Norte da África no pântano da "guerra por recursos"

Em meio à multiplicidade de protagonistas e agendas envolvidos nos conflitos no Norte da África, a região entrou, definitivamente, no mapa global das “guerras por recursos” dos estrategistas das potências hegemônicas. Nas agendas destas últimas, EUA à frente, o controle dos fluxos de recursos naturais, inclusive por meios militares, constitui um fator primordial do seu empenho em preservar o status quo da ordem mundial, em uma recusa a admitir as céleres transformações globais em curso, caracterizadas pela emergência de interesses de novos protagonistas no cenário mundial, tanto nações como setores inteiros das sociedades nacionais. Neste contexto, que, entre outros fatores, inclui uma oposição à crescente presença da China no continente, a intervenção militar no Mali constitui um desdobramento da investida contra a Líbia, concluída com a deposição violenta do regime de Muamar Kadafi.

Desafortunadamente, essa disputa se dá em um marco que sequer consegue disfarçar um ranço neocolonial, diferindo apenas nos métodos, pelo qual o continente africano vem sendo repartido entre orientais e ocidentais, como um vasto repositório de recursos naturais – minérios, combustíveis e alimentos -, com escassa consideração para com as aspirações e necessidades da esmagadora maioria de suas populações. Enquanto os chineses – e, em menor escala, indianos e coreanos – preferem o “soft power” dos investimentos em projetos de infraestrutura e da aquisição de grandes áreas agricultáveis, as potências ocidentais ainda se aferram ao “hard power” e a procedimentos que não mudaram muito desde a Conferência de Berlim (1884-1885), sendo a principal novidade a presença dos EUA entre elas.

A intervenção na Líbia foi um marco nessa agenda, a qual deixa claro que o combate ao terrorismo islâmico e os pretextos humanitários não passam de frágeis justificativas para ações militares, a mudança de regimes políticos e, evidentemente, a pletora de concessões às empresas “porta-bandeiras” das potências ocidentais que costuma seguir-se às mudanças. Ao suprimir a figura de Kadafi, que, com todos os seus problemas, representava o elemento aglutinador do Estado líbio, a campanha militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ensejou a fragmentação e a entrega do país a um conglomerado de facções étnicas e tribais e grupos fundamentalistas, muitos com claras inclinações terroristas e, não raro, vinculados à rede de franquias conhecida como Al-Qaida. Muitos destes grupos têm as suas próprias agendas antiocidentais, como se viu no ataque ao consulado dos EUA em Benghazi, em setembro último, que resultou na morte do embaixador e três outros funcionários diplomáticos estadunidenses.

Outra consequência da ação líbia foi a disponibilização de uma grande quantidade de armamentos para todos esses grupos, tanto dos fornecimentos proporcionados pela OTAN como dos saques nos arsenais líbios, parte dos quais foi parar nas mãos dos insurgentes que se levantaram contra o governo interino do Mali, cuja capacidade constituiu uma desagradável surpresa para as forças francesas que encabeçam a intervenção no país.

Como sintetizou, com propriedade, o influente jornalista e blogueiro inglês Neil Clark:

(…) As razões econômicas estão por trás de cada uma das intervenções ocidentais dos últimos 30 anos. Se olharmos os ataques à Iugoslávia, os ataques à Síria, a guerra na Líbia – todos eles foram vestidos como intervenções humanitárias. Mas não foram. São intervenções econômicas. O Ocidente quer recursos, o Ocidente quer controlar os recursos nessa região. E eu acho que a OTAN vai se realocar na África do Norte. Eu acho que este é o motivo claro de tudo isso. A ameaça da Al-Qaida está sendo ampliada para que, quando a OTAN deixe o Afeganistão, ela se realoque na África do Norte (RT, 21/01/2013).

