"Primavera Árabe" se transforma em "verão quente"

Por uma trágica ironia, o assassinato do embaixador dos EUA na Líbia, John Christopher Stevens, nas mãos de radicais muçulmanos salafitas ligados à rede terrorista Al-Qaida, foi uma consequência direta da presença em grande estilo destes grupos terroristas no país, proporcionada pela intervenção do bloco anglo-americano contra o regime de Muamar Kadhafi, com o apoio dos seus aliados europeus, especialmente a França, e dinheiro da Arábia Saudita e do Catar. Na lógica desses poderes hegemônicos, uma vez terminada formalmente a era da “Guerra ao Terror”, a beligerância desses grupos era convenientemente tolerada, sempre e quando se concentrassem contra os inimigos percebidos das democracias ocidentais, como o regime de Kadhafi e, agora, o presidente sírio Bashar-al-Assad. Porém, como na ficção, a criatura de Frankestein se voltou, novamente, contra o seu criador, já que Stevens foi um dos principais protagonistas da investida contra Kadhafi.

A perplexidade das lideranças estadunidenses diante do episódio se mostrou na autêntica reação da secretária de Estado Hillary Clinton: “Como isto pode acontecer? Como isto pode acontecer em um país que ajudamos a libertar, em uma cidade que ajudamos a salvar da destruição? Esta pergunta reflete o quão complicado e, às vezes, quão complicado o mundo pode ser (Reuters, 12/09/2012).”

Em um artigo publicado no The Independent de 16 de setembro, o jornalista Robert Fisk, um dos maiores conhecedores das complexidades do Oriente Médio na mídia mundial, se referiu ao assunto mencionando um velho adágio sírio: “Se vocâ alimenta um escorpião, ele vai te picar.”

Para a explosão de fúria contra os EUA, que se espalhou rapidamente pelo mundo islâmico, faltava apenas uma fagulha; no caso, o suposto filme antiislâmico divulgado na Internet por um pastor estadunidense que, ao ser investigado, apresenta vínculos mais que suspeitos com uma rede internacional de inteligência com uma vasta experiência em operações desestabilizadoras. O filme, que até agora não mostrou ser mais que um clip de 14 minutos, foi divulgado em seu sítio pelo controvertido pastor Terry Jones, que ganhou notoriedade mundial ao queimar publicamente exemplares do Alcorão, em 2010. Na ocasião, os protestos do mundo islâmico foram mais contidos, mas, ainda assim, causaram mortes no Afeganistão. À parte a polêmica sobre o produtor do filme, o currículo de Jones fornece importantes indícios das intenções dos seus autores.

Em sua coluna de 12 de setembro, o editor do sítio Veterans Today, Gordon Duff, um veterano do Vietnã com numerosos contatos militares e de inteligência de alto nível, afirmou que Jones atuou na Alemanha, nas décadas de 1980 e 1990, em operações conjuntas com a CIA, o Mossad israelense e ex-operativos da Stasi, o serviço de inteligência da antiga Alemanha Oriental. Em síntese, as suas performances antiislâmicas não seriam meras manifestações de intolerância de um fanático religioso qualquer, mas operações meticulosamente planejadas a serviço de uma agenda política de grande alcance, cujos objetivos podem ser parcialmente aquilatados pelos resultados obtidos.

Na coluna de 17 de setembro, Duff oferece uma didática descrição de tais redes e o contexto em que operam:

Terry Jones tem trabalhado para a CIA durante grande parte de sua vida, inicialmente, coordenando o recrutamento de grupos terroristas na Alemanha, sob o programa [da Operação] Gládio. Anos atrás, a OTAN recrutou desajustados sociais e psicopatas, para criar grupos terroristas que deveriam se tornar “células subterrâneas”, se os soviéticos invadissem a Europa e a América Latina. Grupos terroristas organizados pela OTAN foram criados em 36 nações de três continentes. Quando não ocorreu a invasão soviética, eles começaram a operar independentemente – 20 anos de atentados à bomba em toda a Europa, como [a loja maçônica] P2, guerra em El Salvador, Guatemala, Chile, Argentina, Angola, operações com drogas na Colômbia, grupos revolucionários na Nicarágua e no México, os “salvadores da OTAN” se transformaram nas bases de organizações terroristas em todo o mundo, organizações hoje atribuídas aos “extremistas”.

