Para quem aprecia potenciais emergências globais (sérias)

Duas notícias que receberam escassa divulgação na mídia mundial denotam os efeitos da equivocada percepção que tem orientado a seleção dos temas dignos de serem tratados como potenciais emergências globais, cujo enfrentamento efetivo exige ativos esforços cooperativos em escala internacional. O contraste não poderia ser maior, por exemplo, entre a politização dos fenômenos climáticos e os vastos recursos humanos e financeiros que têm sido desperdiçados para “combater” a imaginária ameaça do aquecimento global antropogênico, e a escassa atenção concedida a ameaças bem mais sérias e com potencial para provocar impactos de magnitude comparável aos de filmes-catástrofe hollywoodianos.

Na semana passada, a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) anunciou que, no dia 15 de fevereiro de 2013, o asteróide 2012 DA14 deverá passar pela Terra, a uma distância estimada em 27 mil quilômetros. A distância, quase insignificante em termos astronômicos, é inferior à altura das órbitas dos satélites geoestacionários dos sistemas de comunicações, o que, considerando-se a possibilidade de fatores como pequenas imprecisões de cálculo ou perturbações mínimas na trajetória do bólido, poderia implicar em uma probabilidade não desprezível da sua captura pela gravidade da Terra e um eventual choque com o planeta.

O asteróide, descoberto em fevereiro por astrônomos espanhóis, tem um diâmetro estimado em torno de 45-60 metros e, caso se choque com a Terra, poderá acarretar um impacto de magnitude semelhante ao do corpo celeste que caiu sobre a Tunguska, uma remota região da Sibéria, em junho de 1908. O impacto da explosão, considerado equivalente ao de uma bomba de hidrogênio de 10-15 megatons, devastou uma área de 2.200 quilômetros quadrados de floresta, embora sem causar vítimas humanas, por se tratar de uma região desabitada. Porém, se o objeto tivesse caído 4 horas e 47 minutos depois, teria obliterado a então capital russa, São Petersburgo.

Inicialmente, apenas a mídia russa deu destaque ao anúncio da NASA. O sítio Russia Today (5/03/2012) ouviu o especialista da agência, Dr. David Dunham, que confirmou a possibilidade de um choque com a Terra, mas que as probabilidades precisarão ser melhor avaliadas: “O campo gravitacional da Terra irá alterar significativamente a trajetória do asteróide. Serão necessários cálculos mais detalhados adicionais, para se estimar a ameaça de colisão. O asteróide pode se romper em dúzias de pedaços menores ou grandes partes podem se destacar dele e queimar na atmosfera. O tipo de asteróide e sua estrutura mineral podem ser determinados por análise espectral. Isto ajudará a prever o seu comportamento na atmosfera e o que deveria ser feito para evitar a ameaça potencial.”

Embora ninguém perca o sono por conta da possibilidade de tais trombadas cósmicas (como muitos têm perdido por uma alta nos termômetros inferior a um grau centígrado), as suas probabilidades de ocorrência deveriam ser suficientes para assegurar um lugar na agenda política global. Em 1989, o asteróide 4581 Asclepius, com cerca de 300 metros de diâmetro, passou a 700 mil quilômetros da Terra – exatamente no ponto da órbita em que o planeta se encontrava seis horas antes. Em 2004, o 2004 FH, de 30 metros, passou a menos de 43 mil quilômetros – mas apenas foi descoberto no mesmo dia.

No entanto, ao contrário das centenas de bilhões de dólares que têm sido gastos anualmente na busca de “soluções” para o aquecimento global, das incontáveis conferências e reuniões internacionais e do desperdício dos talentos de milhares de cientistas, engenheiros e outros profissionais qualificados, a busca e o mapeamento dos chamados Objetos Próximos à Terra (Near Earth Objects-NEO, em inglês) recebem uma atenção incomparavelmente menor. O orçamento atual do Programa NEO da NASA é de 6 milhões de dólares anuais, tendo sido prometida uma elevação para 20 milhões, no orçamento fiscal de 2012. O Spaceguard Centre, única instituição britânica dedicada à tarefa, é uma entidade privada dirigida por um astrônomo amador que vive de seu soldo de oficial da reserva do Exército.

