Putin silencia provocações da OTAN

Durante a última edição do seu programa anual “Linha Direta com Vladimir Putin”, em 30 de junho, o presidente da Federação Russa deu uma resposta surpreendente a uma pergunta sobre se um incidente como o provocado pelo destróier britânico HMS Defender, uma semana antes, poderia deflagrar uma nova guerra mundial.

Como se recorda, em 23 de junho, a belonave navegou sem autorização durante quase meia hora dentro das águas territoriais russas ao largo da Crimeia, região sobre a qual Londres não reconhece a soberania de Moscou. Na ocasião, navios e aviões russos chegaram a fazer disparos de advertência contra o navio, antes que ele voltasse às águas internacionais do Mar Negro. Posteriormente, o governo russo convocou a embaixadora e o adido naval britânicos em Moscou, para adverti-los de que uma repetição do episódio poderá ter consequências bem mais sérias.

Em sua resposta, depois de demonstrar um conhecimento detalhado da ação provocativa – coordenada com os EUA -, Putin afirmou que mesmo um eventual afundamento do destróier britânico não provocaria um novo confronto armado, pois os provocadores sabem que não teriam condições de vencê-lo. Em suas palavras:

Primeiro, era óbvio que foi uma provocação. O que pretendiam mostrar e que objetivos queriam atingir? Para começar, foi uma provocação maior e foi conduzida não só pelos britânicos, mas também pelos estadunidenses. Os britânicos entraram em nossas águas territoriais à tarde, enquanto que, mais cedo, às 07h30min, um avião de reconhecimento estratégico dos EUA decolou de um aeroporto militar da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] na Grécia, creio que em Creta. Eu fui informado disto, é claro, eu sei tudo a respeito. Se me recordo corretamente, o número de matrícula [do avião] era 63/9792. Nós o vimos muito claramente e o monitoramos. Ficou claro que o destróier entrou [em nossas águas territoriais] perseguindo objetivos militares, tentando descobrir as ações das nossas Forças Armadas para deter uma provocação, com a ajuda do avião de reconhecimento, eles estavam tentando identificar como operamos, onde estavam localizadas as coisas e como elas operavam. Nós vimos isto e lhes demos as informações que consideramos necessárias. Eu posso ter falado demais, espero que os militares me perdoem. (…)

A segunda questão é o componente político. Recentemente, alguns dias antes, houve uma reunião em Genebra [com o presidente estadunidense Joe Biden]. A pergunta é: por que houve tal provocação? Para que tudo isso? Para enfatizar que essas pessoas não respeitam a escolha dos crimeianos de se unir à Federação Russa? Há alguma coisa que eles não entendem por lá? Muito bem, continuem não aceitando isso. Mas por que uma provocação desse tipo? (…)

A moderadora, jornalista Nailya Asker-zade, interpõe uma pergunta: “Talvez, a OTAN esteja nos atiçando? Neste momento, está ocorrendo o exercício Sea Breeze [no Mar Negro], e ontem, houve uma fragata holandesa.”

Putin completou sua resposta:

Você disse que isso colocou o mundo à beira de uma guerra global. Não, é claro que não. Mesmo se nós tivéssemos afundado aquele navio, ainda assim, é difícil imaginar que isso teria colocado o mundo à beira de uma terceira guerra mundial, porque aqueles que fizeram isso sabem que não poderiam vencer uma guerra como essa. Isso é muito importante.

Eu não acho que nós teríamos ficado felizes com esse curso dos acontecimentos que você mencionou, mas pelo menos nós sabemos pelo que estamos lutando: estamos lutando por nós mesmos e o nosso futuro no nosso próprio território. Não fomos nós que percorremos milhares de quilômetros por ar e por mar, na direção deles; foram eles que se aproximaram das nossas fronteiras e entraram no nosso mar territorial, o que é um componente crucial na situação geral.

