O “atlanticismo verde” anglo-americano

O componente “ambiental/climático” da reorganização estratégica do eixo oligárquico anglo-americano, que podemos chamar “atlanticismo verde”, em grande medida, expressado na pauta apresentada pelo presidente estadunidense Joe Biden, na cúpula climática virtual de 22-23 de abril (ver nota anterior), é um fator ao qual o Brasil devem prestar a maior atenção.

As manifestações recentes de dois altos funcionários do governo do Reino Unido denotam uma clara intenção de radicalizar o peso dos temas ambientais e climáticos na política exterior britânica, ao considerá-los como assuntos de segurança nacional, expressão genérica com a qual o Establishment anglo-americano tem justificado toda a sua agenda de intervenções neocolonais desde o final da II Guerra Mundial.

A mais significativa foi o artigo do ex-chanceler William Hague na edição da Primavera de 2021 da revista Environmental Affairs, publicado pelo think-tank Policy Exchange. Intitulado “A grande convergência”, descreve o papel crescente dos temas ambientais na agenda geoestratégica da “Global Britain”, como os oligarcas britânicos, sempre nostálgicos do seu império perdido, estão chamando o país.

De acordo com lorde Hague, as duas “ameaças” para as quais a política exterior britânica deve ser orientada são as mudanças climáticas e a China: “E, na medida em que a corrida pelo Zero Líquido [referente às emissões de carbono – n.e.] e a rivalidade do Ocidente com a China se aceleram, a coerência de políticas nessa área se tornará somente se tornará mais essencial.”

Mas, para recordar-nos de que a antiga orientação geopolítica do controle de recursos naturais apenas mudou de forma, ele observa:

(…) A transição para as energias renováveis, provavelmente, mudará a competição estratégica, dos combustíveis fósseis para recursos naturais diferentes, em vez de acabar com ela totalmente. A competição pelo suprimento de minerais críticos requeridos pelas tecnologias verdes já começou a tornar-se parte da rivalidade mais ampla entre a China e o Ocidente. Por exemplo, a China estabeleceu um firme controle sobre o suprimento de cobalto, material crucial para produção de baterias que alimentarão os carros elétricos do futuro, enquanto as nações do Ocidente estão tentando alcançar e procuram se livrar das cadeias de suprimento chinesas.

Adiante, o lorde oferece pistas sobre a orientação que seus pares pretendem seguir:

Um relatório crucial da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) argumenta que três tipos de países têm o potencial para emergir como líderes globais em energia renovável – países com capacidade energética renovável suficiente para tornarem-se exportadores significativos dela; países ricos nos minerais críticos necessários às tecnologias renováveis; e países que liderem em inovação tecnológica, que são “posicionados para ganhar mais com a transformação energética global”. É nesta terceira categoria que a Global Britain deveria aspirar a ser líder. (…)

Para tanto, ele observa que o Reino Unido acaba de criar uma Agência de Pesquisas e Invenções Avançadas (ARIA, na sigla em inglês), para promover “pesquisas de alto risco e alto retorno em setores críticos”. Segundo ele, o Comitê de Ciências e Tecnologia da Câmara dos Comuns já recomendou que as tecnologias para o “combate às mudanças climáticas” devem ser um dos focos do trabalho da agência.

Hague não dá mais pistas, mas uma visita ao sítio da agência permite constatar que seus idealizadores não têm em mente as tecnologias “renováveis” mais populares entre os catastrofistas – eólica, solar, maremotriz, biomassa etc.:

A ARIA se concentrará exclusivamente em projetos com potencial para produzir mudanças tecnológicas transformadoras ou uma mudança de paradigma em uma área da ciência. Embora se antecipe que a maioria dos programas possa fracassar em atingir as suas metas ambiciosas, aqueles que forem bem sucedidos terão um impacto profundo e positivo na sociedade.

Observe-se que os mentores da agência antecipam uma estreita sinergia entre a ação de fomento do Estado e os inovadores e empreendedores engajados no desenvolvimento de tais tecnologias “transformadoras”.

Voltando a lorde Hague, ele chega perto de insinuar que as forças militares britânicas poderiam ser engajadas na cruzada “verde”:

Na medida em que se torne mais necessário aliviar as mudanças climáticas, é provável que os assuntos ambientais se tornem um fator mais influente nas nossas relações internacionais. No passado, o Reino Unido tem se disposto a usar todo o nosso poder de fogo, tanto militar quanto diplomático, para assegurar e extrair os combustíveis fósseis. Mas, no futuro, o Reino Unido precisará usar toda a sua capacidade diplomática para assegurar que esses recursos nãos sejam usados e que os ambientes naturais sejam protegidos. (…)

E cita diretamente o Brasil, com uma linguagem depreciativa sugerindo que as relações com o País se tornarão mais ruidosas:

Veja-se, por exemplo, o Brasil. A nona maior economia do mundo, com uma população de 211 milhões, o Brasil é exatamente o tipo de mercado crescente com o qual o Reino Unido deveria buscar construir uma forte relação comercial. Mas, na medida em que as mudanças climáticas sobem na hierarquia dos assuntos políticos importantes, será cada vez mais difícil conciliar a nossa política de mudanças climáticas com a concordância com um acordo de livre comércio com um país que desmata uma área da floresta amazônica do tamanho de um campo de futebol a cada minuto. Em tais casos, a realpolitik deixará o Reino Unido com um dilema: aliviar as pressões sobre delinquentes das mudanças climáticas como o Brasil (sic) ou esquecer o acordo de livre comércio.

Definitivamente, o Brasil não precisa nem de um acordo de livre comércio com quem quer que seja, nem muito menos aceitar a pecha de “delinquente climático”, principalmente, vinda de dignitários estrangeiros. E, embora seja difícil esperar que até mesmo a “Global Britain” se disponha a engajar forças militares em ações punitivas contra “delinquentes” selecionados, tal linguagem denota que a mentalidade supremacista colonial da “Pérfida Albion” tem raízes profundas.

A outra manifestação da nova orientação veio do chefe do MI-6, o serviço de inteligência exterior britânico, Richard Moore, admitindo que a agência já começou o que chama “espionagem verde” contra os maiores poluidores do mundo, para assegurar que “joguem limpo” e mantenham as suas promessas climáticas (Sky News, 27/04/2021).

Segundo ele, o MI-6 está monitorando os grandes países industrializados, em apoio ao que chamou de “o mais destacado item da agenda de política externa internacional para este paíse e para o planeta”.

“Onde as pessoas assinarem compromissos sobre as mudanças climáticas, talvez, seja o nosso trabalho assegurar que o que elas estão realmente fazendo reflete o que assinaram”, disse ele.

Conhecendo-se as grandes capacidades da inteligência britânica e, principalmente, as do consórcio de inteligência eletrônica Five Eyes (Cinco Olhos; também conhecido como Echelon-Escalão), constituído pelas agências correspondentes do Reino Unido, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, pode-se intuir o nível de importância que os britânicos e suas contrapartes estadunidenses estão atribuindo ao assunto.

Diante de semelhante arranjo de forças, qualquer tentativa de “apaziguamento” parece inócua, mas o Brasil e outros alvos potenciais da agenda do “atlanticismo verde” podem extrair dela a preciosa “dica” da relevância atribuída ao desenvolvimento de novas tecnologias energéticas. Este, sim, um exemplo que precisa ser seguido.

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