Senilidade estratégica global do Reino Unido

A velha inclinação imperialista das elites dirigentes do Reino Unido constitui um vício difícil de ser combatido, mesmo que implique na condição de serem sócias minoritárias – e subordinadas – das suas contrapartes dos EUA, a superpotência que tomou o lugar do Império Britânico na disputa pela hegemonia global. Apenas tal adicção explica as quase surreais – além de ilusórias e perigosas – ambições estratégicas anunciadas pelo governo do primeiro-ministro Boris Johnson, tanto para “dissuadir” os seus inimigos percebidos, como para, supostamente, elevar a estatura britânica no mundo pós-Brexit do século XXI.

A agenda foi apresentada no documento “Grã-Bretanha Global em uma era competitiva”, uma revisão estratégica que aponta “a visão do governo para o papel do RU no mundo, ao longo da próxima década, e as ações que tomaremos até 2025”. A pomposidade pretensiosa do trabalho se manifesta já no título “Grã-Bretanha Global” (“Global Britain”, no original), descrito como uma visão que inclui: “uma ênfase na abertura como fonte de prosperidade; uma posição mais robusta em segurança e resiliência; um compromisso renovado com o RU como força para o bem no mundo (sic); uma determinação ampliada para buscar soluções multilaterais para desafios como as mudanças climáticas”.

A despeito de uma vasta lista de compromissos assumidos em suas 114 páginas, o documento ganhou uma imediata notoriedade global, mas não pelo lado positivo, por dois elementos reveladores da nostalgia britânica pelo seu antigo papel de potência colonial de alcance global.

O primeiro é o pretendido aumento do seu arsenal nuclear até 2030, das atuais 195 ogivas para 260. A ampliação, a primeira desde a década de 1980, se coloca contra uma tendência mundial de redução dos arsenais nucleares, mantida até mesmo pelos EUA, que acabam de estender até 2026 o acordo de limitação de armas estratégicas com a Rússia (New START), anteriormente ameaçado pelo ex-presidente Donald Trump. O pretexto para a reversão não poderia ser outro: a Rússia – que, segundo o texto, “continua sendo a ameaça mais grave para a nossa segurança”.

Embora irrelevante em termos estratégicos, a expansão nuclear tomará uma grande fatia dos 188 bilhões de libras esterlinas (R$ 1,5 trilhão) que serão gastos nos próximos quatro anos com o banho de loja bélico da “Global Britain” – já dona do quarto orçamento militar do planeta, atrás apenas dos EUA, China e Índia. Um enorme peso para uma economia combalida, cujo governo afirma não poder oferecer qualquer aumento superior a 1% nos salários dos seus profissionais de saúde, que têm trabalhado no limite da exaustão na luta contra a pandemia de Covid-19. Ademais, como observado até mesmo por estrategistas ocidentais, 65 ogivas adicionais não oferecem qualquer efeito dissuasório real frente ao arsenal nuclear russo, uma a duas ordens de grandeza superior ao britânico em potência e uma geração à frente em termos tecnológicos, com seus novos mísseis hipersônicos e drones submarinos de longo alcance, que superam qualquer coisa que o Reino Unido e as demais potências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) possam se lhes opor.

A justificativa “russa” foi prontamente contestada pelo porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov: “Nós lamentamos muito que a Grã-Bretanha tenha escolhido aumentar o número de ogivas nucleares, certamente, é uma decisão que prejudica a estabilidade e a segurança estratégica internacional. Porém, de novo, uma efêmera ameaça da Rússia foi apresentada como justificativa. A Rússia não é uma ameaça, mas o acúmulo de ogivas é algo que ameaça a paz em todo o mundo (RT, 17/03/2021).”

Menos diplomática e mais irônica, a porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova, alfinetou: “Londres não abandonou as suas ambições imperiais. Em geral, tudo o que diz respeito à Grã-Bretanha é muito triste. O problema das ambições imperiais não desapareceu. As ambições existem, mas elas não têm base. A base apodreceu. Infelizmente, eles tentam apresentar as suas ações como uma boa obra e dão novos passos para restaurar a sua reputação como um país importante, grande e poderoso (RIA Novosti, 18/03/2021).”

O outro ponto polêmico exposto no documento é a decisão de retomar uma projeção do poder aeronaval britânico nos oceanos Índico e Pacífico, após um hiato de mais de meio século, o chamado “pivô indo-pacífico”, ostensivamente voltado contra a China. Para materializar a intenção, ainda este ano, o novo porta-aviões Queen Elizabeth será enviado à região, onde deverá cumprir a única tarefa plausível para belonaves britânicas na área, além de visitas de cortesia: operar em conjunto com a Marinha dos EUA, em suas provocativas incursões no Mar do Sul da China. Aliás, como a Royal Navy ainda não tem aviões para o navio, ele irá operar com um esquadrão de caças F-35 dos Fuzileiros Navais estadunidenses, sob o pretexto da “interoperacionalidade” entre as forças dos dois aliados.

