Semanas atrás, o psiquiatra e neuropsicólogo austríaco Raphael Bonelli proferiu uma palestra para uma plateia alemã, na qual apresentou algumas das principais teses de seu livro mais recente, “Sem cabeça: como o pensamento funciona. Por que o perdemos. Como podemos recuperá-lo” (Kopflos: Wie Denken funktioniert.Warum wir es verlernt haben. Wie wir es zurückgewinnen, 2026). Bonelli, seguidor da tradição do famoso psiquiatra austríaco Viktor Frankl (1905-1997), criador da logoterapia, preside o Instituto de Recursos em Psiquiatria, Psicologia e Psicoterapia (RPP) de Viena, que facilita o diálogo entre a psiquiatria e outras disciplinas como filosofia e teologia.
Como já havia destacado em várias entrevistas, Bonelli afirmou ter chegado à conclusão de que “estamos começando a perder a cabeça e temos problemas com o pensamento verdadeiro”. Para ele, atualmente, a perda da “cognição humana” está relacionada ao fato de vivermos em um mundo totalmente digitalizado, inundado por tantas informações que o cérebro humano se torna incapaz de analisá-las completamente. “Nos tornamos prisioneiros do pensamento superficial e tendemos a acreditar mais na inteligência artificial do que em nossa própria mente”, afirma. Segundo ele, a mídia também não se concentra em reportagens aprofundadas, mas se apressa em tirar “conclusões” ao “julgar” rapidamente o que está noticiando.
Em seu livro, Bonelli identificou várias áreas de danos cognitivos que enfrentamos atualmente:
* Transtorno mental digital: tudo está tão digitalizado que as pessoas nem vão ao banheiro sem os seus celulares.
* Transtorno de pensamento demográfico: os “Bobos” (gíria para “burgueses boêmios”, pessoas com estilo de vida urbano) pensam em alimentação saudável, no clima e em não ter filhos por causa da “pegada ambiental”. Ele observou que na Alemanha nascem cada vez menos crianças; a média nacional é de 1,3 filho por mulher em idade fértil, e diminui com o nível de educação da mulher.
* Transtorno de pensamento pedagógico: universidades e escolas estão cada vez mais baseadas na “ideologização”. As crianças não são incentivadas a pensar de forma autônoma e autoconsciente, mas a seguir a corrente. Ou seja, o que eu tenho a dizer que se encaixa na corrente principal e me faz ser aceito pela multidão?
* Transtorno mental coletivo: é o pensamento “woke”. A percepção está muito distante da realidade e da verdade. Pensamento woke significa que a “linguagem humana” é alterada e, desta forma, a “realidade” também é alterada e transformada.
De acordo com Bonelli, o típico “pensamento superficial” de hoje se adaptou ao “pensamento de grupo”. Pensamos em uma “bolha”: “O pensamento em bolha consiste em entrar numa sociedade fechada que se distancia do pensamento dos outros. Dentro da bolha não há contradição. No computador, você só conversa com aqueles que pensam da mesma forma ou de maneira semelhante, como podemos ver em George Orwell… É uma forma de disrupção da sociedade.”
Poderíamos traduzir isso como a “dissonância cognitiva” que registramos atualmente entre as elites europeias, particularmente a alemã. Desde o início da guerra na Ucrânia, elas não apenas se tornaram cada vez mais distantes da realidade e de suas próprias populações, mas vivem em completa autoilusão. O que celebram como a vitória iminente do Ocidente contra a Rússia é uma ilusão total e infligiram mais desordem econômica a si mesmas do que à Rússia.
Para Bonelli, existe um forte impulso de “Tânatos”, um impulso inconsciente de morte, na acepção original de Sigmund Freud. Como afirmou em uma entrevista: “A Alemanha é como o paciente no divã do psiquiatra. Ela sofre de Tânatos. Não quer mais nada… Tânatos é a rejeição do Bem.”
