PNUD premia tecnologia pré-histórica

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) anunciou, no último dia 28 de janeiro, que o PNUD Brasil ganhou o primeiro lugar no 2° Concurso Anual de Histórias pela Promoção do Desenvolvimento, promovido pela entidade. A reportagem vencedora, escolhida entre 250 originárias de países de todos os continentes, se intitula “Fogões ecológicos empoderam mulheres indígenas kaiowá-guarani” e trata da construção, por parte do escritório brasileiro do Programa, de fogões a lenha “ecológicos” (por substituírem materiais como ferro e cimento por outros mais acessíveis, como argila e barro) em uma comunidade guarani-kaiowá, em Panambizinho, a 250 km de Campo Grande (MS) (PNUD, 3/12/2013).

O fogão “ecológico” faz parte do Programa Conjunto de Segurança Alimentar e Nutricional de Mulheres e Crianças Indígenas, com financiamento do Fundo Espanhol para os Objetivos do Milênio e apoio do PNUD, além de outras quatro agências da Organização das Nações Unidas (ONU). O governo brasileiro também apóia o projeto, por meio do Ministério do Desenvolvimento Social e da Fundação Nacional do Índio (Funai).

O prêmio foi concedido com base no argumento de que, com a construção dos fogões de barro, pôs-se fim ao hábito de se improvisar fogões à lenha no chão das moradias indígenas. Sem qualquer proteção, este tipo de forno rústico demanda muita madeira para cozinhar os alimentos e emite muita fumaça no interior das residências, pondo em risco a saúde de mulheres, crianças e idosos, que passam muito tempo dentro delas. Como o rendimento energético é baixo, as índias tinham, com frequência, a necessidade de percorrer longas distâncias para obter mais lenha. “Tinha muitas dores na coluna. Eu chegava tão cansada que mal dava conta de cozinhar”, conta Delma, uma das índias de Panambizinho (PNUD, 3/12/2012).

Com a introdução do “fogão à lenha ecológico”, a equipe do escritório brasileiro do PNUD ressaltou que, além de poder ser feito com materiais abundantes na região, o tipo usa ao máximo o calor produzido pela queima e possui uma chaminé acoplada, fazendo com que a fumaça seja emitida para a área externa da residência, sem contaminar o ambiente interno. Segundo Renata Oliveira da Costa, coordenadora do projeto, a “fumaça de cozinha é a oitava causa de mulheres no mundo. É um problema silencioso, mas muito perigoso” (O Globo Amanhã, 5/02/2013).

Todavia, é curioso, senão irônico, que uma agência internacional de promoção do desenvolvimento tenha premiado a construção de fornos de barro – tecnologia usada pelo Homo sapiens há milhares de anos -, destacando tal fato como sendo um grande avanço qualitativo para aquela população indígena. Isto, em pleno século XXI, quando a tecnologia dos fogões já avançou para os fogões de indução eletromagnética. Esta técnica funciona com uma bobina que é excitada em uma frequência específica. O campo eletromagnético oscilante nesta frequência induz correntes nas panelas e as transforma em fontes diretas de calor.

Evidentemente, não se sugere que o PNUD devesse promover entre os indígenas o uso de tal tecnologia de ponta, cujo alto custo ainda não a tornou de uso corrente. Mas, premiar uma tecnologia pré-histórica, que remonta à época em que a lenha e o esterco eram as principais fontes energéticas conhecidas da humanidade, simboliza, uma vez mais, a questionável concepção ideológica de que os povos indígenas devem permanecer “congelados” em seu estado de desenvolvimento primitivo, sem aspirar à sua integração à sociedade civilizada.

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