O falso “massacre” dos ianomâmis: bomba no colo da Survival International

Agora é oficial: o alegado “massacre” de indígenas ianomâmis venezuelanos por garimpeiros brasileiros, que, nas últimas semanas, motivou uma virulenta investida do aparato indigenista internacional contra os governos da Venezuela e do Brasil, não existiu. A confirmação foi feita não apenas pelas autoridades venezuelanas, após uma segunda inspeção no local do suposto incidente, como, de forma relutante, pela ONG britânica Survival International, que encabeçava a campanha.

Em resposta às acusações do aparato indigenista, o governo venezuelano enviou uma nova missão à região, situada no Sul do país, onde, segundo as denúncias, até 80 indígenas teriam sido mortos, em julho último. A missão foi acompanhada por jornalistas, que puderam entrevistar os indígenas locais, os quais negaram ter havido qualquer ato de violência. “Ninguém foi morto aqui. Aqui estamos todos passando bem”, disse um deles, por meio de um intérprete (BBC Brasil, 11/09/2012).

Na segunda-feira 11 de setembro, o embaixador da Venezuela no Brasil, Maximilien Sánchez Arveláiz, confirmou a informação, depois de ter conversado com representantes do Itamaraty e da Fundação Nacional do Índio (Funai): “Confirmou-se que não ocorreu nada. Acredito que está tudo resolvido e que não tem mais nada a se discutir. É um grande alívio (Terra Brasil, 12/09/2012).”

Diante dos fatos, a Survival viu-se obrigada a retificar a sua virulenta nota inicial sobre o caso, que falava numa “atrocidade”, mas não se deu por vencida, no boletim divulgado em 11 de setembro:

Tendo recebido os seus próprios depoimentos, de fontes confidenciais, a Survival, agora, acredita que não houve um ataque de garimpeiros ao aldeamento ianomâmi de Irotatheri… No momento, não sabemos se essas histórias foram deflagradas por um incidente violento, que é a explicação mais provável, mas a tensão permanece elevada na área. A reação A reação do governo venezuelano continua sendo vergonhosa. Até agora, ele não disse que irá remover os garimpeiros e, imediatamente, negou ter encontrado “evidências” de mortes, antes mesmo de ter concluído a sua própria investigação. Os seus apoiadores foram além e acusaram os seus críticos de fazer parte de uma conspiração de direita etc.

Um detalhe que chama a atenção é a menção às “fontes confidenciais” que a ONG diz possuir. Em uma entrevista divulgada no dia seguinte, ao ser perguntado sobre elas, o diretor Stephen Corry reiterou tratarem-se de “fontes próprias, confidenciais, confiáveis e especializadas, independentes do governo ou da mídia”.

Ora, se a Survival dispõe de fontes tão qualificadas, que lhe permitem dispensar as informações oficiais das autoridades venezuelanas, duas perguntas se impõem. Primeiro, por que não recorreu a elas antes de sair trombeteando um massacre inexistente? Na entrevista, perguntado sobre se não deveria ter investigado melhor, Corry respondeu: “Não, nosso papel era avaliar e transmitir as informações que nos foram dadas pela organização indígena, e não questioná-las imediatamente. Nós deixamos claro que o informe não era corroborado.”

Ou seja, seguindo o modus operandi tradicional do aparato, acusa-se e calunia-se primeiro, investiga-se depois.

Segundo, que tipo de fontes seriam essas? Embora o diretor não mencione, fontes “confidenciais, confiáveis e especializadas, independentes do governo ou da mídia”, tratando-se da ONG porta-bandeira do aparato indigenista internacional, com estreitos vínculos com a Monarquia britânica, apontam para um serviço de inteligência, seja oficial ou informal.

Adiante, sem perder a soberba, Corry informa que não pretende mudar de hábitos (afinal, ele dirige a Survival desde 1984):

(…) Este incidente não irá afetar os nossos sistemas. Nós temos acompanhado esse tipo de assunto por 40 anos; nós continuaremos a fazer avaliações sensíveis, baseadas na nossa experiência. Nós precisamos reagir rapidamente às notícias de matanças: se elas não forem divulgadas rapidamente, isto pode incentivar os matadores… Pelo que sabemos, os índios não têm inventado ataques contra eles mesmos – por que deveriam? Eles são tão comuns.

Até o momento, não se conhecem as reações da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), nem do deputado federal Alfredo Sirkis (PV-RJ), que, com idêntica celeridade, se aprestaram a cobrar esclarecimentos às autoridades venezuelanas e brasileiras, com o tom autoritário que caracteriza tais círculos.

Todo o episódio proporciona um didático estudo de caso da forma de operação do aparato indigenista e seus aliados, que as autoridades e a sociedade brasileira em geral devem estudar com cuidado, para não se intimidar diante de futuras ações similares.

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