Ele vê isso em consonância com a incapacidade de se perceber a “Verdade, o Bem e a Beleza”. A Alemanha parece não ter mais “valores intrínsecos”, diz. “Somos uma sociedade compulsiva”, como ficou demonstrado durante a crise da Covid-19. A verdadeira solução está no “indivíduo”. Neste sentido, ele fez referência a Viktor Frankl.
Observações importantes de Viktor Frankl
Em seu célebre livro Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, traduzido em mais de 50 idiomas, Frankl descreve os diferentes estágios da vida em campos de concentração nazistas na II Guerra Mundial, nos quais passou quatro anos e perdeu quase toda a sua família. Segundo ele, após o primeiro choque do internamento, o detento desliza para o segundo estágio, a apatia relativa. Com ela vem uma morte interior das emoções. Ele anseia por ver o seu povo amado. Sente repulsa por tudo que há de feio no ambiente que cerca os detentos. A morte das emoções pessoais avança rapidamente – pessoas sofrendo, doentes e moribundas, tudo isso é vivenciado com tanta frequência que, após algumas semanas, o detento não se comove mais emocionalmente. Frankl relata um dado momento em que ele próprio atuou como médico em um barracão para pacientes com tifo que morriam como moscas: “Fugir internamente do ambiente terrível para o mundo da liberdade espiritual e da riqueza interior… torna possível sobreviver e torna a vida no campo mais fácil.”
Ele ressaltou que pessoalmente foi conquistado pela constatação de que “o amor é a última e mais elevada ideia que a existência humana possui. Compreendi o sentido da Vida, aquilo que a poesia, o pensamento e a fé humanos podem expressar: a redenção através do amor e pelo amor”.
Frankl referiu-se ao célebre escritor russo Fiódor Dostoiévski, que certa vez disse: “Só temo não ser digno da minha agonia.” “Muitas vezes pensei nessas palavras, quando conheci aqueles mártires, como as pessoas cujo sofrimento e morte no campo de concentração testemunharam a sua liberdade interior. (…) A liberdade espiritual do homem, que se pode encontrar no ser humano até o seu último suspiro, dá-lhe a oportunidade de moldar a sua vida de uma forma significativa… Não só o prazer da vida, mas também o sofrimento devem ter um significado, uma vez que pertencem à vida, tal como o destino e a morte.”
Portanto, existe a necessidade de se indagar sobre o “sentido da vida”. Segundo Frankl, precisamos de uma mudança em relação ao significado desse sentido. Devemos aprender e ensinar às pessoas desesperadas que o que nunca importa é o que podemos esperar da vida, mas sim o que a vida espera de nós! Como diz em seu livro: “No campo de concentração, pudemos vislumbrar o abismo da existência humana, mas também conhecemos pessoas reais. É o ser humano que ainda decide o que é. Foi ele que inventou as câmaras de gás, mas ao mesmo tempo foi um ser humano que entrou nas câmaras de gás, com uma oração nos lábios.”
Anna Haag: “Pensar não está mais na moda hoje em dia”
Esta autora acaba de ler o diário da jornalista e escritora alemã Anna Haag (1888-1982), que, durante a II Guerra Mundial, de 1940 a 1945, descreveu detalhadamente o cotidiano sob o regime nazista quando vivia em Baden-Württemberg, em 20 cadernos que ficaram escondidos durante a guerra e só foram publicados em forma de livro em 2021. Na época, um de seus três filhos vivia na Inglaterra e outro estava detido em um campo de prisioneiros no Canadá. Seu marido era professor universitário e sua filha Ludowika ficou com ela durante algum tempo. Entre outras coisas, descreve os comentários diários de seus vizinhos, em sua maioria apoiadores fervorosos do Führer Adolf Hitler até o fim do regime nazista. Ela capturou as reações dos vizinhos comuns aos prisioneiros estrangeiros – poloneses, franceses e russos – e as explosões de ódio ocorridas quando alguém na vizinhança dava comida ou roupas extras aos prisioneiros, o que era visto como traição ao Führer e à raça alemã.
