“Papeis do Panamá”: o intrigante passado de Herr Mossack

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O escândalo dos “Papeis do Panamá”, que ainda tem muito por revelar, abre uma janela para as origens da estrutura de operações de inteligência e financeiras clandestinas montada por vencedores e vencidos da II Guerra Mundial, a partir do entendimento entre representantes da oligarquia anglo-americana e da cúpula nazista, cuja influência nos assuntos internacionais persiste até os dias atuais. Além disso, permite um vislumbre de entendimento da promiscuidade prevalecente entre serviços de inteligência, o crime organizado e os paraísos fiscais, como se viu, na década de 1980, com o caso Irã-Contras.

A pista é fornecida por um dos sócios fundadores da empresa Mossack Fonseca, o alemão Jürgen Rolf Dieter Mossack. Nascido em 1948, ele vive no Panamá desde o início da década de 1960, tendo criado a Mossack Fonseca em 1986, em associação com o advogado e escritor panamenho Ramón Fonseca Mora (que até o mês passado era presidente do governista Partido Panameñista, tendo se licenciado devido à exposição da empresa na Operação Lava Jato, antes mesmo da eclosão dos “Papeis”).

Porém, o personagem interessante é o seu pai, Erhard Günther Mossack, nascido em 1924 e integrante das tropas de elite nazistas Waffen-SS durante a guerra. Capturado por tropas estadunidenses, na Baviera, em março de 1945, alegadamente, ele tinha em seu poder uma lista de nomes de integrantes das unidades clandestinas Werwolf (Lobisomem, em alemão), criadas pelo líder da SS, Heinrich Himmler, com o objetivo de atuar como uma guerrilha contra as forças de ocupação da Alemanha. Com ela, Ehrard, provavelmente, integrante do grupo, parece ter aberto caminho junto à inteligência militar estadunidense, a ponto de, já em 1946, ter podido retornar às atividades civis sem ser incomodado, trabalhando como jornalista e se casando com Luisa Herzog, a futura mãe de Jürgen (El Mundo, 10/04/2016).

De fato, o serviço de inteligência exterior alemão BND confirma a existência de documentos sobre ele, mas diz que não os desclassificará, “porque poderiam prejudicar a República Federal da Alemanha ou alguns dos seus estados federados”.

Ocorre que, com a Guerra Fria já em cena, os “Lobisomens” não chegaram a criar problemas para as forças aliadas, pelo simples motivo de que muitos dos seus integrantes foram, pouco tempo após o fim da guerra, incorporados às redes clandestinas (chamadas stay-behind) criadas pelos serviços de inteligência estadunidense e britânico, em vários países europeus, para agir em ações de retaguarda no caso de uma eventual invasão da Europa Ocidental por tropas soviéticas.

Antes mesmo do final do conflito mundial, a inteligência estadunidense, sob a liderança de Allen Dulles, chefe do Gabinete de Serviços Estratégicos (OSS) em Berna e, depois, em Berlim, estabeleceu um acordo com altos círculos da liderança nazista, pelo qual numerosos membros da cúpula política e consideráveis recursos econômicos e financeiros alemães receberiam passe livre para se transferir para outros países, inclusive, com parte do butim amealhado nos países ocupados pelos nazistas. Não menos importante foi a transferência da estrutura de inteligência militar especializada sobre a União Soviética, a seção Fremde Heere Ost (FHO) da Abwehr, comandada pelo general Reinhard Gehlen, para o controle da inteligência estadunidense, a qual passou a ser conhecida como Organização Gehlen, depois convertida no BND (Bundesnachrichtendienst). Por conta desse “vício de origem”, até hoje o BND sofre uma forte influência da inteligência dos EUA.

Tais acordos foram o embrião da estratégia com a qual aqueles círculos oligárquicos, centrados nos interesses financeiros de Wall Street, planejaram o estabelecimento de uma autêntica estrutura de “governo mundial” no pós-guerra, utilizando o cenário da Guerra Fria como biombo. Entre os mentores do plano, destacaram-se Dulles, o futuro diretor mais longevo chefe da Agência Central de Inteligência (CIA), seu irmão, o futuro secretário de Estado Foster Dulles, o chefe do OSS, William Donovan, o futuro chefe do Gabinete de Coordenação Política (OPC, depois vinculado à CIA), Frank Wisner, e o empresário canadense William Stephenson, cognominado “Intrépido”, que chefiou o serviço de inteligência britânico nos EUA durante a guerra. Nas duas décadas seguintes, estes homens viriam a desempenhar papeis cruciais nos acontecimentos que marcaram a condução da política dos EUA durante a primeira metade da Guerra Fria, com desdobramentos que se mantêm até os dias de hoje, em especial, no que tange às redes financeiras.