No Mali, a situação não é menos complexa que na Líbia. O país, com um território equivalente ao do Pará (e mais de duas vezes maior que a França), é basicamente dividido entre o Norte desértico e o Sul subtropical, que concentra 90% da população. Cerca de 90% da população pratica um islamismo moderado de maioria sunita, mas o Estado é laico e a convivência entre as várias denominações religiosas é geralmente pacífica. Porém, desde a década de 1990, a minoria tuaregue (menos de 10% da população), em grande parte constituída por tribos nômades que habitam o Saara e a franja do Sahel, tem buscado a sua autonomia política, constituindo a base do movimento secessionista que se insurgiu contra o governo central, a partir de 2007. Não obstante, após o golpe de Estado de março de 2012, que derrubou o presidente Amadou Touré a pouco mais de um mês das novas eleições, o movimento foi rapidamente infiltrado e dominado por islamistas radicais, que dominaram todo o Norte e ameaçaram marchar contra a capital Bamako, pretexto utilizado pelo presidente François Hollande para justificar a ação militar francesa. Vale registrar que o golpe militar foi liderado por oficiais do Exército treinados nos EUA e ainda não há uma data para novas eleições. E que o país, apesar de ser um dos 25 mais pobres do mundo, dispõe de consideráveis recursos naturais, como ouro, urânio, fosfato, caulim, sal, calcário e algodão, sendo os minérios, basicamente, explorados por empresas estrangeiras.

Nesse cenário, e contribuindo para torná-lo ainda mais complicado, atua a franquia terrorista conhecida como Al-Qaida no Magreb Islâmico (AQMI), cuja ameaça está sendo ressaltada por líderes ocidentais, como o próprio Hollande, seu colega britânico David Cameron, que já fala em uma guerra “de décadas” contra o terror, e o general Carter Ham, chefe do Comando África dos EUA (Africom), para quem, se não for combatido, o grupo poderá vir a representar uma “ameaça global” (sic). Alguns dos líderes da AQMI e grupos correlatos remontam aos mujahidin organizados pela CIA na Guerra do Afeganistão de 1979-1989, como é o caso de Mokhtar Belmokhtar, líder da Brigada Mascarada e candidato à nova bête noire terrorista internacional, que assumiu a autoria da sangrenta captura do complexo gasífero de In Amenas, na Argélia.

Como sabe qualquer observador minimamente atento dos acontecimentos posteriores a 11 de setembro de 2001, com frequência, grupos de extremistas islâmicos de diversos matizes têm sido infiltrados e manipulados – quando não criados – por serviços de inteligência de vários países, para apoiar as mais diversas agendas.

Em entrevista ao jornal Le Soir d’Algerie (14/01/2013), o professor de Ciência Política da Universidade de Argel e coronel da reserva do Exército argelino, Ahmed Adimi, disparou:

(…) As potências ocidentais têm usado esses pretextos para intervir e adotar resoluções [nas Nações Unidas] para justificar as suas operações militares… De fato, a operação francesa pode parecer legal, já que resultou de um pedido do presidente interino do Mali. Porém, é importante lembrar que o atual governo subiu ao poder num golpe. Quanto à intervenção, ela era, certamente, previsível, mas os franceses precipitaram os acontecimentos… Esses grupos terroristas têm sido manipulados por potências estrangeiras… Os franceses sabiam que a intervenção deles na Líbia provocaria um retorno dos militares tuaregues pró-Kadafi ao Mali. Eles também tinham previsto o derramamento dos estoques de armamentos líbios entre os bandos da franja do Sahel. (…)

Como em outras partes da África, o drama do Mali, colocado entre o Cila do subdesenvolvimento e o Caríbdis das intervenções externas, não poderá ser enfrentado com uma nova onda de colonialismo, sejam quais forem as suas nuances. Para o continente, as variantes oriental e ocidental que lhe estão sendo oferecidas não serão capazes de proporcionar respostas adequadas às suas necessidades de incorporação às modernas economias do século XXI, de uma forma digna e que respeite os direitos fundamentais dos seus povos. Pelo menos uma comentarista, a diretora-executiva da ONG National Security Network de Washington, Heather Hurlburt, captou a essência do fato. Escrevendo no jornal The Guardian de 15 de janeiro, sobre a ajuda estadunidense ao país, disse ela:

