"Obscurantismo sustentável"

Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz dia, e às trevas noite. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia (Gênesis 1:3-5).

Desde há tempos que se sabe que os primeiros postulados da lei natural, simbolizados na abertura do Velho Testamento, sempre incomodaram os ambientalistas radicais, que veem neles a raiz da visão do mundo judaico-cristã, que responsabilizam pela “pretensão” da humanidade de dominar a natureza. Porém, alguns deles parecem ter se superado, criando um novo conceito de impacto ambiental, a “poluição luminosa”.

O termo é empregado com referência à quantidade de luz gerada pelos sistemas de iluminação pública e comercial nas grandes cidades. Uma manifestação desta ideia esdrúxula apareceu no artigo do jornalista científico Júlio Ottoboni, publicada no site Envolverde, no qual o autor afirma que as imagens da Terra à noite demonstram que “a poluição luminosa tem avançado de maneira alarmante no eixo Rio-São Paulo”. Este trecho, segundo ele, é o que concentra a maior densidade de luz dispersa ao espaço no Hemisfério Sul, afetando animais e plantas com supostas alterações metabólicas profundas (Envolverde, 23/09/2014).

Ottoboni observa que o homem evoluiu historicamente fazendo um uso importante da observação das estrelas, impulsionando assim o conhecimento de física, matemática, filosofia e outras áreas. Porém, lamenta, este hábito começou a perder força com o advento da iluminação pública, no século 19, quando também teve início a poluição luminosa.

Ele reconhece que o eixo Rio-São Paulo é o de maior desenvolvimento econômico, científico e tecnológico da América Latina, o que justifica ser a região com a eletrificação mais intensa. No entanto, para ele, a maior intensidade da luminosidade representa um “agente poluente”, que, supostamente, causaria enfermidades, como distúrbios do sono e do sistema nervoso, inclusive depressão.

Na mesma direção, a engenheira ambiental Carolina Cassiano Ferreira, da ONG Corredor Ecológico Vale do Paraíba, também qualificou a luminosidade das grandes cidades como poluição: “Esse tipo de poluição interfere diretamente nos ecossistemas terrestres e marinhos, com a luz intermitente variando entre a do Sol e a artificial não há a reparação gerada pelo repouso. Isso afeta todos animais, plantas e o homem. Na flora sob fotossíntese permanente há um empobrecimento da carga genética e na capacidade reprodutiva da planta, além de enfraquecer e alterar seu metabolismo.”

Segundo ela, “não temos dúvidas que estamos acelerando a extinção de espécies, principalmente as endêmicas sob efeito da poluição”.

Ottoboni afirma que, desde os anos 1970, os cientistas têm debatido a questão da “poluição lumínica”, estimando que de 30% a 40% da iluminação pública mundial seja desperdiçada – no Brasil, o desperdício é estimado entre 30% a 60% da luz emitida. Uma das propostas para combater a tal “problema” é a promoção do emprego de novas tecnologias na iluminação pública, como os spots de LED de alto desempenho e baixo consumo de energia desenvolvidos e comercializados pela companhia alemã Osram (obviamente, muito mais caros que os postes convencionais).

Segundo o gerente de Vendas de Infraestrutura e Cidades da Osram, Eduardo Soares, “é preciso maior atuação dos órgãos responsáveis pela iluminação de ruas e estradas, que devem buscar maior eficiência em suas instalações. Há estimativas de que a troca de postes antigos por outros mais eficientes e com iluminação melhor direcionada pode representar até 40% de economia de energia a algumas cidades”.

Os ambientalistas também alegam que a iluminação pública “em excesso” provoca doenças do sono, e que pesquisas nos EUA já teriam demonstrado que quem trabalha em turnos invertidos têm maior propensão ao desenvolvimento de câncer de mama. Ottoboni destacou que a falta de sono está associada ao desenvolvimento de depressão, e de outras doenças neurológicas – sem, contudo, demonstrar qual relação tais problemas têm com a suposta “poluição lumínica” do eixo Rio-São Paulo.

Por sua vez, Soares observou também que, ao contrário do senso comum, uma boa iluminação das vias públicas não contribui necessariamente para a segurança pública. Segundo ele, embora governantes sejam cobrados no sentido de reverter o enorme déficit de iluminação adequada de áreas urbanas residenciais, é questionável que isto contribua para uma melhora na segurança quando há um “mau direcionamento da iluminação” – gerando “poluição lumínica” e criando “pontos cegos”, onde a pessoa não consegue ver plenamente o cenário em que se encontra. “Além disso, existe o desperdício de luz para o céu, influenciando no ecossistema das aves e impossibilitando a nitidez para ver as estrelas”, destacou o executivo.

Ottoboni ressaltou que algumas cidades estão combatendo a “poluição lumínica” com o emprego de novos padrões tecnológicos na iluminação pública, como nas Ilhas Canárias, Espanha, onde o governo local teria reduzido em 84% o fluxo de luz para o céu, com uma economia de gastos de aproximadamente 65%. Outro caso é o de San Diego, EUA, que passou a economizar 3 milhões de dólares por ano após trocar as suas luminárias e reduzir sua poluição luminosa.

O jornalista ainda criticou a Eletrobrás, por exaltar a iluminação pública em seu site e não fazer qualquer citação sobre a “poluição lumínica”.

Julgue o leitor se a crítica ao comentário da empresa se justifica:

A iluminação pública é essencial à qualidade de vida nos centros urbanos, atuando como instrumento de cidadania, permitindo aos habitantes desfrutar, plenamente, do espaço público no período noturno. Além de estar diretamente ligada à segurança pública no tráfego, a iluminação pública previne a criminalidade, embeleza as áreas urbanas, destaca e valoriza monumentos, prédios e paisagens, facilita a hierarquia viária, orienta percursos e aproveita melhor as áreas de lazer… A iluminação pública no Brasil corresponde a aproximadamente 4,5% da demanda nacional e a 3,0% do consumo total de energia elétrica do país. O equivalente a uma demanda de 2,2 GW e a um consumo de 9,7 bilhões de kWh/ano.

O que Ottoboni e os que pensam como ele deixam de lado é o fato de que o que chamam “poluição lumínica” é, de fato, um dos melhores indicadores do desenvolvimento socioeconômico da humanidade, já que os níveis de iluminação são produto direto dos níveis de consumo per capita de eletricidade. Segundo a sua ótica distorcida, as populações da África e de grande parte da Ásia deveriam sentir-se aliviadas por não padecer da terrível “poluição lumínica”, enquanto a Europa Ocidental, parte da América do Norte e o Japão poderiam ser apontados como os casos mais extremos desta perigosa forma de impacto ambiental (vide a montagem da NASA, que mostra o mundo à noite). Sem dúvida, uma flagrante manifestação de “obscurantismo sustentável”.

One comment

  1. Realizamos um programa de TV tratando deste problema da poluição luminosa, dentro da série EcoSenado. Abaixo vai o link para visualização do programa, que tem cerca de 15 minutos de duração:
    http://www.senado.gov.br/noticias/tv/programaListaPadrao.asp?ind_click=7&txt_titulo_menu=Ecosenado&IND_ACESSO=S&IND_PROGRAMA=S&COD_PROGRAMA=1&COD_VIDEO=170087&ORDEM=0&QUERY=&pagina=5

x

Check Also

O quinto "recado" fraudulento do IPCC

A despeito dos crescentes questionamentos aos cenários catastrofistas criados em torno da inexistente influência humana ...