O “Imperativo Extraterrestre” como saída para a crise global

As reações histéricas e potencialmente incendiárias dos setores mais radicais do Establishment anglo-americano ao desafio da Rússia de Vladimir Putin às suas pretensões hegemônicas têm criado uma atmosfera altamente volátil no cenário geopolítico global, que se comparam aos momentos mais perigosos da Guerra Fria, vividos na Crise dos Mísseis de Cuba de 1962. Para não poucos deles, o momento atual seria ainda mais ameaçador, em função das enormes diferenças de estatura entre as atuais lideranças do Ocidente e seus antecessores daquela época. De fato, não há termo de comparação possível entre estadistas do porte do presidente John F. Kennedy e seu embaixador nas Nações Unidas, Adlai Stevenson (EUA), o primeiro-ministro Harold Macmillan e seu chanceler Alec Douglas-Home (Reino Unido), o presidente Charles de Gaulle (França), o chanceler Konrad Adenauer (Alemanha Ocidental), e os presentes titulares dos mesmos postos.

Nas últimas semanas, Moscou viu-se obrigada a subir o tom das suas respostas à escalada de provocações oriundas de Washington e Londres, as quais incluíram ameaças de um novo ataque militar estadunidense contra a Síria, em retaliação a um eventual uso de armas químicas pelas forças armadas do país, e o grotesco caso do envenenamento com um agente neurotóxico de um ex-oficial de inteligência russo na Inglaterra, no qual o governo britânico apressou-se em apontar o dedo para o Kremlin e expulsar diplomatas russos do país, como retaliação. Pouco importa que tanto a Síria como a Rússia tenham se desfeito dos seus arsenais químicos sob supervisão internacional, e que numerosos investigadores sérios tenham afastado qualquer responsabilidade russa no episódio de Salisbury (Resenha Estratégica, 14/03/2018).

Em resposta à agressividade estadunidense, o comando militar russo advertiu que qualquer ataque contra a Síria, que colocasse em risco as vidas dos numerosos militares russos que atuam no país, seria respondido à altura, inclusive, com ataques aos navios lançadores de mísseis, as principais plataformas ofensivas que o Pentágono costuma utilizar em tais ações. E, depois da revelação de Putin sobre as novas armas avançadas russas, revelada em seu discurso de 1°. de março, a advertência deve ser levada a sério, inclusive, pelo fato de uma delas, o novo míssil antinavio hipersônico Kinzhal, já se encontrar operacional (Resenha Estratégica, 07/03/2018).

Em Washington, o recado parece ter sido entendido em certos setores. Em 8 de março, para surpresa de muitos, quatro senadores, entre eles a democrata Dianne Feinstein, todos conhecidos por sua notória atitude anti-russa, enviaram uma carta ao então secretário de Estado Rex Tillerson (que seria demitido no dia seguinte), pedindo o estabelecimento imediato de negociações com a Rússia sobre o controle de armas nucleares. E, para surpresa ainda maior (e irritação da mídia alinhada com os “falcões”), o próprio presidente Donald Trump telefonou a Putin, para cumprimentá-lo pela sua vitória consagradora nas eleições de 18 de março, e anunciou que ambos deverão reunir-se proximamente, “para discutir a corrida armamentista, que está saindo de controle” (Russia-Insider, 21/03/2018).

A despeito do radicalismo prevalecente na capital estadunidense, é possível que as cabeças mais sóbrias consigam colocar panos quentes no belicismo dos piromaníacos e esvaziar a escalada de provocações contra Moscou, para o que o bom entendimento pessoal entre Trump e Putin poderá ser de grande relevância.

Para os EUA, uma alternativa ao confrontacionismo e à militarização permanente da política externa poderia ser o aprofundamento da cooperação com a Rússia na exploração espacial. Mesmo com as desavenças dos últimos anos, as agências espaciais dos dois países prosseguiram com os programas conjuntos, principalmente, envolvendo a Estação Espacial Internacional, da qual são os sócios principais. Da mesma forma, a Rússia não deixou de fornecer aos EUA os seus confiáveis motores RD-180, que equipam os foguetes Atlas V, cujo registro operacional é inigualado por qualquer outro lançador estadunidense.

