O Brasil tem futuro?

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A seguir, reproduzimos um artigo do historiador Jaime Pinsky, que, embora publicado há mais de nove anos, continua atualíssimo (posteriormente, foi transformado na Introdução do seu livro de mesmo nome, publicado pela Editora Contexto). Deixamos aos leitores a tarefa de meditar sobre os desafios levantadas pelo autor.

O Brasil tem futuro?

Jaime Pinsky
Historiador e professor da USP e da Unicamp. Artigo originalmente publicado no jornal Correio Braziliense, em 8 de janeiro de 2006.

A pergunta cabe: nosso país tem futuro? Podemos, de fato, acreditar num Brasil diferente e melhor do que temos? Ou estamos condenados a servir de lastro para as naves do progresso que insistem em não se fixar por aqui? Não se trata, é claro, de se contentar com vitórias passageiras e aparentes, que nos são mostradas pelas máquinas de propaganda governamentais. Trata-se de pensar se o Brasil tem chances de chegar entre os mais bem colocados no campeonato mundial de desenvolvimento, justiça social, infra-estrutura, saúde e educação de qualidade para todos, eficiência, responsabilidade e honestidade no setor público (e no privado), estradas decentes, cidades organizadas, respeito ao cidadão e respeito do cidadão pelo coletivo.

Num momento em que os sonhos se resumem em aparentar e consumir, pode soar um pouco raro, mas sou da geração que tinha fé. Uns confiavam na revolução, definitiva ou por etapas (antes a burguesa, depois a proletária), pelas armas ou pelo voto, a partir do campo ou da cidade. Outros acreditavam no “socialismo moreno” de Darcy Ribeiro, na “cordialidade” de Sergio Buarque de Holanda, ou na “divisão do bolo” (acumulado a duras penas) de Delfim Neto. Havia até os que desenvolveram crença ingênua na Zélia do Collor ou mesmo na pirotecnia inconseqüente de tantos milagreiros que estiveram no poder ou pregavam por aí… Em nome do futuro idealizado, da utopia de cada um, já se discutiu muito, já se escreveu e discursou, já se matou e morreu. Ao contrário dos oportunistas que sempre buscaram o poder para dele se beneficiar (não é de hoje que cueca é cofre de dólares) havia idealistas de diferentes facções políticas, gente que agora se sente incomodada (e até fracassada) por não ver o país “no lugar que lhe cabe”.

Os brasileiros, quem somos, afinal? Uma turma de explorados pelo capital internacional, um povo sem vocação para o capitalismo moderno, um bando de incompetentes ingênuos, uma cambada de salafrários hipócritas, um grupo irreversível de desunidos? E precisamos do quê, de uma revolução social, de um choque de liberalismos, de políticos capazes (e de onde apareceriam esses seres de ficção?), de seriedade pura e simples (a decantada “vergonha na cara”), de participação popular, de mais capacidade de decisão, de divisão de poder, de centralização do poder?

A maioria dos analistas contemporâneos, da mesma forma que todos os grandes explicadores clássicos do Brasil, (independentemente de sua competência) têm se preocupado em equacionar nossos problemas a partir de fórmulas gerais, que possam dar conta de todas as nossas mazelas. Temos horror ao micro, ao pequeno, ao cotidiano. Ora, a prática social das pessoas pode ser percebida melhor nas situações cotidianas do que na declaração genérica de intenções. Aquele vizinho de garagem que rouba a vaga do outro, o síndico que consegue vantagens pessoais dos fornecedores do condomínio, o dono da cobertura que faz festas ruidosas sem se importar com mais ninguém, o adolescente que usa a sala de ginástica e deixa tudo lambuzado de suor são figuras que agem contra o coletivo em situações de pequenos grupos, mas que poderiam perfeitamente prejudicar muito mais gente se seu espectro de atuação fosse mais amplo. Por comodismo, ou temor ao confronto, os vizinhos deixam “por isso mesmo”, o que faz com que as atitudes anti-sociais não sejam reprimidas e, conseqüentemente, se repitam.

Nossa inconseqüência e baixo sentido de cidadania faz com que sejamos radicais no discurso a respeito de temas sobre os quais temos pouca possibilidade de interferir, mas não passemos de comodistas com relação a situações cotidianas sobre as quais temos condições (além de direito e dever) de modificar.

Mudanças ocorrem não por acaso, mas com fruto de vontade forte. Uma lembrança histórica: a escravidão se manteve no Brasil até quase o final do século XIX não apenas por que assim o desejavam meia dúzia de grandes latifundiários, mas por que estava tão espalhada pelo país. Da mesma forma, o país não muda por que nós não atuamos concretamente para que ele mude.

O amor ao Brasil (como qualquer outro) precisa ser declarado a cada dia e, mais do que declarado, provado. Práticas cidadãs não rimam com esperteza, com levar vantagem, com ser anti-republicano. Um país se constrói a partir de um pacto social em que todos somos protagonistas, não espectadores.

Ah, o Brasil tem futuro? Essa pergunta só tem uma resposta. Que futuro nós queremos construir para o Brasil?

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