Realidade compromete “energia verde” na Alemanha

A Alemanha está encarando sérias dificuldades na sua matriz energética, desde que a chanceler Angela Merkel decidiu fechar todas as usinas nucleares do país, após o desastre nuclear de Fukushima, no Japão, em março último. Por conta delas, a agência de classificação de risco Moody’s alertou que poderá rebaixar a classificação de empresas de eletricidade européias, em razão das crescentes resistências políticas na Alemanha aos investimentos em fontes renováveis, em especial, os projetos eólicos pretendidos pelo governo germânico. Oito meses após Merkel afirmar que a guinada rumo às renováveis era uma “enorme oportunidade”, o projeto permanece bloqueado pela agenda política, na medida em que os partidos estão impedindo a tramitação da legislação específica.

O governo federal e os governos estaduais alemães estão profundamente divididos em relação ao tema, especialmente, na questão da eficiência energética, na qual o Partido Democrático Liberal (FDP), integrante da coalizão governista, rejeita uma proposta ambiciosa da União Europeia (UE), a qual pretende impor metas obrigatórias ao país.

O executivo-chefe da divisão de energias renováveis da empresa RWE, Fritz Vahrenholt, alertou para o “risco de blecautes”, devido à prematura desativação das usinas nucleares alemãs, e afirmou que tal situação tende a elevar os preços das tarifas para o consumidor, sem falar no aumento da necessidade de importação de eletricidade gerada por usinas nucleares fora da Alemanha (da França e da República Checa). Além disto, afirmou, o fechamento das nucleares elimina fontes de recursos fundamentais para os investimentos na expansão da geração no país. Um exemplo é a deficiente rede de transmissão, que tem reduzido o ritmo da construção de centrais eólicas offshore no Mar do Norte – processo obstaculizado, ainda, por outros fatores, como os trâmites burocráticos e os protestos de cidadãos.

A operadora do sistema elétrico alemão, Tennet, advertiu, em uma carta urgente à chanceler e aos ministros da Energia e do Meio Ambiente, que a conexão simultânea de dezenas de fazendas eólicas offshore à rede principal alemã, tal como planejado pelo governo, está condenada ao fracasso. Segundo a empresa, isto se deve à “falta de recursos financeiros, humanos e materiais de todos os envolvidos… As condições têm de ser revistas, e as responsabilidades, melhor distribuídas (Financial Times Deutschland, 16/11/2011)”.

A Tennet estiam que serão necessários entre 5-6 bilhões de euros nos próximos dez anos, para interligar efetivamente as centrais eólicas à rede de transmissão principal do país. Ademais, outro sério problema que compromete tal pretensão é a cada vez mais difícil obtenção de financiamentos para projetos eólicos. Com o crescimento dos preços dos combustíveis e a desativação das nucleares, os balanços das empresas alemãs do setor elétrico foram seriamente afetados, comprometendo as suas notas de confiabilidade por agências como a Moody’s.

Um reflexo disso é a crise das empresas eólicas que, tais como as fabricantes solares, veem as suas receitas diminuírem drasticamente. O índice de ações Rennixx, que enumera o desempenho de 30 empresas do setor de renováveis, sofreu uma desvalorização média de 56% desde abril, quando registrou o pico de valorização deste ano.

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