Sínodo da Pan-Amazônia: carbonários da Teologia da Libertação alimentam “fumaça de Satanás” em Roma

Poucos dias antes da conclusão do Sínodo da Pan-Amazônia, em 20 de outubro, e fora da pauta oficial de trabalhos, um grupo de 40 padres sinodais realizou uma missa simbólica nas Catacumbas de Domitila, em Roma. O maior e mais antigo cemitério subterrâneo da capital italiana foi usado por esse grupo de seguidores da Teologia da Libertação, entre bispos, leigos e representantes de outros credos, como um “socavão ecumênico” para alimentar ou o que o Papa Paulo VI denominava a “fumaça de Satanás, infiltrada por alguma fenda no templo de Deus”. Ao final, foi divulgado um documento denominado “Pacto das Catacumbas para a Casa Comum”, alegadamente baseado nas considerações ambientais na encíclica Laudato Si’, divulgada pelo Papa Francisco em 2015. Em realidade, o manifesto esconde um forte ataque ao Magistério da Igreja Católica e um anticlericalismo do tipo carbonário. Por ironia, os Carbonários do século XIX (que tinham como lema “Deus e o povo somente!”) se denominavam “Sociedade Secreta Maçonaria Florestal” – bastante concordante com as intenções das redes da Teologia da Libertação para com o Sínodo.

A missa foi celebrada pelo cardeal Dom Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e relator-geral do Sínodo. A cerimônia ocorreu como um resgate da distorcida Teologia da Libertação, glorificando alguns de seus “profetas”, o falecido Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT). Tanto o nome do documento como o local da missa se referem a um evento semelhante ocorrido durante o Concílio Vaticano II, em 1965, quando foi publicado o “Pacto das Catacumbas: opção preferencial pelos pobres”. Hoje, os pobres foram substituídos pelos povos que habitam a Amazônia. No evento, um dos destaques foi o padre brasileiro José Oscar Beozzo, que apontou semelhanças nos dois documentos e em suas repercussões para a vida eclesiástica. Parafraseando um dos seus gurus ideológicos, a História se repete, primeiro como tragédia e, depois, como farsa.

A conjura carbonária foi convocada por um grupo de hierarcas eclesiásticos que participam do Sínodo, em especial, brasileiros, como uma ofensiva de propaganda para pressionar que o seu programa, refletido no controvertido documento preparatório Instrumentum Laboris, se imponha no documento final e nas decisões subsequentes do Pontífice sobre o tema proposto. Não obstante, o documento anterior recebeu fortes críticas das lideranças vaticanas, por estar repleto de questões socioambientais, quase ignorando o objetivo central da missão da Igreja Católica, a sua ação evangelizadora. O próprio Francisco, na cerimônia de abertura do Sínodo, pediu que fosse submetido a um escrutínio mais amplo.

Ora, o novo “Pacto das Catacumbas para a Casa Comum”, com seus 15 pontos, é uma réplica do Instrumentum Laboris, que endossa desde o início os dogmas infundados do moderno malthusianismo disfarçado de ambientalismo, como a influência humana nas mudanças climáticas, a escassez de recursos naturais etc., além de converter a região amazônica, sobretudo a sua parte brasileira, na arena onde se definirá se há ou não justiça para os pobres. O Ponto 1 afirma, por exemplo:

Assumir, diante da extrema ameaça do aquecimento global e da exaustão dos recursos naturais, o compromisso de defender em nossos territórios e com nossas atitudes a Floresta Amazônica em pé. Dela vêm as dádivas das águas para grande parte do território sul-americano, a contribuição para o ciclo do carbono e regulação do clima global, uma incalculável biodiversidade e rica sociodiversidade para a humanidade e a Terra inteira.

Não obstante, eles não estão em nada preocupados com o bem-estar dos 35 milhões que habitam a região pan-amazônica, mas com os poucos grupos indígenas tratados como espécimes de zoológicos humanos, ou seja, um indigenismo puro e claro, ignorando as raízes históricas da evangelização. “Renovar em nossas igrejas a opção preferencial pelos pobres, em especial, pelos povos originários”, afirma o Ponto 4 do Pacto.

Um satélite do Conselho Mundial de Igrejas?

Claramente, a proposta do grupo é a de que, seja qual for o resultado do Sínodo, eles se consideram uma espécie de “igreja dentro da Igreja”, com uma agenda de pressões para mudanças no Magistério e na Doutrina da Igreja, alterando o caráter dos sínodos como instrumentos consultivos do Papado e transformá-los em uma espécie de Parlamento ou Senado (“Deus e o povo somente”). Como se lê no Ponto 9 do Pacto:

Instaurar em nossas igrejas particulares um estilo de vida sinodal, onde representantes dos povos originários, missionários e missionárias, leigos e leigas, em razão do seu batismo, e em comunhão com seus pastores, tenham voz e voto nas assembleias diocesanas, nos conselhos pastorais e paroquiais, enfim em tudo que lhes compete no governo das comunidades.