Os verdadeiros extremistas eram da OTAN e a sua história é simples. Após a II Guerra Mundial, houve dois influxos de recrutas para a inteligência dos EUA. O primeiro foi o grupo [do general Reinhard] Gehlen, da Alemanha nazista, trazido aos EUA pelo [futuro] chefe da CIA, Allen Dulles, na Operação Clip de Papel [Operation Paperclip] e, eventualmente, dirigido por George H.W. Bush e o ex-general da SS alemã Walter Dornberger. Este grupo articulou os assassinatos de John F. Kennedy e Robert Kennedy, se consorciou com grupos extremistas em Israel e liderou os EUA ladeira abaixo, no rumo do controle oligárquico, como se mostra de forma tão óbvia no comportamento dos EUA, mundo afora. A [Operação] Gládio foi uma de suas tramas, um plano hitleresco para combater o comunismo, sequestrado por uma cabala de poderosas organizações internacionais – bancos, petroleiras, indústrias de armas -, voltadas para a dominação mundial.

O segundo elemento dessa organização se agregou após a queda do Muro de Berlim, quando centenas de espiões e assassinos altamente treinados da Stasi [serviço de inteligência da antiga Alemanha Oriental] foram recrutados por grupos extremistas de direita dos EUA. Eles foram trazidos para a CIA e outras agências de inteligência, assumiram o comando de agências de segurança chave na Europa e fizeram uso do seu treinamento, habilidades e brutalidade sem iguais, para revigorar os esforços de dominação mundial dos interesses que nunca vemos, exceto quando observamos Israel ou os bancos de Wall Street, os desajeitados e estúpidos bufões da Nova Ordem Mundial.

A coincidência da divulgação do filme com a semana de 11 de setembro e a humilhação pública do premier israelense Netanyahu, que teve recusado o pedido de uma reunião com o presidente Barack Obama, no final de setembro, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas (a Casa Branca alegou indisponibilidade de agenda), levou alguns observadores a suspeitar de que, além de acirrar os ânimos no mundo islâmico, outro objetivo da operação era o de “dar uma lição” aos EUA. Apesar das pressões de Netanyahu e do poderoso lobby pró-sionista estadunidense, nos últimos meses, o governo Obama parece estar se inclinando para uma posição menos radical quanto ao programa nuclear iraniano, recusando-se a estabelecer um limite para a capacidade de enriquecimento de urânio do país, que representasse um casus belli, como pretende a facção belicista.

Por outro lado, a complexidade da situação se mostra com as maiores manobras aeronavais já realizadas no Golfo Pérsico, envolvendo belonaves de nada menos que 25 países, inclusive os EUA, Reino Unido, França, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros. A operação de demonstração de força, encabeçada por três grupos de batalha da U.S. Navy, deverá durar 12 dias, com simulações de operações de limpeza de campos minados, ataques e defesa contra aeronaves inimigas. Já os iranianos anunciaram a realização dos seus próprios exercícios aeronavais, mas apenas no próximo mês. Ainda assim, com tantas belonaves e aeronaves operando em um espaço físico relativamente limitado, como o Golfo, a possibilidade de um incidente sério nunca pode ser descartada.

No tocante à Síria, onde o conflito interno prossegue sem qualquer vislumbre de um desfecho, o entusiasmo nos EUA por uma intervenção à margem do Conselho de Segurança das Nações Unidas sofreu um duro golpe, com a eclosão das manifestações motivadas pelo filme de Jones & cia. Em particular, o ataque que vitimou o embaixador Stevens e três funcionários diplomáticos está fazendo com que, diante das lealdades altamente duvidosas e da imprevisibilidade dos grupos salafistas, não poucos comentaristas e policymakers estadunidenses estejam começando a rever as suas propostas.

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