Anna Haag afirma que as pessoas comuns sabiam o que acontecia com os judeus em Colônia, que, por exemplo, eram levados aos Messehallen (pavilhões de exposições) para serem transportados para os campos de concentração. Ela também descreve as mudanças em seus próprios sentimentos subjetivos, oscilando entre a depressão total e a esperança, bem como a confiança de que um dia os Aliados libertariam o povo alemão desse jugo. Pessoalmente, ela refugiou-se na música clássica e no piano, ouvindo secretamente as notícias da BBC britânica. E descreve a pressão constante para manter a boca fechada, pois alguém em seu círculo pessoal poderia denunciar algumas de suas críticas, bem como o comportamento irracional de seus vizinhos quando os bombardeios aéreos aliados começaram.
O livro descreve o seu sofrimento com a ideologia nazista dominante na mentalidade das pessoas comuns, fazendo uma distinção entre os Herrenmenschen (homens superiores) e os Untermenschen (subhomens, em especial, os eslavos). Era uma emoção tão forte que impedia pessoas, como o farmacêutico da vizinhança, de perceberem o fracasso colossal da Operação Barbarossa de Hitler contra a União Soviética e as enormes perdas de soldados russos e alemães. Uma crença repetitiva nas Wunderwaffen (armas maravilhosas) e na vitória alemã. Uma realidade que podemos ver refletida com dificuldade em algumas discussões atuais na Alemanha. Anna Haag rezava frequentemente, ajudava outras pessoas de forma altruísta e refletia sobre a imensa pressão interna exercida sobre aqueles que amavam a justiça no Terceiro Reich.
Será que terminará tragicamente de novo?
Considerando os fatos mencionados acima, tudo se torna ainda mais chocante quando observamos os eventos das últimas semanas, após a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Ancara, que, por unanimidade e com o apoio total do presidente Donald Trump dos EUA, formulou os objetivos da Aliança: derrotar estrategicamente a Rússia e aumentar a assistência militar à Ucrânia em várias ordens de magnitude, além de endurecer as sanções contra Moscou. Como resultado, a guerra se intensificou em ambos os lados e caminha para uma escalada, como também foi confirmado pelo presidente Vladimir Putin e seu porta-voz, Dmitri Peskov.
A propósito, vale a pena analisar uma discussão recente entre o conhecido apresentador de televisão russo Vladimir Solovyov e o diretor da revista suíça Weltwoche, Roger Koeppel, além de outra consecutiva entre Koeppel e o general da reserva Harald Kujat, ex-inspetor-geral do Exército alemão e ex-presidente da Comissão Militar da OTAN.
Solovyov fez a pergunta retórica: “Por que a Rússia deveria esperar para atacar a Europa, depois de tudo o que foi desencadeado contra ela nas últimas semanas, especialmente, desde a cúpula de Ancara?”
Em seguida, apresentou uma lista com os nomes de empresas bélicas europeias que têm produzido drones e outros equipamentos militares em cooperação com a Ucrânia, para serem usados contra a Rússia. Entre elas, citou empresas da Grã-Bretanha, Dinamarca, Itália, Espanha, França, República Checa, Alemanha e Israel. E perguntou repetidamente: “Por que a Rússia deveria esperar para fazer algo, considerando que a Europa gastou 140 bilhões de euros nos últimos dois anos?”
Referindo-se à tentativa de assassinato do oligarca ucraniano Vadym Yermolaiev em Mônaco, semanas antes, ele delineou um cenário de como a Europa ficaria após a guerra, que poderia terminar de forma caótica. O poder da máfia ucraniana – seu dinheiro e armas – tentará colocar cada vez mais a Europa Ocidental sob o controle de seu dinheiro sujo e operações terroristas.