Por sua vez, em entrevista ao sítio Digital Religion, em 7 de setembro de 2019, Beozzo explica para onde se dirigem as pressões sobre a qualificação dos sínodos:

No Vaticano II, os padres conciliares haviam solicitado que o Sínodo fosse uma espécie de Senado permanente, um fio de contato com todas as igrejas locais, com a responsabilidade de cuidar, juntamente com o Papa, de toda a Igreja. O Sínodo, no entanto, não nasce como um corpo permanente, porque a assembléia se dissolve após cada convocação. Por outro lado, não é um organismo da Cúria Romana, mas uma instância do Colégio Episcopal. Ele é convocado todas as vezes. Nem é uma assembléia deliberativa, como conselhos, mas um órgão consultivo. Pode se tornar deliberativo, se o papa assim decidir.

E acrescenta:

Portanto, esse sonho de conselhos permanentes e deliberativos não se tornou realidade até hoje. Só há uma mudança com o papa Francisco. Ele propõe uma nova configuração para o Sínodo e recupera amplamente a intuição inicial de que o Colégio Episcopal é chamado a assumir o “omlic ecclesiarum sollicitudo”, o cuidado de todas as igrejas, junto com o bispo de Roma. Com a constituição apostólica Episcopalis Communio de 15 de setembro de 2018, que substitui o Motu Proprio Apostolica Sollicitudo de Paulo VI, de 15 de setembro de 1965, e o Ordo de Bento XVI, de 2006, o Papa Francisco leva a instituição sinodal a um novo nível. Agora, isso é governado por uma constituição apostólica, o documento mais solene e decisivo que o Papa pode promulgar. O Papa Francisco expressa isso no preâmbulo da constituição.

Beozzo é autor do livro Pacto das Catacumbas: por uma Igreja servidora e pobre (Paulinas, s/d) e é ex-presidente da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, sendo especialista na história do Concílio Vaticano II e das conferências do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM).

Mas ele é algo mais. Antigo militante da causa do ecumenismo, em 1982, fundou em São Paulo (SP) o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP), entidade que integra o Conselho Latino-americano de Igrejas, braço regional do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Em 2005, o CMI publicou alguns dos seus ensaios em inglês.

Em realidade, não causa surpresa o fato de o CMI chegar tão longe em sua influência sobre a Igreja Católica, pois essa poderosa entidade da estrutura do poder anglo-americano foi uma das principais fomentadoras da Teologia da Libertação na Ibero-América, como apontado pelo cardeal Joseph Ratzinger, quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano. Ademais, tem sido um dos principais promotores do indigenismo que vemos hoje encarnado no grupo eclesial que demarcou a Amazônia como a sua guarida.

Eventos “fake” no Vaticano

Ao falsear a condição de protagonistas auténticos do Sínodo, os grupos da Teologia da Libertação se propõem a repetir o que foi, anteriormente, feito com o Concílio Vaticano II. Manipulação que foi lucidamente exposta pelo então Papa Bento XVI, na reunião com o clero romano que serviu de despedida do seu pontificado, em fevereiro de 2013:

Agora, quero acrescentar ainda um terceiro ponto: havia o Concílio dos Padres – o verdadeiro Concílio – mas havia também o Concílio dos meios de comunicação, que era quase um Concílio à parte. E o mundo captou o Concílio através deles, através dos mass-media. Portanto o Concílio, que chegou de forma imediata e eficiente ao povo, foi o dos meios de comunicação, não o dos Padres. E enquanto o Concílio dos Padres se realizava no âmbito da fé, era um Concílio da fé que faz apelo ao intellectus, que procura compreender-se e procura entender os sinais de Deus naquele momento, que procura responder ao desafio de Deus naquele momento e encontrar, na Palavra de Deus, a palavra para o presente e o futuro, enquanto todo o Concílio – como disse – se movia no âmbito da fé, como fides quaerens intellectum, o Concílio dos jornalistas, naturalmente, não se realizou no âmbito da fé, mas dentro das categorias dos meios de comunicação atuais, isto é, fora da fé, com uma hermenêutica diferente.

Era uma hermenêutica política: para os mass-media, o Concílio era uma luta política, uma luta de poder entre diversas correntes da Igreja. Era óbvio que os meios de comunicação tomariam posição por aquela parte que se lhes apresentava mais condizente com o seu mundo. Havia aqueles que pretendiam a descentralização da Igreja, o poder para os Bispos e depois, valendo-se da expressão “Povo de Deus”, o poder do povo, dos leigos. Existia esta tripla questão: o poder do Papa, em seguida transferido para o poder dos bispos e para o poder de todos, a soberania popular.

Para concluir, recordemos as visionárias palavras de Paulo VI, em uma carta de junho de 1972, depois divulgada pelo padre Leonardo Sapienza, regente da Casa Pontifícia:

“Diríamos que por alguma fenda misteriosa… a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Há dúvida, incerteza, problemática, inquietação, insatisfação, confrontação.

“Já não se confia na Igreja. Confia-se no primeiro profeta pagão que vemos, que nos fala em algum jornal, para correr atrás dele e perguntar-lhe se tem a fórmula para a vida verdadeira. Entrou, repito, a dúvida na nossa consciência. E entrou pelas janelas que deveriam estar abertas à luz: a ciência.

“(…) Se acreditava que, após o Concílio, viriam dias ensolarados para a história da Igreja. Porém, vieram dias de nuvens, de tempestade, de obscuridade, de busca, de incerteza… Tentamos cavar abismos, em vez de tapá-los.”

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