As possibilidades de uma cooperação espacial ainda mais ampla se mostram no fato de que tanto Trump como Putin anunciaram, recentemente, a intenção de promover a exploração de Marte, para a qual ambos os países estão desenvolvendo métodos de propulsão mais avançados que os foguetes químicos atualmente existentes. Nos EUA, a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) trabalha com o EM Drive, um revolucionário conceito de impulso eletromagnético, que também está sendo desenvolvido pelos chineses. Na Rússia, a Roskosmos pretende ter operacional até 2025 um motor nuclear capaz de reduzir para seis semanas o tempo de uma viagem ao Planeta Vermelho, contra os 18 meses hoje necessários. Ademais, uma cooperação em alto nível entre as duas superpotências atrairia a participação de outros programas espaciais avançados, casos da União Europeia, China e Índia, viabilizando um eventual consórcio espacial multinacional para o aprofundamento da exploração espacial, o que a colocaria em um patamar jamais imaginado durante a Guerra Fria.

A propósito, em outubro de 1962, foi o limiar de um tiroteio nuclear entre as superpotências que levou o presidente John Kennedy e o líder soviético Nikita Krushchov a estabelecer um canal de comunicação próprio, na tentativa de evitar uma nova situação idêntica ou ainda mais perigosa. No ano seguinte, Kennedy deu um passo adiante e, em dois discursos memoráveis, nas Nações Unidas e na Universidade Americana, em Washington, propôs à URSS uma união de esforços para o envio de uma missão tripulada à Lua, iniciativa que levava embutido o potencial de acabar com a Guerra Fria. A História registra que Krushchov, apesar de inicialmente relutante, acabou se mostrando favorável à proposta, mas, infelizmente, o assassinato de Kennedy, em novembro, abortou a oferta. Não por acaso, os assassinos de JFK, aos quais não interessavam o esvaziamento da Guerra Fria e da rivalidade com a URSS, representavam as mesmas forças do “Estado Profundo” estadunidense que, hoje, se empenham em reativar o clima de conflito com a Federação Russa, inclusive, acusando-a de pretender reviver a antiga URSS.

Uma cooperação internacional abrangente é um requisito imprescindível para viabilizar a extensão a humanidade ao espaço cósmico, destino e missão do Homo sapiens sapiens como espécie. Este é o “Imperativo Extraterrestre” a que se referia Krafft Ehricke, engenheiro aeronáutico alemão que desempenhou um importante papel no programa espacial estadunidense, nas décadas de 1950 a 1970. Em um artigo escrito em 1957, ano em que foi deflagrada a corrida espacial entre os EUA e a URSS, com o lançamento do satélite soviético Sputnik-1, ele afirmava:

(…) A ideia de viajar a outros corpos celestes reflete no nível mais alto a independência e agilidade da mente humana. Ela empresa uma dignidade última às façanhas técnicas e científicas do homem. Acima de tudo, ela toca a filosofia da sua própria existência. Como resultado, o conceito de viagem espacial desconsidera fronteiras nacionais, recusa-se a reconhecer as diferenças de origem histórica ou etnológica e penetra na fibra de um credo sociológico ou político tão rapidamente como na de outro. (…) Ao se expandir pelo Universo, o homem cumpre o seu destino como um elemento da vida, dotado do poder da razão e da sabedoria da lei moral em si próprio.

Não por acaso, Ehricke, que morreu em 1984, foi também um rigoroso opositor do pessimismo cultural e científico disseminado pela ideologia malthusiana, em sua forma dos “limites do crescimento”, promovida pelos centros oligárquicos anglo-americanos, a partir da década de 1970. Hoje, como em sua época, a exploração espacial se apresenta como um poderoso vetor de promoção e disseminação dos avanços do conhecimento para virtualmente todas as áreas de interesse da humanidade. Por isso, o “Imperativo Extraterrestre” pode constituir um elemento crucial de uma nova ordem mundial baseada na cooperação para o desenvolvimento compartilhado, cuja ponta ponta de lança é o vasto programa de integração eurasiática encabeçado pela China e a Rússia. A ver se, como em 1962, os inimigos do progresso humano não consigam sabotar o caminho para o futuro, nem na terra nem no espaço.

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