O belo e a fera do “governo mundial”

Nos últimos dias, o presidente francês Emmanuel Macron parece ter engrenado a quinta marcha para reviver as glórias do passado imperial de seu país, oferecendo-se como uma espécie de contraparte europeia do impulso hegemônico que costuma provir dos EUA de Donald Trump. Não satisfeito em integrar a França ao “Novo Eixo”, juntamente com os EUA e o Reino Unido, para o ataque de 14 de abril à Síria, Macron proclamou que: 1) ele decidira participar do ataque para dar um “recado” ao presidente russo Vladimir Putin, de que a França deve ser levada a sério; e 2) após o encerramento do conflito, os EUA, a França e seus aliados deveriam “permanecer” no país árabe, para reconstruí-lo e impedir as “ameaças” representadas pelo Irã e pelo presidente (sírio) Bashar al-Assad.

Igualmente, antes de sua visita de Estado aos EUA, entre 23-25 de abril, ele anunciou que transmitiria a Trump a mensagem europeia de que não haveria um “plano B” para o acordo nuclear com o Irã, ao qual o anfitrião se opõe visceralmente (a qual seria reforçada pela chanceler alemã Angela Merkel, que estará em Washington no dia 27).

Quanto ao “recado” a Putin, o líder do Kremlin não deve ter ficado muito impressionado, haja vista o pífio desempenho das forças francesas no ataque. Primeiramente, o centro de controle militar russo na Síria, que acompanhou o ataque em todas as suas fases e ajudou as defesas antiaéreas sírias a derrubar 70% dos mísseis atacantes, não detectou a presença de nenhum dos caças Rafale franceses na zona de ataque, registrando apenas a presença da fragata Languedoc(Resenha Estratégica, 18/04/2018). Ademais, a própria mídia francesa afirmou que um dos caças não conseguiu disparar um dos seus dois mísseis e foi obrigado a lançá-lo ao mar, e que outras duas fragatas haviam registrado panes eletrônicas que as impediram de disparar os seus mísseis de cruzeiro de última geração – para alguns, por interferência das contramedidas eletrônicas russas (Réseau Voltaire, 24/04/2018).

A propósito da autoproclamada “missão” de reconstrução da Síria, Assad adiantou que empresas ocidentais não serão bem-vindas no processo (Euronews, 15/04/2018). E, dias depois, quando Macron anunciou que iniciaria os procedimentos para cassar a Legião de Honra concedida a Assad pelo presidente Jacques Chirac em 2001, o líder sírio se antecipou e mandou devolver a condecoração, encaminhando-a à embaixada da Romênia, que representa os interesses franceses em Damasco. Um comunicado do Ministério das Relações Exteriores afirmou: “Para o presidente Assad, não é uma honra usar uma condecoração atribuída por um país que é escravo e seguidor dos EUA, que apoia terroristas (Independent20/04/2018).”

Na capital estadunidense, a determinação do presidente francês também parece ter se ajustado aos maneirismos e à capacidade de convencimento do anfitrião (foto abaixo e vídeo). Sem consultar os seus pares e sócios europeus no Plano de Ação Abrangente Conjunto (JCPOA, na sigla em inglês), nome oficial do acordo com o Irã, Macron fez a Trump a concessão de que ele precisaria ser ampliado para incorporar restrições à tecnologia de mísseis e à influência iraniana em países como o Iêmen e a Síria.

Macron e Trump, nova relação “carnal” do colonialismo (Getty Images)

As respostas foram imediatas. Em Berlim, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores afirmou que “um novo acordo nuclear não está na agenda (Bloomberg, 25/04/2018)”. Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, reforçou a posição russa: “Não sabemos o que está sendo discutido, nós apoiamos o acordo nuclear como ele é hoje. Nós achamos que não há alternativas (Press TV, 25/04/2018).” E, em Teerã, o chanceler Mohammad Javad Zarif foi categórico, ao afirmar que seu país se retirará do acordo se os EUA o fizerem (Press TV, 25/04/2018).

Zarif, que está em Nova York para conferências em instituições estadunidenses, inclusive no ultra-seleto Conselho de Relações Exteriores (CFR), tem colocado o dedo na ferida da causa profunda dos problemas do Oriente Médio, a estratégia hegemônica encabeçada pelo eixo anglo-americano, ao qual se juntou a França de Macron.

“Evitar conflitos requer que se enfoquem as causas fundamentais, inclusive os problemas que se reforçam mutuamente, da ocupação, intervenção estrangeira e extremismos. Além disto, promover ilusões hegemônicas ou tentar obter segurança à custa de outros, por meio de exclusão e da formação de blocos, invariavelmente, tem causado tensões e conflitos e levado a corridas armamentistas destrutivas”, disse ele, em uma palestra na Organização das Nações Unidas (Press TV, 25/04/2018).

“Nas guerras dos séculos XX e XXI, não há vencedores; somente o grau e a quantidade das perdas serão diferentes. Na era globalizada… não se pode ter segurança à custa da insegurança de outros. A era da influência hegemônica acabou há muito tempo”, afirmou, no CFR.

A carapuça se aplica perfeitamente aos líderes do “Novo Eixo” – Trump, Macron e a premier britânica Theresa May (esta, às voltas com os desdobramentos do vexaminoso Caso Skripal e do não menos vergonhoso Escândalo Windrush, uma desastrada tentativa de expulsão de imigrantes de países do Caribe que vivem legalmente há décadas no Reino Unido). Mas, em particular, Trump e Macron merecem destaque pelo seu desempenho cênico na Casa Branca, brincando com a estabilidade de todo o Oriente Médio e, por extensão, a paz mundial, enquanto não se melindram em empenhar-se para preservar estruturas e atitudes coloniais condenadas ao lixo da História.

De resto, a dupla de bufões – que se habilitam para desempenhar os papeis do belo e da fera do “governo mundial” – está demonstrando que, como destaca a nova “Estratégia de Segurança Nacional” dos EUA, o combate ao terrorismo nunca foi nada mais que um pretexto para ocultar o verdadeiro alvo da sua agenda hegemônica: os Estados nacionais soberanos.

 

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