Os "filhos das bombas" e o "choque de civilizações"

Quando, na década de 1990, o professor Samuel Huntington lançou a sua tese do “choque de civilizações”, era apenas uma elaboração teórica de uma estratégia para substituir a confrontação ideológica da Guerra Fria por um conflito de longo prazo e caráter religioso, étnico e sectário. Ao longo de duas décadas e, especialmente, após os ataques de 11 de setembro de 2001, o Establishment anglo-americano garantiu as condições para o surgimento de tais tipos de conflito, como se pode contemplar com a irrupção do tenebroso Estado Islâmico do Iraque e do Levante, renomeado Estado Islâmico (EI, ex-ISIL). Em um sentido literal, pode-se afirmar que o EI-ISIL é constituído pelos “filhos das bombas” lançadas sobre um número crescente de populações muçulmanas pelas Forças Armadas dos EUA, em sua cruzada “contra o terror”. As invasões do Afeganistão e do Iraque tiveram o efeito de destruir quaisquer vestígios de Estados seculares e abriram as portas ao radicalismo sectário, que, em paralelo, colocou em risco as comunidades das minorias religiosas, principalmente, as cristãs, que se alinhavam entre as mais antigas do mundo.

Agora, ações militares limitadas contra o EI não contribuirão em nada para reverter o ódio entre a população islâmica perturbada pela violência, que a leva a confundir o agressivo militarismo anglo-americano (e, eventualmente, francês) com um marco distintivo da civilização cristã ocidental.

A violência na grande região do Oriente Médio não poderá ser superada por meios militares – muito ao contrário, empregados isoladamente, estes apenas a agravam. Tais medidas tendem, apenas, a aprofundar as condições caóticas que estão ensejando uma redefinição do mapa político da região e, possivelmente, a escalar o conflito a proporções apocalípticas.

Por outro lado, a decisão de desfechar ataques aéreos contra forças do EI, sob o pretexto de romper o cerco dos terroristas islamistas aos fugitivos da minoria religiosa yazidi, demonstra a presteza com que os círculos mais belicistas de Washington aproveitam as oportunidades criadas pelos desdobramentos da sua agenda hegemônica, ainda que não tenham planejado cada aspecto dela.

O anúncio dos ataques, apressadamente feito pelo presidente Barack Obama, na noite de 7 de agosto, dispensou qualquer consulta ao Congresso, que, em tese, necessita autorizar o emprego da força militar – como se viu em agosto de 2013, quando Obama recuou da intenção de ordenar um ataque à Síria sem o aval do Capitólio.

Não obstante, na véspera, em uma demonstração do modus operandi das forças relevantes na capital estadunidense, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um dos mais prestigiosos think-tanks do Establishment, publicou em seu sítio um longo artigo de Anthony H. Cordesman, com o sugestivo título “Iraque: hora de agir”, oferecendo uma detalhada pauta de ações para lidar com o EI, inclusive, ações militares “limitadas”. “Existem momentos – embora o presidente Obama pareça ter problemas em entender este ponto – que não favorecem aos que ficam esperando parados”, fustigou ele.

No ainda mais influente Conselho de Relações Exteriores (CFR) de Nova York, o presidente Richard Haass não apenas apoia os ataques, como diz que eles deveriam prosseguir: “Os EUA deveriam efetuar ataques sustentados contra o ISIL, tanto no Iraque como na Síria. A fronteira é irrelevante (sic); o que é essencial é que o ISIL seja retardado e enfraquecido (CFR, 12/08/2014).”

A seletividade da intervenção estadunidense foi criticada pelo patriarca caldeu de Babilônia, Louis Raphael I Sako, que considerou “desconcertante” a decisão de defender apenas o território curdo do ataque do EI, deixando de lado Mosul e outras áreas conquistadas pelo grupo. Da mesma forma, ele lamentou as disputas políticas no governo iraquiano: “Enquanto o país está sob ataque, os políticos continuam lutando para conquistar o poder (Zenit.org, 12/08/2014).”

O EI é mais um rebento bastardo da agenda hegemônica de Washington e Londres, cujo objetivo mais amplo parece ser o de manter toda a grande região do Oriente Médio em um estado de convulsões permanentes, no contexto da estratégia do “choque de civilizações”.

Na criação do EI, o eixo anglo-americano contou com a colaboração direta dos seus aliados na região, como a Turquia, Arábia Saudita e Catar, mas, agora, até mesmo estes últimos começam a perceber que ajudaram a parir um monstro incontrolável. Por isso, em algum momento, uma dose de realismo terá que se impor para um esforço voltado para a sua neutralização, empenho que exigirá, entre outros itens, o abandono de qualquer pretensão hegemônica externa à região e um entendimento político inusitado entre governos e organizações com agendas diversas e, com frequência, conflitantes. Para tanto, será imprescindível a garantia da estabilidade dos governos da Síria e do Irã, cujas forças militares são as únicas em condições de oferecer uma oposição armada efetiva às hordas do EI, em cooperação com o grupo libanês Hisbolá e a milícia curda Peshmerga. E o governo da Turquia teria que prover um requisito básico, fechando as fronteiras do país à circulação de militantes dos grupos opositores do regime de Damasco.

Ou seja, a saída não virá com a persistência da visão do mundo “excepcionalista” favorecida pelas elites hegemônicas anglo-americanas, baseada num fundamentalismo religioso calvinista de predeterminação divina – cujos vínculos com o cristianismo são apenas nominais -, e que somente pode ser neutralizada com um autêntico diálogo de civilizações baseado na concórdia e no perdão – princípio consolidado no histórico Tratado de Westfalia de 1648, que encerrou a sangrenta Guerra dos 30 Anos.

Hoje, tal cenário se assemelha a um wishful thinking, mas é possível que, nas próximas semanas e meses, as atrocidades cometidas pelos fanáticos do EI se acumulem ao ponto de sensibilizar as opiniões públicas e os governos das capitais relevantes, para um entendimento que, eventualmente, o viabilize.

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