a capacidade militar ucraniana de vencer o conflito no campo de batalha”.

2 comments

  1. A Primeira Ministra da Alemanha, Angela Merkel, e dotora de fisica, e filha de sacerdote evangelico luterano, que mudou desde a Republica Federal, zona “ocidental” da Alemanha ( ocupado por EUA, Bretanha, Franca) para servir para a igreja na zona “oriental” ocupada pela Uniao Sovietica, a Republica Democratica (RDA), onde como no ocidente – igualmente no orienta a Igreja Evangelica Luterana era financiada por impostos eclesiaticos atraves da receita do estado. 60% dos alemaes deven pagar impostos para a igreja luterana e 40% a igreja catolica. Teoreticamente brasileiro bauticado como catolico ou luterana quem mora na Alemanha deve pagar impostos eclesiaticos para as igrejas, via a receita federal que cobra 5% para o servico. 2014 a igreja luterna tinha recibido mais do que 10 bilhoes de Euros, a catolica quasi 6 bilhoes de euros. (Um Euro e 3,20 reais) As duas igrejas tem hospitais, creches, asilos, e tem quasi dois milhoes de empregados – sem sindicatos e sem protecao dos leis laborais da republica. —- Na RDA,o estado “socialista” financou o estudo do dotorado da Angela Merkel, quem como adolescente funcionava como propagandista de FDJ – juventude socialista oficialista. Na decada de 1980,Merkel asociou-se ao Partido CDU (Uniao Democratica Cristao): Como na China (que tem 8 mais partidos alem do PC) – a RDA tolerava outros partidos obrigados de reconhecer o partido comunista como “lider nacional”. Depois o fim da RDA em 1990 , Merkel tornou politica nacional da CDU. O Primeiro Ministro.Kohl da CDU uma vez mandou Merkel fazer uma analise confidencial da opiniao popular em Moscu. – Como academica formada na RDA Merkel tinha estudado russo. Putin esteve ate 1990 como funcionario de inteligencia da KGB na Alemanha, e fala o alemao: Merkel e Putin podem comunicar em alemao ou russo. O Presidente contemporaneo da Alemanha e Joachim Gauck, ex-dissidente e ex-sacerdote da Igreja luterana na RDA, quem aboga agora para “mais responsiblidade para os alemas no mundo”, em compas com a ideia de Claude Junker (luxemburgues) quem o lider da “European Comission”, quem aboga para ‘forzas armadas europeas’. A Ministra de Defesa alema tem planes para mais financiamento para as as forcas armadas alemas. A ultima sondagem indica que 49% dos alemaes concordam com a ideia. A “midia” na Alemanha e dominada por “parceiros” dos EUA como no Brasil ! O “Spiegel” logicamente deve oferecer, para manter credibilidade’, material que parece “independente” e ate “inconveniente” para os intereses dos EUA dentro de Alemanha, mas como FAZ e os outros esta controlado por “parceiros atlanticistas”. — Mas existe resistencia contra o “atlanticismo” (dominacao desde a EUA na Alemanha e Europa). Especialmente a industria alema suspeita que existe tambem o objetivo de acabar com a “exportacao alema excesiva” criticada desde EUA. Russia e outros paises “independentes” bajo pressado dos EUA – sao importantes para a industria alema. — Ha brasileiros ingenuos que acreditam de que Alemanha e Merkel sao “socios geopoliticos” do Brasil, tanto pelo problema das escutas da NSA como aspiracao para a ONU. A industria alema, presente no Brasil com 1,600 sucursais e muito importante para Brasil, igual como para a exportacao brasileira. Mas nao fique decepcionado: No Brasil e America Latina, a Alemanha serve desde fim das ditaduras como “o cavalo de Troia” geopolitico dos EUA: Os alemaes nao provocam suspeita ! A “Sister Dorothy”dos EUA nao intervenia geopoliticamente na Amazonia, mas os agentes alemaes estao interveniendo na Amazonia desde fim da decada 1980. Somente os vizinhos “bolivarianos” tem ate agora prevenido um colapso da autoridade nacional na Amazonia sud-americana (Peru que nao e pais “bolivarianista” esta baixo pressao das ONGs europeas ). Com o fim dos governos vizinhos “bolivarianos”, chegariam governos entreguistas que abrirao intervencao ofensiva para os agentes “ONGs” alemaes, escandinavos, ingleses, americanos: O fim sao “autonomia transnacionais indigenas” na Amazonia sud-americana protegidas pela “comunidade internacional”.

    • Hoje o diario ZEIT num articulo acerca o assunto “Niesman” na Argentina, o advogado Wolfgang Kaleck lembra de o o diario FAZ em 1976 acerca o golpe dos militares da Argentina, declarava o golpe como “Esperanca positiva.” Igualmente Kaleck descreve as reportagem acerca “Niesman” e Argentina como copias de “Clarin” , o imperio mediatico da direita na Argentina. Kaleck e Secretario Geral do “European Center for Constitutional and Human Rights” (ECCHR) e serve como advocado de Edward Snowden, o ex-agente da NSA.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...