Na guerra de narrativas travada em torno da invasão da Ucrânia pelas Forças Armadas da Federação Russa, a versão prevalecente no Ocidente é a de um ataque não provocado motivado pela intenção do presidente Vladimir Putin, quase invariavelmente retratado como um autocrata ou ditador sanguinário, de reconstituir a antiga União Soviética, da qual seria um saudosista. Neste campo de batalha propagandística, é forçoso reconhecer que a Rússia tem levado uma grande desvantagem, como se depreende da virtual unanimidade da mídia ocidental na cobertura e nas análises do conflito, que alguns já apresentam como marco inicial de uma nova divisão do mundo entre “democracias” e “autocracias”.
Entre outros, este é o caso do comentarista-chefe de Economia do jornal britânico Financial Times, Martin Wolf, que, em entrevista ao “Estadão” de 20 de março, afirmou que considera inevitável uma divisão mundial entre um bloco “democrático” liderado pela Europa e os EUA e outro “autocrático”, encabeçado pela China e a Rússia. “Começamos a nos mover para uma era de conflitos geopolíticos entre democracias e autocracias. E isso pode durar bastante tempo”, disse ele.
Na mesma linha, em um discurso na Business Roundtable, organização empresarial de Washington, o presidente estadunidense Joe Biden admitiu que o mundo encontra-se em um “ponto de inflexão… que ocorre a cada três ou quatro gerações”. E encerrou com um solene compromisso: “Vai haver uma nova ordem mundial, e nós vamos liderá-la. E, fazendo isto, nós vamos unir o resto do mundo livre (sic) (White House, 21/03/2022).”
A menção ao “mundo livre” evoca os tempos da Guerra Fria, sempre caros aos condôminos do poder em Washington, apreciadores de referências históricas para justificar a agenda hegemônica que os EUA têm se empenhado em consolidar desde a implosão da União Soviética. Uma diferença crucial, no entanto, é que durante o confronto Leste-Oeste os EUA dispunham de estadistas, diplomatas e lideranças militares com profundos conhecimentos sobre a história e cultura dos oponentes e um apropriado respeito por eles, o que contribuiu bastante para impedir que o conflito se tornasse “quente”, até mesmo em momentos críticos como a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962. Um caso emblemático é o do diplomata George Kennan (1904-2005), o principal arquiteto da estratégia de “contenção” da URSS no pós-guerra, que viveu o bastante para tornar-se um severo crítico da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para o Leste da Europa, após a extinção do Pacto de Varsóvia, que considerava um sério erro e uma provocação desnecessária à Rússia pós-soviética.
Em uma conversa de 1998 com o jornalista Thomas Friedman, logo após o Senado dos EUA ter endossado a expansão da OTAN, recordada por Friedman em um artigo reproduzido na edição de 23 de fevereiro último do “Estadão”, Kennan observou:
Acho que os russos vão, gradualmente, reagir de maneira bastante adversa, o que será refletido nas políticas deles. Me parece um erro trágico. Não havia nenhuma razão para isso. Ninguém está ameaçando ninguém. Tal expansão faria os pais fundadores dos EUA revirarem nas suas tumbas.
Assinamos um acordo para proteger uma série de países, mesmo sem ter os recursos ou a intenção de fazê-lo com um mínimo de seriedade. (A expansão da OTAN) foi simplesmente uma decisão leviana de um Senado sem nenhum interesse real nas questões internacionais. O que me incomoda é a superficialidade e falta de informação vistas ao longo desse debate no Senado. Fiquei particularmente incomodado com as referências à Rússia como se se tratasse de um país louco para atacar a Europa Ocidental.
Será que as pessoas não entendem? Na Guerra Fria, nossas diferenças eram com o regime comunista soviético. E agora estamos virando as costas justamente para o povo que realizou a maior revolução pacífica da história para derrubar esse regime soviético. E a democracia russa é, no mínimo, tão avançada quanto a desses países que acabamos de prometer que defenderemos da Rússia. É claro que a Rússia vai reagir mal, e então (os responsáveis pela expansão da OTAN) dirão que eles sempre alertaram para essa personalidade russa – mas isso é simplesmente um erro.
Vinte e quatro anos depois, Friedman demonstra que não aprendeu nada com o veterano diplomata, a julgar por seu artigo publicado no “Estadão” de 22 de março, no qual comenta que o “Plano B” de Putin, diante de um eventual impasse militar, seria inundar a União Europeia (UE) com refugiados:
(…) Aí está a pergunta do momento: será que a pressão sobre os países da OTAN, de todos os refugiados que a máquina de guerra de Putin está criando – mais e mais a cada dia – superará a pressão que está sendo criada em seu Exército estagnado na Ucrânia e em sua economia em casa, cada vez mais a cada dia?
A resposta a essa pergunta deve determinar quando e como essa guerra termina – se com um claro vencedor e perdedor ou, talvez mais provavelmente, com algum tipo de acordo sujo inclinado a favor ou contra Putin. Digo “talvez” porque Putin pode sentir que não pode tolerar qualquer tipo de empate ou acordo sujo. Ele pode sentir que qualquer coisa além de uma vitória total é uma humilhação que minaria seu controle autoritário do poder.
