Rússia, China e a “armadilha de Tucídides”

Ao mesmo tempo em que aprofundam a sua aliança estratégica de fato, a Rússia e a China estão empenhadas em enfatizar que a proposta de um novo paradigma cooperativo para a ordem mundial, embora seja oposta às pretensões hegemônicas dos EUA, não representa qualquer tentativa de ocupar o seu lugar como hegemon de plantão, a conhecida “armadilha de Tucídides”. A expressão tem sido usada para qualificar a opção pela guerra de uma potência hegemônica que se sinta ameaçada pela ascensão de outra, como ocorreu com Esparta frente ao poderio crescente de Atenas, na Guerra do Peloponeso do século V a.C.

De fato, o mundo atual não comporta um novo hegemon ao estilo estadunidense no período pós-Guerra Fria, a despeito dos temores de alguns sobre a inevitável ascensão da China à condição de maior potência econômica do mundo. A questão é que boa parte das elites dirigentes dos EUA, simplesmente, não aceita a ascensão do que chama potências “revisionistas”, termo usado na última edição da “Estratégia de Segurança Nacional” para qualificar a China e a Rússia.

Do seu lado, Pequim e Moscou fazem o que podem para consolidar o novo eixo eurasiático como centro de irradiação do cenário cooperativo, como mostra a sucessão de encontros de alto nível entre as suas lideranças, nas últimas semanas:

1) Visita de Estado do presidente chinês Xi Jinping à Rússia, em 5-7 de junho, para a sua oitava cúpula com Vladimir Putin em Moscou e participação como convidado estrela no 23º Fórum Econômico de São Petersburgo (ver nota seguinte).

2) Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), em Bishkek, Quirguistão, em 13-14 de junho. Entre outros tópicos, a declaração final do evento reafirmou o compromisso da entidade com uma solução pacífica para os conflitos na Síria e no Afeganistão e a manutenção do acordo nuclear com o Irã. Ao mesmo tempo, Putin e Xi se reuniram com o recém-reeleito premier indiano Narendra Modi e combinaram uma nova reunião no formato “RIC”, durante a cúpula do G-20 em Osaka, Japão, em 28-29 de junho.

3) A edição de 2019 das Conferências Primakov, em Moscou, em 11 de junho, teve como tema “Retornando à confrontação: existem alternativas?”. Falando a diplomatas, especialistas e políticos de 30 países, o chanceler Sergei Lavrov revelou uma proposta russa aos EUA: “É de importância primordial que a Rússia e os EUA acalmem o resto do mundo e façam uma declaração conjunta em alto nível, de que não pode haver vitória em uma guerra nuclear e, por conseguinte, ela é inaceitável e inadmissível. Nós não entendemos por que eles não podem confirmar esta posição. A nossa proposta está sendo considerada pelo lado estadunidense.”

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