Um reforço considerável ao esquema de vigilância dos NEOs virá do Grande Telescópio de Levantamento Sinóptico (LSST), que deverá entrar em funcionamento em 2015. Situado em Cerro Pachón, no Norte do Chile, o instrumento permitirá fotografar toda a abóbada celeste ao seu alcance a cada três dias. Entretanto, para superar as suas limitações de alcance, a NASA propôs, em 2007, a construção e colocação em órbita solar de um telescópio de infravermelho, que poderia detectar as ameaças à Terra e determinar as suas massas com uma precisão de até 20% – a um custo de 500 milhões de dólares, o que tende a dificultar sobremaneira que o projeto saia do papel (Scientific American Brasil, edição especial de fevereiro de 2012).

Ademais, além da detecção antecipada, um sistema de proteção do planeta necessitaria de uma resposta ativa às ameaças, que proporcionasse meios de atingir o objeto antes da sua aproximação final e destruí-lo ou desviá-lo da órbita terrestre. Embora tais capacidades não estejam disponíveis, atualmente, elas poderiam ser adquiridas dentro das próximas duas décadas, se houvesse um programa de cooperação internacional com esse objetivo.

Em 2007, o Painel Consultivo da Missão para Objetos Próximos da Terra da Agência Espacial Europeia (ESA) apresentou um estudo para uma missão espacial com o objetivo de lançar um projétil de 400 kg contra um asteróide, para a observação dos resultados. O projeto, que custaria 400 milhões de dólares, foi devidamente engavetado, por falta de recursos (Scientific American Brasil, fev. 2012).

A segunda notícia relevante, divulgada na quarta-feira 7 de março, foi a ocorrência de duas violentas explosões solares que, nos dois dias seguintes, envolveram a Terra na mais violenta tempestade geomagnética dos últimos cinco anos. Além de belíssimos espetáculos celestes, como auroras boreais, nas regiões mais ao Norte, tais fenômenos costumam afetar – não raro, seriamente – o funcionamento de redes de transmissão de eletricidade, transmissões de rádio, satélites e sistemas de posicionamento global (GPS). Por precaução, algumas empresas aéreas mudaram as rotas dos seus habituais voos pelas regiões polares (AFP, 7/03/2012).

A tempestade é “a mais forte desde dezembro de 2006”, disse o especialista Joseph Kunches, da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) estadunidense.

A NASA anunciou que está atenta aos possíveis impactos do fenômeno sobre os seis astronautas que se encontram na Estação Espacial Internacional, para que, se necessário, procurem abrigo nas partes mais protegidas do complexo espacial.

Grandes tempestades solares, também, não constituem fenômenos raros. A mais forte já registrada ocorreu em 1859, provocando o surgimento de auroras boreais em latitudes tão baixas como o Caribe e afetando seriamente o funcionamento das redes telegráficas durante todo um dia – à época, a única forma de utilização generalizada de eletricidade. Cientistas estimam que, se outra igual ocorresse hoje, poderia acarretar gravíssimos problemas para as grandes redes de transmissão interligadas, queimando transformadores primários e deixando vastas regiões sem eletricidade, durante dias, semanas ou até meses.

Em 1989, uma tempestade bem mais fraca provocou um blecaute de 16 horas na província canadense de Quebec.

Apesar de serem relativamente mais fáceis de se detectar que os NEOs, por meio de vários satélites especializados, para se mitigarem ou neutralizarem os potenciais efeitos negativos de grandes tempestades solares (por exemplo, desligar algumas redes elétricas principais), seria preciso um sistema de alerta que transmitisse as informações captadas pelos satélites e as avaliações imediatas dos operadores do sistema às autoridades de países, regiões e até continentes inteiros. Sem falar nos planos de contingência necessários para evitar que setores vitais de infraestrutura e serviços essenciais, como hospitais, serviços de segurança e outros, ficassem sem energia durante a emergência.

Para tudo isso, seria necessário um nível de comprometimento e cooperação internacional que não está à vista (outra vez, ao contrário do que ocorre com as questões climáticas).

Desafortunadamente, para que tal quadro mude, talvez, seja preciso confrontar algum desses desastres, fora das telas de cinema.

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