Os BRICS e uma ordem mundial diferente

Qualquer análise minimamente realista do presente cenário global aponta para o esgotamento do modelo de organização dos assuntos mundiais consolidado em torno da hegemonia econômico-financeira e político-militar do eixo Washington-Nova York-Londres e seus apêndices europeus e israelenses. Definitivamente, as aspirações e necessidades do mundo crescentemente complexo, interdependente e interligado do século XXI se mostram incompatíveis com a subordinação das economias nacionais a um sistema financeiro essencialmente privatizado, desregulamentado e convertido num fim em si próprio, além da submissão da agenda das relações internacionais às diretrizes emanadas daqueles centros de poder, com frequência, impostas direta ou indiretamente pelo poder militar. Uma consequência dessas transformações em curso é a emergência dos BRICS, como um vetor com enorme potencial de contribuição para a construção de uma ordem mundial diferente, como se viu na quarta cúpula do grupo, em Nova Délhi, na semana passada.

De fato, o mundo atravessa um momento de inflexão histórica, análogo ao apresentado ao final da II Guerra Mundial, quando as perspectivas para a reconstrução mundial do pós-guerra haviam sido claramente explicitadas pelo presidente estadunidense Franklin D. Roosevelt, sintetizadas em seu célebre conceito das “quatro liberdades” fundamentais, que deveriam ser desfrutadas pelos povos de todo o mundo: de expressão, de culto, das vicissitudes da penúria e do medo. Tal orientação esteve no cerne da sua aliança estratégica com o premier britânico Winston Churchill, a quem reiterou em várias ocasiões que os EUA não entrariam em um novo conflito para preservar os impérios coloniais europeus. Desafortunadamente, a sua morte prematura, em abril de 1945, abriu caminho para os descaminhos da Guerra Fria, a qual, a despeito dos enormes benefícios proporcionados pela relativa estabilidade da ordem econômica estabelecida em Bretton Woods, assistiu, também, à consolidação do sistema financeiro e do complexo industrial-militar como centros de poder político, em especial, a partir da década de 1970, processo que conduziu ao presente impasse civilizatório.

O surgimento dos BRICS, como um bloco relativamente articulado em torno de certas questões estratégicas, é uma importante novidade nesse quadro de deterioração do sistema mundial, no qual um fator de grande relevância é uma percepção cada vez mais disseminada sobre o crescente déficit de justiça socioeconômica ensejado pelo status quo, que está na raiz da grande maioria das convulsões que têm abalado o planeta. Evidentemente, esta perspectiva se contrapõe à intenção do Establishment dominante de preservar os seus “privilégios percebidos” e, apesar do caráter não-confrontacional do grupo, a sua mera existência representa uma ameaça àqueles centros de poder, como se percebe pelas reações azedas e depreciativas divulgadas pela mídia anglo-americana.

Reações que foram oportunamente registradas pelo vice-presidente de Relações Institucionais da Embraer, Jackson Schneider, em entrevista ao jornal The Times of India (1/04/2012): “O BRICS não é uma ideia. Já é uma realidade. O equilíbrio da ordem global existente está mudando. Se o BRICS não tivesse força, por que o New York Times estaria gastando tanta tinta e tempo conosco?”

Nos dias anteriores e seguintes à cúpula de Nova Délhi, o jornal de Nova York foi um dos muitos órgãos vinculados ao Establishment anglo-americano que publicou uma vasta coleção de artigos e editoriais sobre o grupo, a grande maioria, depreciativos, embora alguns denotassem uma certa cautela quanto às suas perspectivas e potenciais. Uma apreciação típica foi a do colunista econômico do Daily Telegraph londrino, Jeremy Warner, na edição de 29 de março:

(…) Eu tenho acompanhado essas reuniões das nações do BRICS em ação, e o que tenho a dizer é que elas não são, de modo algum, impressionantes. Há muito pouco sentido de propósito e identidade comum. Na verdade, eles fazem a União Europeia parecer um paradigma de calma e harmonia. De dia, eles falam alto sobre ações multilaterais para reorientar o campo de jogo em favor das nações mais pobres, enquanto, à noite, tramam vergonhosamente uns contra os outros, frequentemente, em conjunto com os seus supostos opressores econômicos no Ocidente. Não há virtualmente nada que os une, além do ressentimento e suspeição do monopólio ocidental, em parte, justificados, em parte, não. Eu lhes desejo boa sorte com o seu novo banco de desenvolvimento, mas quando se trata de onde será construída a próxima represa, e quem irá construí-la, é aí que sairão as faíscas.

Seguindo a linha de muitos analistas, inclusive, nos próprios BRICS, que se apegam à parte em detrimento do todo, o que Warner reflete é uma certa perplexidade e incapacidade de enxergar uma ordem global que não seja subordinada pelos interesses representados, predominantemente, na City de Londres, Wall Street e no Pentágono.

Na contracorrente, um comentarista que avaliou corretamente a situação foi o arguto Fyodor Lukyanov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e colunista da agência Novosti. Em sua coluna de 29 de março, depois de descrever as enormes diferenças entre os membros do grupo, ele foi ao cerne da questão:

Os BRICS estão sendo reunidos e movidos para a frente, não tanto pelos requisitos dos seus países membros, mas pela situação geral no mundo. As mudanças são rápidas e imprevisíveis, e as receitas para a resolução dos assuntos internacionais oferecidas pelos líderes usuais (o Ocidente), ou não funcionam, ou produzem o efeito oposto. Há uma demanda por soluções alternativas, embora, no momento, nenhum Estado individual que esteja desempenhando um grande papel regional (e os países dos BRICS entram nesta categoria) tem a oportunidade (ou o desejo) de oferecer uma visão global abrangente.

Igualmente, Lukyanov chama a atenção para um fator que deverá ter uma grande relevância para que o bloco possa desempenhar esse papel, o retorno de Vladimir Putin à presidência da Federação Russa:

(…) O futuro presidente russo vê o fator unificador no fato de que todos os países do BRICS, não apenas têm visões similares sobre a necessidade de uma nova ordem mundial multipolar, mas, mais importante ainda, compartilham o mesmo valor básico – a soberania nacional como elemento estrutural fundamental do sistema mundial. Este conceito é uma alternativa ao enfoque ocidental, que se baseia na premissa de que, hoje, a soberania não é mais sagrada e imutável como era no passado.

Não é casual que Putin tenha se mostrado ser o estadista mundial mais afinado com os princípios e ensinamentos de Roosevelt, cuja agenda já mencionou em várias oportunidades como um guia para a superação da presente crise global, por exemplo, no seminário “As lições do New Deal para a Rússia e o mundo de hoje”, realizado em Moscou, em fevereiro de 2007, por ocasião do 125o. aniversário de nascimento do presidente estadunidense – ignorado em seu próprio país.

Quanto à cúpula, embora muita ênfase tenha sido dada à discussão sobre um “Banco dos BRICS”, que rivalizaria com o Banco Mundial como banco de desenvolvimento, é de grande relevância que a proposta se mantenha de pé e deverá ser objeto de aprofundamento de estudos pelos países membros. Evidentemente, não se cria uma instituição do gênero da noite para o dia, principalmente, uma com o potencial impacto político e econômico que teria uma instituição de fomento com recursos pelo menos na mesma magnitude do Banco Mundial e fora do controle dos centros financeiros ocidentais. Se Brasília, Moscou, Délhi, Pequim e Pretória mantiverem o “gostinho” do protagonismo conjunto que parecem estar sentido, o banco poderá ser apenas uma de uma série de novidades positivas para um cenário global que está carente delas.

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