O “retábulo das maravilhas” do 22 de abril

Obcecada em encontrar um caminho para o impedimento do presidente Jair Bolsonaro, a maioria dos meios de comunicação e redes sociais se perdeu nos destemperos verbais do presidente e de vários de seus ministros, deixando passar os fatos mais importantes da notória reunião do gabinete no Palácio do Planalto, em 22 de abril, divulgada por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Celso de Mello.

O motivo da reunião era o anúncio do programa Pró-Brasil, que prevê investimentos públicos em infraestrutura como parte fundamental da estratégia de reconstrução da economia nacional, passada a emergência sanitária criada pela pandemia de covid-19. Idealizado pela Casa Civil da Presidência, a cargo do ministro general Walter Braga Netto, o plano foi pronta e duramente atacado pelo “superministro” da Economia Paulo Guedes, demonstrando claramente a fratura existente na cúpula do Governo, quanto ao entendimento das soluções econômicas pós-pandemia e do alcance das mudanças estruturais impostas pela crise, no tocante ao papel estratégico do Estado nacional e da necessária proteção às capacidades produtivas do País. Não obstante, a despeito da reação ensandecida do colega de gabinete, na tarde do mesmo dia, Braga Netto anunciou o plano à Nação, em uma entrevista coletiva sem a presença de Guedes, embora, pressionado pelo “superministro”, o presidente Bolsonaro tenha logo ressaltado ser ele o comandante da economia.

Em qualquer análise objetiva dos fatos, salta aos olhos que, sem um programa de reconstrução da economia real de longo prazo, e independentemente do destino do Governo atual, o País tende a mergulhar em uma crise socioeconômica sem precedentes em sua história. E é igualmente evidente que Paulo Guedes não dispõe nem das competências nem da determinação necessárias para dirigir ou administrar tal programa de mobilização nacional, diametralmente oposto às suas crendices ideológicas de um ultraliberalismo econômico ultrapassado e atropelado pela pandemia de covid-19, percepção que se espalha rapidamente em todo o mundo.

De resto, a sua presença no governo se baseia única e exclusivamente na ignorância absoluta do presidente Bolsonaro em assuntos econômicos, admitida por ele próprio. Por isso, ele não percebe que a permanência do Guedes e sua equipe e suas diretrizes econômicas superadas pela realidade, poderão levar à derrocada do seu governo, pelo efeito da devastação socioeconômica agravada pela pandemia, com dezenas de milhões de desempregados, a quebra de dezenas de milhares de empresas de todas as dimensões e a espada de Dâmocles de sérias convulsões sociais.

E é uma vã ilusão imaginar que as Forças Armadas poderiam intervir para sustentar um regime que representasse a continuidade da política econômica do “Posto Ipiranga”, pois, seguramente, as lideranças militares brasileiras têm na memória a experiência da Argentina do período 1976-1983, quando o regime militar comandado pelo general Jorge Rafael Videla e, depois, por Leopoldo Galtieri, adotou incondicionalmente a draconiana política ultraliberal do ministro da Economia José Alfredo Martínez de Hoz. As suas medidas não diferiam muito das propugnadas por Guedes – abertura total da economia, privatização das empresas públicas, eliminação da legislação trabalhista e de sindicatos – e os resultados foram desastrosos, fomentando a desindustrialização da Argentina e uma incendiária polarização de classes sociais. Para completar, contribuíram para a desmoralização e, mais tarde, após a Guerra das Malvinas, para o virtual desmantelamento das Forças Armadas, deixando o país vizinho sem qualquer poder de defesa soberana relevante. A identidade de Guedes com Martínez de Hoz demonstra, uma vez mais, a escassez de criatividade dos neoliberais, que apenas repetem bovinamente as receitas supostamente milagrosas que lhes foram incutidas nas principais universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Em uma de suas obras teatrais, o Retábulo das maravilhas, o grande escritor Miguel de Cervantes descreve magistralmente o tipo de personagem representado por Guedes em suas variadas encenações, que vão do cômico ao ridículo passando pelo ultrajante, como se viu na reunião de 22 de abril. Na obra, o autor de Dom Quixote faz seu personagem principal, Chanfalla, uma espécie de charlatão metido a prestidigitador, dizer que o tal retábulo havia sido construído pelo “sábio Tontonelo, debaixo de tais paralelos, rumos, astros e estrelas, com tais pontos, caracteres e observações, que ninguém pode ver as coisas que neles se mostram que tenha alguma raça de confesso, ou não seja havido ou procriado pelos seus pais de legítimo matrimônio; e quem tenha sido contagiado destas duas tão usuais enfermidades, desista de ver as coisas jamais vistas nem ouvidas do meu retábulo”. Ou seja, quem não fosse “puro de sangue” ou fosse filho bastardo, não poderia enxergar o que aconteceria no retábulo imaginário (a menção ao “sábio Tontonelo” é uma referência ao astrônomo e matemático grego Cláudio Ptolomeu e ao seu sistema geocêntrico, já desacreditado na época de Cervantes). No século XIX, o dinamarquês Hans Christian Andersen reaproveitaria o tema no seu conto clássico, A roupa nova do rei.

A ideologia ultraliberal de Guedes & cia. é exatamente isso: um sistema autorreferenciado (“geocêntrico”), baseado em premissas equivocadas e desmoralizadas: a de que a liberdade absoluta do indivíduo frente ao Estado constituiria o caminho único para o desenvolvimento e que a soma aleatória dos interesses individuais conduziria automaticamente ao Bem Comum. Em momento algum, seus seguidores se preocupam em evidenciar historicamente que nações teriam atingido níveis avançados de desenvolvimento seguindo tal receituário milagroso.

No caso do “Posto Ipiranga”, a sua reduzida substância fica sustentada apenas em bravatas retóricas, como as desfiladas em 22 de abril, do gênero, “surpreendemos o mundo no ano passado e o surpreenderemos depois da pandemia”, as “políticas das reformas afastarão o perigo do impeachment e garantirão a reeleição do presidente” e outras diatribes ali proferidas. Para ele, quem não vê essa “realidade” ou se oponha à pronta privatização da “porra do Banco do Brasil”, deve ser um bastardo, um ignorante incapaz de ler Keynes no inglês original (como se jactou na reunião) ou pertencer a um bando de mal nascidos.

Definitivamente, a economia pós-pandemia irá requerer uma liderança com visão de Estado, não dogmática e comprometida com uma agenda de reconstrução da economia real, inclusão social e superação das imensas desigualdades – e vulnerabilidades – expostas pela covid-19.

x

Check Also

Brasil: o teto ou a vida

Em um editorial publicado em 27 de julho (“Urgência e oportunismo”), o tradicional jornal O Estado ...