Sobre o ódio generalizado contra a Rússia na Europa (especificamente entre as elites), Solovyov explicou que isso tinha a ver com o fato de que “nós (Rússia) vencemos a Segunda Guerra Mundial. Os avós e avós da Alemanha sofreram muito. A invasão da Rússia pela Alemanha não teve um motivo justo. Agora, na cabeça de alguns revanchistas europeus, cria-se a ideia de que ‘agora é a chance de atacar’. A ideia de Übermensch contra Untermensch vem à tona. Permanecemos em silêncio por mais de 85 anos, agora, eles dizem que há uma chance de vencer… Tudo isso está muito ligado à história familiar em relação a cada decisão que está sendo tomada”.
No dia seguinte (17/07/2026), foi a vez de Kujat conversar com Koeppel. O general afirmou que o ex-chefe do Estado-Maior ucraniano, Valery Zaluzhny, já havia dito que não esperava nenhum avanço na guerra com drones. Ele acrescentou que os EUA – ou seja, Trump –, agora estão fora da guerra na Ucrânia, inclusive em termos de mediação de paz. Segundo Kujat, no campo de batalha, os russos intensificaram visivelmente seus ataques para conquistar o restante de Donetsk e querem estabelecer uma zona de segurança para impedir que a Ucrânia realize novos ataques como os que fizeram em Kursk. Ele mencionou o fato de Odessa também ter sido atacada novamente. O foco da Rússia, segundo Kujat, é alcançar os seus objetivos de guerra, mas ressaltou que a porta para negociações não deve ser fechada. A Europa deve pensar em como tornar isso possível. Ele demonstrou total compreensão pelo desejo da Rússia de criar zonas de proteção e segurança e acrescentou que, como não tolerará certas ações da Ucrânia e da Europa, “aumenta o perigo de um conflito entre a OTAN e a Rússia”.
De acordo com Kujat, “a escalada russa é diferente da escalada da OTAN. Nós, na OTAN, escalamos em pequenos passos. A Rússia tem uma grande tolerância. Não podemos dizer onde termina a tolerância deles. Em relação às manobras da OTAN perto da fronteira russa, bem como à decisão de instalar um escudo antimíssil europeu-ucraniano, Kujat disse que isso não será aceito pela Rússia de forma alguma. Os mísseis Patriot têm apenas uma eficiência limitada. O fornecimento de software para selecionar os alvos militares e de hardware para atingir o espaço aéreo russo constituem uma clara escalada contra a Rússia. Ele criticou o fato de que “na Alemanha os políticos não têm um plano”.
Em resposta a uma pergunta sobre a declaração de Solovyov de que uma guerra na Europa pode ser inevitável, Kujat respondeu que é otimista e que acredita que se pode encontrar uma “solução baseada na razão”. Ele enfatizou ainda que “nós na Alemanha usamos a ‘ameaça russa’ como pretexto. Sou um discípulo da ‘Teoria do Equilíbrio de Forças’ de Helmut Schmidt. A condição prévia para a paz é o diálogo com a outra parte. Isso inclui também negociações para a redução do controle de armamentos, ou seja, uma estratégia dupla. Mas a realidade agora é: recusamos dialogar com a outra parte! Ainda tenho esperança de que, em algum momento, haverá uma mudança de postura”.
E concluiu: “A política não deve basear-se no desespero. Nós não estamos apenas lidando com a maior potência nuclear da Terra. Uma guerra futura superaria a Segunda Guerra Mundial em muitas dimensões. Nós estamos escalando a partir de uma posição de fraqueza. Nós demonizamos Putin, em vez de confiar na racionalidade dele. Nós não temos o domínio da escalada. Nós podemos ajudar a Ucrânia, mas não podemos brincar com a Europa. Na Rússia, há uma crescente preparação para obter uma solução negociada que também inclua garantias de segurança. Então, eu não acredito na inevitabilidade da guerra.”

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