Parlamento Europeu “esfria” mercado de carbono

O Parlamento Europeu pode ter desfechado o golpe final no já cambaleante mercado europeu de créditos de carbono, o Emissions Trade Scheme (ETS, na sigla em inglês). No último dia 16 de abril, os europarlamentares votaram contra um projeto voltado a elevar, artificialmente, o preço das permissões de emissão de carbono. Com tal desenvolvimento, considerado por muitos como “inesperado”, diversos especialistas do setor de renováveis já apostam no colapso do mercado de carbono do mundo na atualidade.

O ETS é um mecanismo criado em 2008 pela Comissão Européia, braço executivo da União Européia, no âmbito da política de transição para a “economia verde” do bloco, que impôs um teto de emissões às companhias de geração de energia, indústrias e outras, obrigando-os a compensar as emissões acima desse limite por meio da compra de títulos de emissões no mercado de carbono. Entretanto, devido à crise econômica e financeira que castiga o continente desde 2008, a demanda por tais títulos têm sofrido quedas recordes, levando o ETS à beira do colapso.

Diante da situação, a Comissão Europeia propôs ao Parlamento do bloco um plano de retirada do equivalente a 900 milhões de toneladas de carbono em títulos de emissões, durante cinco anos, quando se espera que a demanda por tais “derivativos de fumaça” esteja mais alta. Tal proposta foi chamada de “backloading” (algo como “protelar”, em tradução livre), e visava valorizar os títulos de emissões por meio de uma redução forçada da oferta (The Economist, 16/04/2013).

Entretanto, a proposta foi rejeitada em uma votação apertada, mas incontestável: 334 votos contra e 315 a favor. O efeito da votação foi devastador para o já combalido ETS, com as cotações da tonelada de dióxido de carbono (CO2), que já foi de quase 30 euros em 2008, despencou para quase 2,55 euros no dia 16 (era de 3,2 euros, na véspera da votação) (The Wall Street Journal, 16/04/2013).

O ministro da Economia e Tecnologia da Alemanha, Phillip Rösler, comemorou o resultado, qualificando-o como um “excelente sinal” para a continuidade da recuperação econômica da Europa. No mesmo tom, o ministro do Meio Ambiente da Polônia, Marcin Korolec, declarou que o resultado “foi um voto da razão”. A Polônia é notória opositora de novas medidas para taxar as emissões de CO2 no bloco europeu, em vista de a sua matriz energética ser fortemente dependente do carvão. E o Comitê de Meio Ambiente do Parlamento Europeu declarou, após a rejeição do plano de salvar o mercado de carbono, que “uma alta no preço do carbono iria comprometer a competitividade da indústria europeia, e seria repassada às tarifas de energia das famílias”.

Previsivelmente, os eurocratas da Comissão Europeia reagiram negativamente, afirmando que esta foi uma ação “retrógrada” por parte do Parlamento. Já o diretor de política climática para a União Europeia do Greenpeace, Joris den Blanken, lamentou que, sem um acordo para conter a superoferta de títulos de emissões no ETS, tal programa de comércio de emissões não conseguirá “dissuadir os poluidores, e nem promover investimentos em modos de produção mais limpos”.

Os “investidores” do mercado de carbono estão, igualmente, preocupados. Para o analista Kash Burchett, da consultora inglesa HIS Energy, sem o “backloading”, “o ETS irá, quase certamente, colapsar. Os preços logo cairão para menos de €1 por tonelada, na medida em que os participantes reconheçam que não há vontade política na atualidade para restaurar o mecanismo de mercado, colocando-o em uma ordem funcional”.

AIE aponta estagnação das energias “limpas”

Para esfriar ainda mais o cenário promovido pela “indústria aquecimentista”, um novo estudo produzido pela Agência Internacional de Energia (AIE) afirma que os investimentos em fontes “livres de carbono”, basicamente, estagnaram. “A despeito das diversas negociações entre líderes mundiais… e a despeito do boom das fontes renováveis na última década, a maior parte da energia usada hoje é basicamente tão suja quanto há 20 anos atrás”, lamentou a diretora-executiva da agência, Maria van der Hoeven.

Segundo a Agência, a principal razão de tal pequena redução de tal fenômeno é o ressurgimento do carvão, que continua se expandindo na atualidade. Em âmbito global, a geração de eletricidade por meio de termelétricas a carvão aumentou em 6%, no período 2006-2012 – um crescimento maior do que o observado entre as fontes “limpas”. A maior parte deste aumento foi registrada nos países em desenvolvimento, em especial na China, que foi responsável por 46% da demanda global de carvão em 2011. Mas a Europa também deu uma contribuição importante para tais números: a região que gosta de se declarar como a mais “verde” do mundo, também tem ampliado o emprego do carvão na geração de energia, em razão da queda dos preços desta opção energética.

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