Teremos semanas, se não meses, para falar sobre o que deu errado militarmente, no último ano, por que os planejadores estadunidenses falharam em antecipar e se preparar, seja para o derramamento islamista a partir da Líbia, ou para o golpe. Talvez, alguns se perguntem se os resultados não teriam sido melhores, caso os EUA não tivessem contratado toda a sua assistência militar junto a assessores externos [privados – N.dos E.], enquanto os seus assessores no serviço ativo estavam espalhados pelo Iraque e o Afeganistão.

Mas esses argumentos não estão enfocados. O governo civil do Mali e seus apoiadores ocidentais tiveram uma década para construir instituições, civis e militares, que pudessem se contrapor, tanto ao apelo como ao poder militar dos extremistas. A tarefa era difícil, talvez impossível. Mas poderia ter sido tentada com muito mais ênfase, sem perdas de vidas e sem desestabilizar uma região inteira. Ela deveria ter sido tentada com mais ênfase, pela dignidade dos seres humanos envolvidos; ela também poderia ter sido tentada com mais ênfase, como uma medida contra o terrorismo [grifos no original].

A África tem um papel crucial a desempenhar na reconfiguração da ordem mundial em curso, mas não como mero repositório de recursos naturais e campo de novas aventuras coloniais. Além de um imperativo civilizatório, a elevação dos níveis de vida da vasta maioria da sua população a padrões civilizados pode proporcionar a criação de um poderoso vetor de apoio para a reconstrução da combalida economia mundial, com a abertura de um enorme mercado para os bens e serviços oferecidos pelos demais continentes. Como detentor de mais da metade das terras agricultáveis disponíveis no planeta, o continente será, também, fundamental para assegurar a segurança alimentícia da população do planeta, nas próximas décadas. Porém, nada disso ocorrerá dentro da geometria política e econômica vigente e, principalmente, sem uma reforma do sistema financeiro internacional – algo em que a Europa não se dispôs a enfrentar com a devida seriedade e representaria um apoio incomparavelmente superior mais digno do que a sua presente recaída neocolonialista.

Por isso, em vez de rearranjos internos do processo da “globalização”, como são grande parte dos investimentos que lhe estão sendo oferecidos, para a implementação de atualizações do modelo colonial das “plantations”, a África necessita de verdadeiros parceiros para o desenvolvimento dos seus potenciais humanos e naturais, que lhe ofereçam valores justos por suas matérias-primas e apoio para uma modernização baseada na industrialização e agregação de valor aos seus recursos.

A gravidade da crise global exige nada menos que a coragem de se retomar e implementar as lições de iniciativas como a Carta dos Direitos e Deveres Econômicos dos Estados, aprovada em 1972 pelas Nações Unidas, e a encíclica Populorum Progressio, do papa Paulo VI, de 1968, com sua poderosa mensagem de que o desenvolvimento é o novo nome da paz.

Com base nessa reorientação para o estabelecimento de uma nova ordenação mundial, baseada em princípios condizentes com o bem comum, a justiça e a soberania das nações, o Brasil (e, por extensão, a América do Sul) deveria se inspirar para uma ação diplomática em favor da modernização das nações africanas, enfatizando a sua eletrificação e industrialização. Apenas com uma tal orientação, será possível se estabelecer um divisor de águas entre o fim de uma era colonial e o início de uma nova fase do processo civilizatório global.

x

Check Also

Santa Sofia e Jerusalém, duas faces da mesma moeda do “choque das civilizações”

Em 10 de julho, o presidente turco Recep Erdogan anunciou em cadeia nacional de televisão ...