Quanto às redes stay-behind às quais os “Lobisomens” de Ehrard Mossack se integraram, elas foram incorporadas à estrutura da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), esquema que viria a ser conhecido como Operação Gládio. E, como costuma ocorrer em casos do gênero, a função original para a qual foi planejado foi logo suplantada pela sua utilização em toda sorte de operações clandestinas, inclusive assassinatos e atentados políticos, com o objetivo de criar uma “estratégia de tensão” nos países alvo, visando aterrorizar as populações civis e impedir qualquer participação de partidos e políticos pró-socialistas nos governos europeus ocidentais, ou, simplesmente, promover “mudanças de regime” contra governos considerados menos inclinados aos propósitos hegemônicos dos seus mentores.

A lista das suas ações é extensa. Entre elas, destacam-se: atentados como o da estação ferroviária de Bologna (1980), que matou 85 pessoas e feriu mais de 200; várias tentativas de assassinato contra o presidente francês Charles de Gaulle; os assassinatos do premier italiano Aldo Moro (1978, perpetrado pelas Brigadas Vermelhas, infiltradas pelos “gladiadores”), do português Francisco Sá Carneiro (1980) e de outros líderes políticos europeus e turcos; desestabilizações dos governos de Adnam Menderes (Turquia, 1960), Georgius Papandreou (Grécia, 1967) e Harold Wilson (Reino Unido, 1976); e uma pletora de outras.

De forma quase inevitável, os “gladiadores” da OTAN logo se envolveram com as redes internacionais de crime organizado, em especial, do tráfico de heroína e outras drogas, que, desde o início, tem sido uma importante fonte de receita para as operações clandestinas daqueles centros de poder. Não por acaso, os rendimentos do narcotráfico representarem, hoje, um dos pilares centrais de sustentação do sistema financeiro “globalizado”, ao lado de outras receitas ilícitas (motivo pelo qual a atual “guerra às drogas” se assemelha ao enxugamento de gelo).

Na década de 1980, uma ponta desse aparato clandestino veio à luz com o caso Irã-Contras, uma complexa trama envolvendo a venda de armamentos estadunidenses ao Irã dos aiatolás (com o qual Washington estava rompido), a entrega de armas aos rebeldes Contras nicaraguenses que lutavam contra o regime sandinista, em operações casadas com a introdução de cocaína colombiana nos EUA, da qual resultou a epidemia de crack. Tudo, evidentemente, apoiado pela sofisticada rede financeira já existente.

Foi nesse contexto que, em 1960, Mossack se transferiu para o Panamá com sua família, onde, oficialmente, trabalhou para a empresa aérea Lufthansa e, segundo vários relatos, para a CIA. Embora não haja muitas informações a respeito de suas atividades ali, o fato é que foram suficientemente bem sucedidas para proporcionar ao filho Jürgen uma educação de primeira classe, na Universidade Católica Santa Maria a Antiga e na London School of Economics, para onde foi estudar as finanças globais. Ao retornar de Londres, em 1977, antes de completar 30 anos, abriu seu escritório jurídico, Jürgen Mossack Lawfirm, que, nove anos depois, se converteria na Mossack Fonseca. Uma trajetória e tanto, no mundo extremamente complexo, seletivo e perigoso da alta finança clandestina global, no qual não lugar para amadores ou meros aventureiros. Quanto ao velho Mossack, no final da década de 1970, ele retornou à Alemanha, para, segundo relatos, desfrutar de uma aposentadoria das mais confortáveis.

Apesar de faltarem muitas peças no quebra-cabeças, os “Papeis” podem lançar um pouco de luz sobre essa colossal estrutura de finanças clandestinas do pós-guerra, cujo funcionamento semiautônomo e impermeável ao controle e à supervisão dos governos nacionais representa, de longe, o maior obstáculo para a imprescindível reestruturação do sistema financeiro internacional e a sua recolocação ao serviço do pleno desenvolvimento da economia mundial.

Cabe perguntar por que uma parte do Establishment oligárquico anglo-americano tomou a decisão de expor as redes da Mossack Fonseca (evidenciada pela constatação de que, por trás do financiamento da rede de jornalistas que deu a conhecer os “Papeis do Panamá” se encontra a crème de la crème das fundações oligárquicas, sobretudo a Open Society do megaespeculador Geoge Soros, periscópio dos interesses submersos da poderosa e discreta família Rothschild). O fato é que nem a condição do Panamá como paraíso fiscal, nem a Mossack Fonseca e sua rede de implicados, representam peças insubstituíveis da engrenagem financeira “globalizada”. Apesar dos problemas criados para o premier britânico David Cameron (talvez, propositalmente), os nomes revelados até agora constituem apenas o “baixo clero” das redes de paraísos fiscais, possivelmente, oferecido como boi de piranha para viabilizar um remanejamento de fluxos financeiros nos “Master Centers”, num momento em que o sistema financeiro internacional está a ponto de enfrentar outra onda de insolvências e iliquidez.

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