Taiwan, ativo estratégico dos EUA no Pacífico

Taiwan é o principal ativo estratégico dos EUA para a disputa com a China. A avaliação é do historiador cingapurenho Wang Gungwu, da Universidade Nacional de Cingapura, em entrevista ao correspondente do jornal O Globo em Pequim, Marcelo Ninio, publicada em 7 de agosto. Wang é considerado o decano dos “sinólogos” e suas posições são fundamentais para se entender o dragão e a sua agenda. Vejamos alguns destaques.

Segundo ele, a justificativa fundamental para a presente competição entre os EUA e a China é uma diferença básica de visões do mundo:

A China sempre acreditou que o presente não pode ser divorciado do passado. Sociedades revolucionárias, como a francesa e a americana, propõem um novo começo. É uma visão que os chineses nunca tiveram. Mesmo quando fizeram a revolução, em 1949, Mao Tsé-tung era obcecado pela História chinesa. Reconectar-se ao passado é como os chineses se sentem confortáveis para não perdero o elo com sua genealogia ancestral. Por isso é tão difícil para os chineses aceitar o que querem os EUA, um novo começo, tendo o indivíduo como o fundamento de tudo, e não a família… Certamente, a tradição liberal nos EUA crê de forma genuína que a liberdade do indivíduo é poder acreditar no que ele acredita e agir sem restrições do Estado. (…)

Para Wang, “a globalização deixou a classe trabalhadora dos EUA pior que antes e a China passou a ser culpada de tudo”. Ademais, “a mudança do centro de gravidade econômico do Atlântico para a Ásia causa alarme porque muda a ordem mundial estabelecida pelos EUA após 1945”.

Perguntado sobre a ambição chinesa, respondeu:

A China quer segurança em sua vizinhança e a possibilidade de se desenvolver. Mas não desafiar o poder global dos EUA. Os chineses têm problemas demais em seu país, assumir mais essa responsabilidade está fora de questão… O lamentável é que os EUA estão demonizando os chineses ao dizer que eles querem dominar o mundo e que todos devem se unir para impedir isso. Os EUA estão dispostos a tudo para conter a China. Então, os chineses sentem que não têm alternativa a não ser um Exército forte para garantir sua segurança e seus interesses. O Mar do Sul da China é um exemplo óbvio. (…) Quando os EUA dizem que a China quer dominar o mundo, francamente, eu considero uma interpretação cínica para justificar a intenção de limitar o movimento naval dos chineses. E a melhor forma de fazer isso é por meio de Taiwan. É a parte mais vulnerável da China, porque os chineses se comprometeram a tomar Taiwan de volta. (…)

E ressaltou a posição de Taiwan:

(…) Taiwan hoje é provavelmente o principal ativo estratégico dos EUA e seus aliados, pois acreditam que Taiwan é a única forma de conter os chineses. A China não vai lutar por Taiwan, é a última coisa que eles querem. A questão é que os EUA criaram um dilema para os chineses: ou lutam e são destruídos ou não lutam e são humilhados.

Sobre a ordem mundial resultante da transição geopolítica para a Ásia:

Se a China atingir o que almeja, que é ter segurança e prosperidade, ela vai impedir que as potências marítimas dominem o mundo eurasiático… Um continente eurasiático multipolar, que não seja dominado pelos EUA, provavelmente, é o máximo que a China pode alcançar. Qualquer coisa além disso não faz parte de sua história. A razão pela qual a China foi bem sucedida como uma civilização que sobreviveu milhares de anos é que ela reconhecia seus limites. Se for capaz de defender sua costa e manter a segurança no continente, o que mais podem querer? A China aprendeu tudo com o Ocidente, só rejeitou o liberalismo. Todo o resto foi adotado para realizar o seu próprio sonho, o sonho chinês.

Wang concluiu com uma avaliação sobre o papel do presidente chinês Xi Jinping:

“Xi não pode fazer o que Mao Tsé-tung fez e nem precisa… A situação era caótica quando Xi assumiu o poder. Havia muita corrupção, inclusive no Exército de Libertação Popular (ELP). O Partido Comunista da China (PCC) estava à beira da ruína. Acho que Xi estava genuinamente preocupado que o PCC seguiria o caminho da União Soviética e seria o seu fim. Xi tornou o PCC mais seguro. Seu foco é inspirar uma nova geração de líderes comunistas. Nisso ele fez progresso, mas também se tornou impopular para muitos, tanto no PCC como no ELP. As pessoas o veem como Mao, mas não é nada disso… Xi não está nem perto disso. O que está acontecendo este ano é uma negociação sobre quem estará no time dele. Mesmo que consiga o terceiro mandato, ele vai ter que negociar. (…)”

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