BRICS, Lula, Macbeth e o “Estadão”

Na recente cúpula do BRICS, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o grupo não pretende se contrapor ao G-7. Teria sido uma preocupação em melindrar alguns dos grandes apoiadores de sua campanha presidencial, em especial, os EUA e a União Europeia? Ora, um dos motivos da criação do BRICS foi, precisamente, o fato de o G-7 ser um clubinho de países ricos fechado em si mesmo e desconectado das mudanças do cenário global, que já se vislumbravam quando da sua criação, em 2009, e só têm se acelerado desde então.

A contradição não foi considerada pelo tradicional jornal O Estado de S. Paulo, que em 26 de agosto publicou um furioso editorial contra a ampliação do grupo (“Um BRICS mais amplo, confuso e autoritário”), no qual afirma que “o Brasil não ganha nada e perde muito aderindo acriticamente ao projeto de expansão da China, para quem o bloco é um veículo para promover seu confronto com o Ocidente”.

Sigamos acompanhando o argumento do venerável “Estadão”: “O Brasil foi e é o país com as melhores credenciais democráticas do BRICS (sic) e pode fortalecer sua independência e posição de equilíbrio se focar, por exemplo, em revigorar laços com os EUA, concluir o acordo Mercosul-União Europeia ou ingressar na OCDE (supersic).”

Seguir a sugestão do jornalão da família Mesquita significaria romper de fato com o BRICS e postar-se de joelhos diante do poderio oligárquico euroatlântico. Continua o editorial: “O BRICS continua a oferecer oportunidades ao país. Mas a incoerência e inoperância do grupo sempre evocaram o célebre lamento de Macbeth sobre a vida: ‘uma sombra errante’; ‘um pobre ator que se pavoneia e se aflige no palco’; um conto ‘cheio de som e fúria, significando nada’.”

Talvez, seja relevante reordenarmos a comparação. Os “idiotas que contam a história” são os editores do jornal, pois, se o BRICS não tem relevância, por que tanta “fúria”, que, afinal, não significará nada? Quanto à “sombra errante” de “um pobre ator que se pavoneia e se aflige no palco”, se parece com um retrato falado de Lula em seu esforço de malabarismo entre o BRICS e as potências euroatlânticas.

Aliás, Lula e seus assessores deveriam prestar muita atenção ao fato de os seus parceiros orientais e africanos no “BRICS 11” continuarem investindo nos combustíveis fósseis como fontes energéticas eficientes e de custo-benefício favoráveis para propelir os seus planos de desenvolvimento, dando atenção apenas formal e perfunctória à agenda da “sustentabilidade” definida pelas potências ocidentais e tão entusiasticamente abraçada pelo governo brasileiro.

Sem mencionar as amplas possibilidades de cooperação em projetos comuns de ciência, tecnologia e inovação, exploração espacial, energia nuclear, biotecnologia e numerosos outros. Um destaque promissor foi a proposta do primeiro-ministro indiano Narendra Modi para a criação de um consórcio espacial do grupo, feita em meio à façanha tecnológica de seu país, que desceu a sonda Chandrayaan-3 nas vizinhanças do Polo Sul da Lua.

Voltando às sugestões do “Estadão” e aos malabarismos retórico-diplomáticos de Lula, tanto a História como a grande literatura universal demonstram e sugerem que tais tentativas costumam terminar em tragédias.

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