Se estivesse vivo, Kennan, certamente, seria um dos numerosos especialistas de áreas diversas e de vários países, EUA inclusive, que, apesar da limitada repercussão midiática, têm advertido contra o maniqueísmo simplista e insidioso com o qual a Rússia vem sendo tratada pelos porta-vozes, representantes e apoiadores da hegemonia estadunidense, da qual a OTAN não passa de um instrumento. Como eles, entenderia que, para o Kremlin, ora liderado por Putin, o enquadramento da Ucrânia não sinaliza uma guerra de conquista, mas uma questão existencial fundamentada na história dos vários – e sangrentos – conflitos da Rússia com potências ocidentais. E, da mesma maneira, não estranharia as duras palavras de Putin em seu discurso de 24 de fevereiro, no qual justificou a operação militar:
(…) Se a História serve como referência, nós sabemos que, em 1940 e no início de 1941, a União Soviética empenhou grandes esforços para evitar a guerra ou pelo menos evitar a sua eclosão. Para este fim, a URSS procurou até o fim não provocar o agressor potencial, restringindo ou adiando as preparações mais urgentes e óbvias que tinha que fazer para se defender de um ataque iminente. Quando, finalmente, agiu, era muito tarde.
Como resultado, o país não estava preparado para se contrapor à invasão da Alemanha nazista, que atacou a nossa Pátria em 22 de junho de 1941, sem uma declaração de guerra. O país deteve o inimigo e seguiu adiante para derrotá-lo, mas a um custo tremendo. A tentativa de apaziguar o agressor, antes da Grande Guerra Patriótica, demonstrou ser um erro que custou muito caro ao nosso povo. Nos primeiros meses após o início das hostilidades, nós perdemos vastos territórios de importância estratégica, bem como milhões de vidas. Nós não cometeremos esse erro uma segunda vez. Não temos o direito de fazer isso.
Em um contundente artigo publicado em 21 de março no sítio Strategic Culture Foundation, o ex-diplomata inglês Alastair Crooke, um dos melhores observadores do cenário global em serviço, comenta os riscos da falha de percepção das lideranças ocidentais:
Se o Ocidente estiver errado em seu estereótipo de um “líder autoritário sem princípios” – Putin, levando seu país à guerra por algum ganho tático efêmero contra o Ocidente –, então, o Ocidente também pode estar errado em pensar que está travando uma guerra tática; e, por conseguinte, errado em imaginar que movimentos táticos consistindo em carregar dor no prato russo da balança para desequilibrá-la irá resultar em “uma retirada, por um Putin reduzido às suas reais proporções”.
O que teríamos, então, seria uma guerra total travada, de um lado, pela Rússia, como uma guerra em que a Rússia se defende ou deixa de existir e, do outro, um “Ocidente” travado na lógica do seu próprio constructo e se aproximando da sua própria “guerra santa” (secularizada) [grifos no original].
Em síntese, para a Rússia, trata-se de um conflito existencial, em vez de uma mera agressão imperialista, como sugere uma interpretação enganadora, apesar de amplamente disseminada pelos arautos e guardiões do status quo ocidental. Para reforçar esse entendimento, deixamos o leitor com os parágrafos finais do artigo de Alastair Crooke:
“Parece que a guerra total pode tornar-se inevitável. As duas diferentes interpretações da ‘realidade’ não se tocam em lugar algum. A lógica é inelutável. Dentro de tais arquiteturas de ódio, fatos históricos selecionados ou inventados sobre a Rússia, sua cultura e sua natureza racial são citados fora de contexto – e alocados em estruturas intelectuais pré-arranjadas para acusar o presidente Putin de ‘bandido’ e ‘criminoso de guerra’.
“Se estamos caminhando nessa direção, ela nos leva ao erro potencialmente catastrófico de perceber a Rússia como um mero ator transacional – abordagem que emerge da denúncia pelo Ocidente do seu próprio legado cultural. O processo é simples: no passado, uma obra de arte, um grande livro, eram vistos e lidos para iluminar e entender eventos passados. Hoje, são entendidos apenas como uma expressão da cultura contemporânea. Basta apresentar essa cultura como politicamente incorreta (como branca, misógina ou colonial) e, imediatamente, ela se torna politicamente incorreta, o que significa que qualquer menção a ela é um crime. Como pode, então, ser entendida a história russa? Simplesmente, não pode.
“Não pode ser entendida a maneira como a Rússia lê a História como uma longa e milenar sucessão de tentativas de se cancelar o país; de um antigo antagonismo e racismo dirigido contra os eslavos; de como os russos podem ler a recente intervenção dos EUA na Igreja Ortodoxa tradicional, por intermédio do Patriarcado de Constantinopla, desenhada para fomentar um cisma na comunidade ortodoxa, tanto para enfraquecer o Patriarcado de Moscou (o baluarte do pensamento social tradicional), como para infundir as sementes do liberalismo ocidental e dos valores culturais ocidentais nas igrejas ortodoxas nacionais [a propósito, ver “A ‘geopolítica religiosa’ da OTAN na Ucrânia, Síria etc.”, MSIa Informa, 09/11/2018]. Muitos russos piedosos veem o conflito ucraniano como uma ‘guerra santa’ para preservar o ethos tradicionalista de um impulso cultural niilista ocidental.
“Igualmente, deve ser entendido como muitos russos veem a Revolução Bolchevique, a intervenção neoliberal estadunidense na era Yeltsin e a atual cultura woke [de “desperto” em inglês, termo genérico para as políticas identitárias – n.e.] como farinha do mesmo saco (o bolchevismo não sendo nada mais que a ‘primeira edição’ do ‘wokeísmo’): ou seja, uma luta para anular a civilização russa e o ethos ortodoxo.
“Nós podemos ler a História de forma diferente, mas, não obstante, o anterior pode representar algo da visão autêntica de muitos russos. Este é o ponto. Ele tem implicações para a guerra e a paz.”

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