Mundurukus declaram “guerra” às hidrelétricas no Tapajós

O desdobramento dos projetos hidrelétricos no rio Tapajós tem o potencial de representar um marco nas políticas governamentais referentes aos grandes projetos de infraestrutura, no tocante à recorrente obstaculização destes projetos pelo movimento ambientalista-indigenista internacional. De um lado, o governo federal parece disposto a levar os projetos adiante a todo custo; de outro, os indígenas da região ameaçam “guerra” contra eles. O resultado do embate poderá definir a guerra irregular de quase três décadas, que tais forças exógenas travam contra o desenvolvimento do Brasil, com a insidiosa manipulação das causas ambientais e indigenistas para os seus propósitos maldisfarçados.

Entre os dias 19 e 22 de fevereiro, representantes dos povos munduruku e kayabi, do Pará, estiveram em Brasília para participar de reuniões com órgãos do governo federal, com a finalidade de pressionar por maiores concessões aos seus interesses. O primeiro encontro teve lugar no dia 19, nas dependências do Ministério da Justiça, e contou com a presença de 17 líderes indígenas, a presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marta Maria Azevedo, ministros de Estado e e representantes de instituições relacionadas à questão indígena (Funai, 22/02/2013).

Na ocasião, ficou decidido que, até o final do ano, a Funai deverá finalizar os estudos de identificação e delimitação das terras indígenas Sawré Muybu, Sawré Juybu e Sawré Pompu, ocupadas pelos mundurukus. Além disso, foi estipulado um prazo (final de março) para a conclusão do plano de fiscalização e vigilância das Terras Indígenas Sai Cinza (PA) e Munduruku (MT).

Entretanto, os fatos mais estarrecedores ocorreram no dia 21, quando um grupo de mundurukus foi ao Palácio do Planalto, exigir que ninguém menos que o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, assinasse um termo de recebimento de exigências diversas ao governo brasileiro. Na ocasião, um tenso diálogo teve lugar entre os índios e o ministro: os mundurukus se recusaram a entrar no Palácio do Planalto para dialogar sobre qualquer possibilidade de instalação de novas usinas hidrelétricas do chamado Complexo Tapajós (O Globo, 22/02/2013).

O projeto consta no balanço da segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), com um orçamento previsto de R$ 23 bilhões. Diante da recusa dos índios em dialogar, o ministro Carvalho praticamente se humilhou diante dos líderes indígenas, para que se dignassem a se reunir com representantes do governo e ouvir a proposta de negociação do Planalto.

Na ocasião, Carvalho afirmou aos índios: “Vocês têm duas opções: uma delas é inteligente: é dizer ok, nós vamos acompanhar, vamos exigir direitos nossos, vamos exigir preservação disso e disso e benefícios para nós. A outra é dizer não. Isso vai virar, infelizmente, uma coisa muito triste, e vai prejudicar muito a todos, ao governo, mas também a vocês. A hidrelétrica a gente não faz porque a gente quer, (mas) porque o país precisa.”

Um dos indígenas respondeu ao ministro, afirmando que o país também precisa da natureza, e declarou que os índios não estavam dispostos a negociar sobre a construção de hidrelétricas. O ministro, então, insistiu novamente para que os índios entrassem no Planalto, e afirmou: “Ninguém vai falar de hidrelétrica, não. Ninguém vai enganar vocês. Eu não engano ninguém, eu falo as coisas com clareza, esta é a minha preocupação. Vocês já foram enganados muito tempo, séculos”. O representante indígena, segundo a transcrição do jornal, teria respondido: “Nós vamos subir, você ler o documento (do governo), vai assumir o compromisso e em nenhum momento vai falar de hidrelétrica”. Ao que Carvalho teria respondido: “Tá bom. A casa é de vocês.”

A postura hostil dos indígenas se manteve na reunião que seguiu, que contou com a participação de representantes da Advocacia-Geral da União (AGU), Ministério da Saúde e Funai. Os mundurukus receberam dos representantes do governo um documento intitulado “Encaminhamentos”. Dividido em sete pontos, visava firmar um compromisso entre os índios e o governo para uma nova reunião, de modo a tratar sobre o processo de consulta aos povos indígenas do Tapajós; além da criação de um grupo de trabalho para acompanhar a resolução, e outras medidas de manutenção do diálogo para ações prioritárias.

Devido ao fato de o documento fazer referência a uma “consulta prévia”, os mundurukus passaram a fazer acusações contra Carvalho e se negaram a assinar o documento. “Ele (ministro Gilberto Carvalho) mentiu e tentou nos enganar. Em nenhum momento da nossa vinda foi para encaminhar consulta prévia de usina hidrelétrica. Isso não era encaminhamento. Não tem diálogo sobre usina. É um desrespeito com nosso povo”, declarou Waldelirio Manhuary Munduruku (CIMI, 22/03/2013). No dia seguinte, emissários do ministro ainda fizeram as últimas tentativas de convencer os índios a assinar o referido documento, sem sucesso.

Outro fato ilustrador da prepotência dos líderes mundurukus foi a reunião ocorrida no dia 22, na sede do Ministério de Minas e Energia, que contou com a presença do ministro da pasta, Edson Lobão, e do diretor de geração da Eletrobrás, Valter Luiz Cardeal. Na ocasião, Valdemir Munduruku afirmou: “Os discursos são lindos. Vocês se dizem nossos amigos e que nada de ruim vai acontecer, mas a realidade é sempre diferente. Estive em Altamira (PA), na região da UHE Belo Monte. É prostituição, índios bêbados pela rua, sem hospital e os parentes brigando entre si por conta do dinheiro que vocês distribuem. Não viemos aqui para tratar de usina, mas do massacre da Polícia Federal contra o nosso povo [referência à Operação Eldorado, realizada pela Polícia Federal na região de Alta Floresta (MT), em 7 de novembro de 2012, que resultou na morte de um indígena, em confronto com os policiais – N. dos E.].”

Lobão retirou-se da reunião antes do final, assustado com a agressividade dos indígenas. Após a saída do ministro, o cacique Arnaldo Kaba declarou: “Ele (Lobão) é mentiroso. O interesse dele é em construir as usinas. Pouco se importa com os indígenas, com a natureza, mas o Munduruku vai lutar para proteger suas terras sagradas e a natureza.”

Embora não se possa tomar ao pé da letra a ameaça de “guerra” dos indígenas – como outros, manipulados pelo aparato indigenista internacional contra os projetos de infraestrutura -, o governo federal e a sociedade brasileira, em geral, deveriam aproveitar a oportunidade e o repto, para um confronto definitivo com os mentores dessa insidiosa campanha contra o desenvolvimento do País.

One comment

  1. Quem redigiu a papelada dos índios, quem pôs os termos? Tem agência internacional por trás disso.

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