O debate oculto em Davos

A melhor síntese sobre a 43ª. edição do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), realizada entre 23 e 27 de janeiro, no tradicional resort de Davos, nos Alpes suíços, talvez, tenha sido antecipada pelo jornalista Matthew Allen, do portal informativo Swissinfo. Escrevendo na véspera da abertura do evento, ele deu à sua nota o oportuno título: “Inércia reina na volta da elite a Davos” (Swissinfo.ch, 22/01/2013).

Referindo-se à falta de progresso no enfrentamento dos grandes temas mundiais, o jornalista cita um lamento do próprio fundador e presidente do Fórum, Klaus Schwab, em uma entrevista coletiva anterior ao evento: “O fato é que ainda estamos, de alguma forma, impedidos de fazer progressos. Minha esperança é que possamos abordar os nossos assuntos globais com mais otimismo. Eu espero que os participantes saiam… sentindo uma responsabilidade maior para com a sociedade como um todo.”

De fato, o tema central das grandes discussões que se travam entre as elites dirigentes do Hemisfério Norte – em grande medida, nos bastidores -, a necessidade de reforma do sistema financeiro internacional e a sua recolocação a serviço da economia física, mal foi tocado no Fórum, onde assuntos como a proliferação da obesidade e o pseudoproblema do aquecimento global receberam um destaque bem maior. Assim, praticamente, o debate sobre esta questão crucial ficou restrito a um painel de banqueiros e investidores, onde, previsivelmente, a regulamentação do sistema foi duramente criticada, além do “recado” indireto dado pelo premier britânico David Cameron, com a ameaça de o Reino Unido deixar a União Europeia (UE), para que a eventual regulamentação estabelecida para o bloco não venha a afetar os interesses da City de Londres. De forma sintomática, à véspera da viagem a Davos, Cameron proferiu um bombástico discurso sobre as relações entre o Reino Unido e a Europa, aguardado há semanas, no qual anunciou a possibilidade de realização de um plebiscito sobre a continuidade da adesão britânica à UE.

No painel bancário, os esforços de re-regulamentação foram ferozmente rechaçados por um dos senhores do olimpo financeiro, o CEO do JP Morgan Chase, James Dimon, que também rebateu as críticas sobre a falta de transparência dos bancos: “Os negócios podem ser opacos. Eles são complexos. Nós também não sabemos como funcionam os motores de avião.” Para ele, as tentativas de imposição de rédeas ao sistema financeiro são contraproducentes: “Ok, são cinco anos depois da crise e nós ainda não consertamos um monte de coisas de que vocês estão falando. Parte do motivo é que estamos tentando fazer muita coisa muito rápido. Nós temos tantas coisas a caminho. [Não queremos] ficar mais cinco anos apontando o dedo, buscando bodes expiatórios e usando desinformação… e pensando que estamos fazendo um sistema melhor (WEF, 23/01/2013).”

Em outro painel, o igualmente todo-poderoso executivo-chefe (CEO) do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, disse que o pior da crise já ficou para trás. “Eu acho que o momento de crise já passou. Os problemas mais preocupantes de que todo mundo falava no ano passado parecem estar fora da mesa de discussões”, afirmou. Como seria de se esperar, Blankfein também defendeu um dos aspectos de sua atividade mais caros a ele e seus colegas, os multimilionários bônus pagos aos altos executivos financeiros, que tem sido alvo de acirradas críticas em todo o mundo, desde o início da crise financeira (BBC News, 25/01/2013).

Vale recordar que Blankfein é o mesmo executivo que, em 2009, em meio à avalanche de críticas contra as práticas dos megabancos, afirmou que eles desempenham uma função vital na economia e, modestamente, que se considerava apenas um banqueiro “fazendo o trabalho de Deus”.

A impressão de que o pior já passou foi transmitida, igualmente, pelo influente editor do Financial Times, Martin Wolf, para quem o evento ficaria marcado como o “sinal de alívio Davos”, principalmente, porque um colapso do euro, uma “aterrissagem forçada” da China e a crise da dívida dos EUA pareciam possibilidades distantes.

Entre os chefes de Estado presentes, além de Cameron, o destaque foi para a poderosa chanceler alemã Angela Merkel, que reforçou o mantra da continuidade dos esforços de austeridade financeira na Europa. “Nós ainda não estamos onde queremos estar. Ainda não saímos da zona de perigo, mas estamos na direção certa. A consolidação e o crescimento são basicamente os dois lados da mesma moeda. Nós não queremos dinamismo a qualquer preço, mas um dinamismo possa suportar choques.”

Uma demonstração da desorientação de parte das lideranças políticas frente à complexidade da crise global foi proporcionada pelo presidente israelense Shimon Peres, para quem as grandes companhias globais tendem a substituir cada vez mais o papel dos governos nacionais. “Os governos estão ficando desempregados, porque a economia se tornou global e os governos permanecem nacionais… Quarenta companhias globais têm uma fortuna maior que todos os governos do mundo”, afirmou.

Segundo ele, as corporações globais estão respondendo às expectativas de individualidade que definem as novas gerações: “Os jovens não se satisfazem com a tentativa de ser iguais. Eles se satisfazem pela tentativa de ser diferentes.” Por isso, no futuro, os governos tendem a ser relegados à mera função de “manejo” do Estado, com as corporações globais assumindo, de forma crescente, a responsabilidade pelos investimentos e inovações.

Convenientemente, o vetusto político israelense se esqueceu de mencionar as múltiplas intervenções dos estados nacionais para confrontar a crise global, sem as quais a economia mundial e o próprio sistema financeiro, resgatado com recursos públicos, teriam sido devastados. Porém, os seus antolhos seletivos compõem o equipamento favorito de muita gente deslumbrada com a “globalização”, que não consegue enxergar que, em milênios de história civilizada, a humanidade não criou instituição melhor que o surrado mas consagrado Estado nacional soberano, para se organizar politicamente – o qual, apesar da popularidade de semelhantes delírios, ainda não tem substituto à vista.

Uma rara voz de lucidez a se manifestar no evento foi a do presidente da Islândia, Olafur Ragnar Grimmson, que demonstrou à sua platéia que o principal motivo de seu país estar deixando para trás os efeitos da crise financeira se deve ao fato de não ter seguido o receituário ortodoxo adotado no restante da Europa.

Mas Grimmson foi um pregador no deserto, falando para uma multidão de notáveis cujos GPS estão descalibrados e se recusam a admiti-lo. Esta incômoda sensação se reforça com a listagem dos principais riscos mundiais, estabelecida por um painel de especialistas consultados pelo WEF para compor o “Relatório dos Riscos Globais 2013”. Na pesquisa de percepção dos riscos globais, efetuada para o relatório, os dois riscos de maior importância sistêmica ao longo da próxima década foram: 1) uma grande quebra financeira sistêmica; e 2) o fracasso da adaptação às mudanças climáticas diante do aumento das emissões dos gases de efeito estufa.

A risível equiparação do pseudoproblema climático com a gravíssima perspectiva – real – de uma implosão do sistema financeiro internacional é suficiente para demonstrar que será preciso muito mais que convescotes nos Alpes, para enfiar um pouco mais de realidade nas considerações desse “senhores do universo”.

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