O fim da globalização em sua forma “turbofinanceira”, o declínio do dólar estadunidense como moeda de referência e um movimento cuja melhor descrição é a de descolonização, são os resultados imediatos das avassaladoras sanções impostas à Rússia como punição pelo ataque militar à Ucrânia.
Fora da Europa e da América do Norte, as sanções não têm recebido acolhida. Apesar de 141 nações terem condenado a invasão da Ucrânia na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1º de março, na África, Ásia e América Latina, além dos aliados tradicionais dos EUA – Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Austrália e Nova Zelândia –, poucas delas se integraram ao torneio de sanções. Pode-se dizer que estamos diante de uma virtual rebelião das antigas colônias do Ocidente, atentas à mudança dos ventos que varrem a caduca ordem global dominada pela antiga Metrópole euroatlântica.
Em um artigo publicado no Wall Street Journal de 22 de março, com o apropriado título “Sanções contra a Rússia colocam o Ocidente contra o resto do mundo”, o jornalista e cientista político estadunidense Walter Russell Mead lamenta que “o que já foi chamado o Sul Global não compartilha sempre as prioridades e perspectivas” das elites de Washington:
Para muitos ocidentais, a oposição à Rússia parecia ser uma enterrada [jogada de basquete – n.e.] global. A opinião mundial se oporia ao ataque de Moscou tão vigorosamente, que países como a China pagariam um alto preço político por não se juntarem à caravana anti-russa.
Não é assim que funciona. Alguns países, como os desencorajados e alienados aliados dos EUA no Oriente Médio, receiam apoiar uma Washington em retirada contra uma Rússia ascendente. Outros pesam o seu ódio da invasão russa da Ucrânia (sic) contra outras preocupações. Muitos países não-ocidentais temem mais as consequências das respostas ocidentais ao comportamento da Rússia do que temem a Rússia, não confiam na determinação ou capacidade do Ocidente para lidar com as consequências econômicas da guerra, de modo a proteger os interesses dos Estados não-ocidentais, e estão chocados pela imposição de sanções ao banco central da Rússia – uma arma que receiam possa se voltar contra eles algum dia.
Embora entusiasmados liberais ocidentais dão boas-vindas à imposição de sanções à Rússia, a crescente disposição das potências ocidentais para militarizar o sistema econômico global horroriza os líderes de muitos países que acreditam que o Ocidente já é muito poderoso. Muitos brasileiros receiam, desde há muito, que ambientalistas ocidentais tencionam bloquear o desenvolvimento na Bacia Amazônica. Eles receiam que ativistas climáticos possam forçar a Reserva Federal e outros bancos ocidentais a “salvar o planeta”, impondo sanções ao Brasil. Formuladores de políticas na Índia e em outros países compartilham muitos desses receios, quando veem ativistas ambientais usando as instituições econômicas globais para impor a sua agenda a países com prioridades diferentes.
Mead, pesquisador sênior do Instituto Hudson, um dos principais think-tanks de Washington, conscientes de que os dias da hegemonia global do Ocidente liderado pelos EUA ficaram para trás, frente à emergência de uma nova ordem global multipolar catalisada por potências como a China, Rússia, Índia e outras.
Não por acaso, tais potências estão se empenhando ativamente na construção de um novo sistema monetário global alternativo ao dólar e controlado pelas potências ocidentais, processo que vem sendo acelerado pelas sanções impostas à Rússia. Duas iniciativas importantes são o uso crescente de moedas nacionais nos intercâmbios comerciais, em especial, o yuan chinês, e o virtual “lastreamento” do rublo russo ao ouro e a um conjunto de recursos naturais de que o país é riquíssimo.
Em paralelo, fatos até há pouco impensáveis começam a ocorrer. A Arábia Saudita anunciou a intenção de aceitar yuans pelas suas exportações de petróleo para a China (por ironia, a decisão saudita de aceitar apenas dólares pelo seu petróleo, em 1971, foi um dos pilares da hegemonia da moeda estadunidense após o abandono do sistema de Bretton Woods e da vinculação ao ouro, no mesmo ano). Nem a Arábia Saudita nem os Emirados Árabes Unidos, aliados tradicionais dos EUA, aderiram às sanções. Índia e Rússia estabeleceram uma linha de crédito em rúpias e rublos para compras de petróleo russo. O Paquistão elogia a Índia, rival nuclear histórico, pela disposição de resistir às pressões dos EUA para sancionar a Rússia. Até mesmo o Japão, a despeito de toda a dependência de Washington, decidiu não encerrar uma parceria com a Rússia de exploração de gás natural na Sibéria.
Na Ibero-América, a rejeição às sanções também se tem manifestado na maioria dos países, especialmente entre os três maiores – Brasil, México e Argentina. O México, forte parceiro comercial dos Estados Unidos, tem rechaçado ostensivamente o intervencionismo de Washington na política energética do país.
Esse descontentamento crescente com as sanções tem sido reconhecido pelos arautos da alta finança internacional. Por exemplo, a economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, receia que as sanções – que incluíram o congelamento de reservas e ativos russos em instituições financeiras ocidentais – farão com que “alguns países” reconsiderem a confiança no dólar como moeda de reserva. Para ela, um dos desdobramentos da crise na Ucrânia será uma “fragmentação crescente” no sistema de pagamentos globais (RT, 23/03/2022).
Com ela concorda o megabanco Goldman Sachs, que acaba de divulgar uma nota na mesma linha, advertindo que o dólar enfrenta riscos que poderão erodir a sua posição dominante global, em um cenário semelhante ao que acometeu a libra esterlina britânica no início do século XX, antes de entrar em declínio (e perder a sua posição exatamente para a moeda estadunidense) (Yahoo! Finance, 01/04/2022).
Em essência, tais movimentos convergem para a criação de uma salutar alternativa ao hiperespeculativo sistema financeiro baseado no dólar e submetido aos caprichos de Wall Street e da Beltway de Washington, hoje, astronomicamente afastado da economia real e um dos maiores obstáculos ao pleno desenvolvimento da humanidade. Com isso, abre-se uma perspectiva real de estabelecimento de um marco cooperativo nas relações internacionais e de recolocação da economia real na posição prioritária da qual jamais deveria ter sido desalojada, relegando às páginas da História as agendas hegemônicas e a pesada herança do colonialismo político e financeiro.
Essa transição não ocorrerá da noite para o dia, mas é inexorável que culminará com a criação de um novo sistema financeiro global e a constituição de uma nova autoridade mundial legítima, baseada no bem comum e o desenvolvimento de todos os países.

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