Problemas ambientais: a desorientação de Ricupero

Em uma recente palestra promovida pelo Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema) das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o ex-diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero demonstrou a desorientação que ainda prevalece na sociedade, em geral, e entre os tomadores de decisões, em particular, quanto à natureza e as dimensões dos problemas reais do meio ambiente e como estes deveriam ser encarados. Fiel ao “status quo”, Ricupero colocou a ênfase de sua exposição nas questões climáticas, enfocadas na inexistente influência das ações humanas no clima global.

Na palestra, Ricupero fez o alarde esperado sobre o fato de a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera ter atingido 400 ppm (partículas por milhão em volume), fato por ele rotulado como “preocupante” e “sem precedentes”. Para ele, o maior problema é que não há reação para deter as emissões:

Mudar é difícil porque teríamos que alterar a nossa maneira de viver nos últimos 200 anos, que vem desde a Revolução Industrial… Além disso, o ser humano age premido pelas circunstâncias e, embora saibamos que o que nos espera é muito grave, há uma ilusão de que temos muito tempo. Isso faz com que não seja tomada uma decisão imediata (Agência Indusnet Fiesp, 29/05/2013).

O ex-ministro também criticou a falta de progresso nas negociações internacionais por acordos climáticos de alcance global, e afirmou que a chave para solucionar a questão seria o entendimento entre China e EUA:

Enquanto a China está se tornando o maior importador de petróleo do mundo, os Estados Unidos tendem a se tornar o importador cada vez menor, por causa do shale gas [gás de folhelhos]. Isso muda toda a geopolítica dos últimos 50 anos… Além disso, há ainda uma grande rivalidade política e econômica desses dois países, o que não é propício para qualquer acordo.

Dizendo que o panorama da política climática no mundo não é alentador, ele manifestou confiança numa mudança de rumo próxima: “O mais provável é que vamos conseguir, em algum momento, um modelo de desenvolvimento sustentável, mas depois de frequentes catástrofes e desastres naturais que terão o poder catalisador de provocar essas mudanças.”,

Todavia, revelou entusiasmo com relação à América do Sul em termos ambientais, e afirmou que o continente tem “uma cobertura florestal bastante avançada, apesar de estar sob pressão e não estar aumentando, também temos água e biodiversidade. Em uma economia verde, que virá inevitavelmente, os países com esses elementos terão uma vantagem enorme”.

Quanto ao Brasil, Ricupero afirmou que há aspectos positivos: “O etanol, quando começou na década de 70, foi por causa da energia, do petróleo. A questão ambiental era secundária. Hoje, o etanol é uma grande esperança, que nos dá um balanço ambiental positivo, apesar dos problemas que estamos tendo do preço do combustível.”

Ademais, afirmou que a “melhor forma de encarar o futuro é nos prepararmos para ter uma economia em que haja uma ênfase na conservação da energia e na utilização adequada dos recursos naturais. Acredito que temos condições de criar uma economia que torne o Brasil bem posicionado no futuro”.

A desorientação do ex-ministro também se mostrou em sua avaliação sobre o que chamou “um potencial grande com as eólicas e a biomassa, de recuperar e ter uma matriz limpa de energia”. Com isto, ele passa ao largo do fato de que tais fontes são imprestáveis para a geração elétrica de base, e que ligá-las à rede de base, como o Brasil e alguns países estão fazendo, é sabidamente contraproducente.

Desafortunadamente, a ideologia ambientalista ainda levará algum tempo fazendo estragos entre as lideranças brasileiras.

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