Eu não estou preocupado com isso ou com que alguém não respeite a escolha do povo da Crimeia de se unir à Rússia. Eu tenho outra preocupação. Veja, agora, eles fizeram barulho sobre o fato de que nós estivemos realizando manobras militares dentro do nosso território, perto da fronteira ucraniana. Eu instruí o Ministério da Defesa para encerrar as manobras sem fazer barulho e retirar as tropas, se isto era uma grande preocupação para eles. Nós fizemos isso. Mas, em vez de responder positivamente e dizer, “Ok, nós entendemos a sua reação e a sua indignação”, o que eles fizeram? Se aproximaram das nossas fronteiras (Kremlin, 30/06/2021).

A despeito da certeza demonstrada por Putin sobre a incapacidade de a OTAN se impor militarmente à Rússia – principalmente, devido ao seu incomparável arsenal de armas hipersônicas –, qualquer incidente armado poderá ter consequências imprevisíveis e, certamente, bastante prejudiciais para todas as partes envolvidas. E o problema maior é que algo assim pode ocorrer até mesmo sem um consenso entre as estruturas governantes da Aliança Atlântica. No caso do Defender, a decisão de efetuar a passagem pelas águas territoriais russas foi tomada sem unanimidade no comando militar britânico e contra a opinião do chanceler Dominic Raab.

Em entrevista ao jornal The Times (25/06/2021), ninguém menos que o chefe do Estado-Maior de Defesa, general Nick Carter, afirmou que o incidente foi um exemplo de um erro de cálculo que poderia levar a uma “escalada injustificada”.

“O tipo de coisa que vimos no Mar Negro é o tipo de coisa que poderia provocar isso. Não teria ocorrido naquela ocasião, mas é o tipo de coisa sobre o qual se precisa pensar seriamente a respeito” – afirmou o militar, que, aparentemente, não foi consultado sobre a decisão ou não a aprovou.

O destróier HMS Defender manobra para deixar as águas territoriais russas sob a mira de um avião de ataque SU-24 (imagem: Ministério da Defesa da Rússia)

Não por coincidência, dias antes, as Forças Aeroespaciais Russas deslocaram para a base de Khmeimin, na Síria, caças MiG-31 armados com mísseis hipersônicos antinavio Kinzhal, ao mesmo tempo em que uma força-tarefa britânica com o porta-aviões HMS Queen Elisabeth entrava no Mediterrâneo.

A agenda provocativa da OTAN foi ressaltada com a enorme dimensão assumida pelas tradicionais manobras Sea Breeze, realizadas anualmente com a Marinha da Ucrânia, no Mar Negro. A edição deste ano reuniu 40 navios, 40 aviões e mais de 5 mil militares e observadores de 32 países, inclusive vários que não integram a Aliança, como a Austrália, Japão, Senegal e o Brasil. Um fato curioso foi que a Alemanha, membro da OTAN, declinou de participar, assim como a Coreia do Sul – pelo que, a propósito, seria relevante saber o que justificou a decisão de enviar militares brasileiros para uma ação de cunho eminentemente político contra a Rússia.

Por sua vez, mesmo sem acreditar em uma nova guerra mundial, Moscou se prepara para toda sorte de provocações e ações hostis, inclusive, de guerra híbrida, como demonstra a recém-divulgada “Estratégia de Segurança Nacional da Federação Russa”, que será comentada proximamente neste sítio.

Nesse contexto carregado, é de suma relevância que Putin tenha realizado mais uma reunião (por videoconferência) com o presidente chinês Xi Jinping, reforçando a percepção de que as duas potências estão consolidando cada vez mais uma agenda comum para a reconfiguração da ordem de poder global, mesmo negando que o seu entendimento seja uma aliança militar e política ao estilo da Guerra Fria.

Afinal, é a OTAN quem precisa de um pretexto existencial para justificar a sua continuidade em um mundo multipolar, cooperativo e não hegemônico.

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