No entanto, é duvidoso que as lideranças de Pequim vejam tal mobilização como algo mais que uma mera provocação subordinada à agenda estratégica de Washington, mas irrelevante em termos militares. Escrevendo ainda no ano passado, no jornal semioficial Global Times, assim que foi conhecida a decisão britânica de enviar uma força-tarefa ao Pacífico, Zhang Junshe, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisas de Estudos Militares Navais das Forças Armadas chinesas, não mediu palavras para colocar os fatos reais:

O Reino Unido já foi um império poderoso. É um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas, agora, ao que parece, o RU tornou-se o capanga dos EUA. A posição incoerente do RU sobre a China mostra que ele perdeu o comportamento de uma grande potência – bem como a sua posição e atitude independentes. (…) Ao mostrar o seu poderio militar, o RU quer demonstrar que ainda é uma grande potência tradicional com uma Marinha forte. Mas apenas está se tornando cada vez mais parecido com um assecla dos EUA.

O poderio militar de Londres não pode bancar as consequências de tais provocações. Alguns britânicos ainda sonham que seu país é tão poderoso como “o império onde o Sol nunca se põe”. Aqueles dias se foram há muito tempo. O RU não está satisfeito em ser um país de segunda classe, mas, em realidade, está sobrecarregado e tem poder reduzido. (…)

O RU está blefando. Ele deveria conhecer as suas limitações, antes de tentar medir-se com a China, que não é mais um país militarmente fraco, para ser humilhado como foi durante as Guerras do Ópio. Se os porta-aviões nucleares dos EUA… têm vindo repetidamente ao Mar do Sul da China e não conseguem assustar a China, o HMS Queen Elizabeth não será uma deterrência para a China, mesmo que seja enviado ao Extremo Oriente (Global Times15/07/2020).

Ao usar a palavra “deterrência”, o autor poderia mencionar o trágico desfecho de uma tentativa do gênero na II Guerra Mundial, quando o governo de Winston Churchill enviou ao Extremo Oriente o encouraçado Prince of Wales e o cruzador de batalha Repulse, com a missão ostensiva de dissuadir os japoneses de atacar Cingapura, então um dos símbolos do colonialismo britânico na Ásia. Apanhados sem escolta aérea (dispensada pelo comandante da força naval, com o argumento de que ela poderia lidar sozinha com aviões inimigos), os dois navios foram afundados em duas horas pela aviação japonesa no terceiro dia da guerra no Pacífico, em dezembro de 1941; Cingapura cairia dois meses depois. Hoje, em uma situação de conflito real, dificilmente, o Queen Elizabeth e quaisquer outras belonaves britânicas escapariam de um destino semelhante, diante do formidável arsenal antinavio chinês, inclusive mísseis hipersônicos de longo alcance, contra os quais nem mesmo a US Navy tem defesas efetivas.

Com palavras não menos cáusticas, o jornalista irlandês Finnian Cunningham disparou uma dura crítica à “nova” agenda estratégica britânica:

Essa ridícula demonização de outros é, evidentemente, uma forma de projeção psicológica das classes dominantes britânica e estadunidense, para distrair do fato de que elas são a maior ameaça de segurança para o mundo. As ameaças são também um precursor essencial da promoção das guerras e a continuidade das economias militarizadas que dão suporte ao capitalismo anglo-americano. Apenas imaginem se os britânicos e estadunidenses tentassem viver em paz e cooperação com o resto do mundo. As suas economias entrariam em colapso total, pela ausência de militarismo e indústrias de armas.

Na sua assim chamada revisão estratégica, está mais aparente do que nunca que os governantes britânicos sofrem de ilusões de grandeza. O primeiro-ministro Boris Johnson fala fantasiosamente, como se a Grã-Bretanha fosse um dínamo global de crescimento econômico e desenvolvimento. (…)
A repreensível e insensata iniciativa de aumentar o arsenal nuclear é um absurdo e grotesco desperdício de finanças públicas. É criminosa, diante de tantas necessidades sociais angustiantes entre os britânicos comuns. Mas o que também é criminoso é o fato de que os governantes britânicos estão prejudicando a segurança global – tudo pelo vão propósito de posar como uma potência global, em vez de ser realmente uma potência global (Sputniknews, 18/03/2021).

No mundo real, os estrategistas de Sua Majestade deveriam prestar a devida atenção aos sinais dos tempos, inclusive, os simbólicos, como o recente tropeço triplo do presidente estadunidense Joe Biden (cujos sinais de senilidade se mostram cada vez mais evidentes), na escada do Air Force One, ao tentar subir saltitante os degraus como se fosse um jovem.

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