Obama e o "clube das bombas"

O literalmente bombástico discurso do presidente estadunidense Barack Obama, na véspera da simbólica data de 11 de setembro, para anunciar ao mundo a “estratégia” do país para combater a ameaça do Estado Islâmico (EI), o antigo Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na sigla em inglês), deixou claro que a facção mais belicista do Establishment está dando as cartas em Washington. E que o objetivo real de sua agenda não é um combate efetivo aos jihadistas, que já dominam um território equivalente ao que o Reino Unido poderá ter após o plebiscito de independência da Escócia, na quinta-feira 18 de setembro, mas estender ao máximo as múltiplas conflagrações que infernizam o Oriente Médio e adjacências, dentro de uma grande estratégia de promover o caos e a desordem contra qualquer cenário de reorganização da ordem global que ameace a hegemonia do eixo anglo-americano.

A intenção ficou evidente quando Obama anunciou que o eixo central da “estratégia” seria “uma campanha sistemática de ataques aéreos contra esses terroristas”. Além disto, seriam enviados mais 475 militares estadunidenses ao Iraque, que se juntarão aos mais de 900 que já lá se encontram, “para apoiar as forças iraquianas e curdas, com treinamento, inteligência e equipamento”, e disponibilizados “autoridades e recursos adicionais para treinar e equipar” os grupos da chamada “oposição moderada” síria, que luta contra o governo do presidente Bashar al-Assad (CNN, 10/09/2014).

Ou seja, um plano fadado ao fracasso quanto ao objetivo anunciado, mas perfeito para manter acesos todos os conflitos em curso e potenciais, na região, e engordar as dotações orçamentárias extraordinárias do Pentágono e os lucros das empresas do complexo industrial-militar estadunidense. Como se sabe, campanhas aéreas do gênero não passam de doutrinas militares utópicas, extremamente custosas em equipamentos e armamentos, mas pouco úteis contra alvos que geralmente não se comportam como forças militares regulares – reflexos do estado mental enfermo de poderes que resistem a admitir o ocaso histórico do hegemonismo.

Curiosamente, o principal aliado dos EUA, o Reino Unido, anunciou que não participará de eventuais ataques aéreos em território sírio, talvez, por entender que, como ressaltou de imediato o chanceler russo Sergei Lavrov, tais ações representariam claras violações do direito internacional. Por sua vez, o invertebrado presidente François Hollande parece estar pretendendo compensar o prolongado período em que a presença e a herança do general Charles de Gaulle mantiveram a independência da França frente à hegemonia anglo-americana no continente. Pronunciando-se logo após o discurso de Obama, o chanceler Laurent Fabius afirmou: “Se necessário, nós participaremos de qualquer ação militar aérea.” Assim como ocorreu na operação contra a Líbia, Paris deve estar pensando em associar-se ao “clube das bombas” de Obama, para colocar na vitrine os seus caríssimos caças Dassault Rafale, no esforço de ampliar o até agora escasso número de forças aéreas estrangeiras que os adquiriram.

Outra evidência de que o plano contra o EI não é para valer é a negativa de qualquer tipo de entendimento com o presidente sírio Assad, comandante-em-chefe de uma das poucas forças militares capazes de enfrentar efetivamente os jihadistas, no contexto de uma operação combinada com as dos países vizinhos e o apoio sério de potências estrangeiras.

“Na luta contra o ISIL, não podemos confiar em um regime de Assad, que aterroriza o seu povo, um regime que jamais ganhará novamente a legitimidade que perdeu. Em vez disto, devemos reforçar a oposição, como o melhor contrapeso aos extremistas como o ISIL, enquanto buscamos a solução política necessária para resolver a crise síria, de uma vez por todas”, sentenciou o ocupante da Casa Branca, lendo o roteiro preparado por algum representante dos ultrabelicistas “neoconservadores” que dominaram a política externa de Washington.

Como é sabido que a chamada “oposição moderada” síria, praticamente, deixou de existir, já que os jihadistas passaram a compor a quase totalidade dos grupos que ainda combatem o regime de Assad, a intenção de Obama não passa de um engodo.

Uma evidência adicional de que não há qualquer intenção séria de neutralizar a ameaça do EI, a União Europeia anunciou que um novo pacote de sanções contra a Rússia, outro país cuja colaboração contra os jihadistas é imprescindível, entrará em vigor na sexta-feira 12 de setembro.

Em síntese, a mensagem é: preparem-se para mais uma campanha do “clube das bombas”!

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