México: EUA tentam construir gabinete do próximo presidente

Para saber como procedem os Estados Unidos no mundo, temos que conhecer as suas intervenções militares e políticas e as suas relações exteriores, pelo menos nos últimos 150 anos. No México, o país mais agredido pelos EUA, nossa história nasce com o imposicionismo, o intervencionismo e o militarismo dos Estados Unidos.

Desde a independência, ou seja, desde antes de 1821, já havia agentes especiais dos Estados Unidos no nosso país, o mais relevante deles sendo Joel Robert Poinsett, de triste memória. Ainda necessitamos de um historiador que nos descreva as consequências da sua atuação para o México. No meu recém-lançado Libro Verde de las Fuerzas Armadas: los Presidentes de México y los Militares, exponho as suas andanças antes da Independência mexicana.

Desde a Independência, têm havido permanentes intervenções diplomáticas, políticas e militares dos Estados Unidos, a um nível tal que, após 200 anos de história “independente”, nas decisões que se tomam no nosso país, nos momentos políticos mais graves, os EUA e os seus diplomatas se fazem presentes.

A última grave intervenção diplomática, política e militar é a nefasta Iniciativa Mérida [tratado de segurança firmado entre o México e os EUA, também conhecido como “Plano México” – n.e.], que fará com que o mandato do presidente Felipe Calderón seja recordado como o dos mais de 60 mil mortos.

As Forças Armadas Mexicanas são, apesar do que digam os esquerdistas que estão em dezenas de organizações e partidos políticos, o último bastião da defesa da pátria, do território, dos recursos estratégicos e do povo do México. Dividi-las e desestabilizá-las, somente pode provocar problemas e agravos ao conjunto do que conhecemos como a mexicanidade. Todavia, isso não significa que sejam intocáveis, pois quem comete delitos nas Forças Armadas sofre as consequências.

Quatro anos depois da aceitação, por parte do presidente da República, da Iniciativa Mérida, os resultados estão à vista:

– o país teve mais de 60 mil mortes violentas;

– existem milhares de sequestrados e desaparecidos;

– há centenas de mortos ainda não identificados;

– milhares de mexicanos, essencialmente, os situados na região de fronteira, têm atravessado as divisões fronteiriças, comprado imóveis e estabelecido negócios nos EUA, provocando um esvaziamento populacional e econômico ainda inquantificável e não estudado, em grandes áreas rurais e cidades do norte da nossa República;

– os Estados Unidos conseguiram assumir o controle de grande parte dos setores governamentais responsáveis pela segurança pública e pela aplicação da Justiça, via penetração em oficinas da Procuradoria Geral da República e da Secretaria de Segurança Pública;

– os Estados Unidos controlam completamente a Procuradoria Geral da República, órgão onde despacha um indivíduo que permitiu à embaixada dos EUA se intrometerem na SIEDO [Subprocuraduría de Investigación Especializada en Delincuencia Organizada – órgão da Procuradoria Geral da República, dedicado ao combate ao crime organizado – n.e.] e, justamente por isso, condecorado em Washington, além de ser nomeado procurador no México;

– os Estados Unidos promoveram a construção de um centro de espionagem na capital da República do México, em coordenação com a Secretaria de Segurança Pública do país. Isto permitiu à nação estadunidense, não apenas obter informações criminais, mas também políticas e de outras fontes, que sirvam aos seus interesses. Esta estrutura permite aos EUA inteirar-se de toda a imundície que existe no México, recurso que empregam contra o nosso país;

– os EUA conseguiram consolidar a presença das suas agências de inteligência em todo o México, tais como a CIA (Agência Central de Inteligência), a DEA (Agência Antidrogas), o FBI (Departamento Federal de Investigação) e outras, assim como do próprio Pentágono, de forma irrestrita;

– os Estados Unidos conseguiram autorização para sobrevoar o território mexicano com aviões que eles controlam, e que lhes têm permitido exercer ações em um país supostamente soberano, como as operações contra os militares supostamente envolvidos com o narcotráfico, encabeçadas pelo general Tomás Ángeles Dauahare;

– a colocação, no México, de dezenas de milhares de armas e milhões de cartuchos, como política de Estado dos EUA, o que pode ser considerado como uma intervenção militar. No artigo do El Universal de 17 de maio de 2012, são relatados os seguintes fatos: “Fontes do Departamento de Justiça revelaram que há mais militares e marinheiros mexicanos sob investigação dos Estados Unidos e do México. O funcionário, que pediu anonimato, assinalou que a DEA obteve informação de que alguns militares e marinheiros tem colaborado com os Zetas e os cartéis do Golfo, Sinaloa e Juárez. A fonte afirmou que tem se mantido a premissa de que são inocentes até que se prove o contrário”.

Mais claro, nem a água. A Iniciativa Mérida, o maior erro político, diplomático e militar do presidente Felipe Calderón, que tornou o seu governo o mais negro da história do México, tem permitido aos estadunidenses se encarregarem do planejamento das atividades de segurança pública e combate ao crime organizado e ao narcotráfico, no nosso território, tanto na Procuradoria Geral da República como na Secretaria de Segurança Pública.

Na sucessão presidencial que ocorrerá no próximo dia 1° de julho, pode-se assegurar de antemão que já estão preparando o gabinete do sucessor de Calderón, seja quem for.

Tomando como base esta direção, alguns candidatos presidenciais já disseram que apoiam aumentar os efetivos disponíveis, atualmente em número já desproporcional, da Secretaria de Segurança Pública, para o próximo mandato presidencial. Isto, sem fazer qualquer avaliação dos resultados e, tampouco, dos custos de todas as instituições que participam na luta contra o narcotráfico e o crime organizado.

No que se refere à política de segurança, os EUA tentam impor, a quem ganhar a disputa presidencial deste ano, a atual Procuradoria Geral da República e a sua equipe. Por isto, os Estados Unidos têm implementado a operação contra os militares, empregando delinquentes comprovados, que, mediante o sistema de “testemunha protegida”, vivem não só praticando os seus delitos, como seguem recebendo salários do governo dos EUA ou do México, que praticamente copiou tal sistema. As testemunhas protegidas sempre responderão àqueles que os sustentam e remuneram.

Outra área onde os EUA já têm a sua vitória assegurada é a Secretaria de Fazenda e Crédito Público [equivalente ao Ministério da Fazenda brasileiro – n.e.] e o Banco Central do México, úteis para o controle da economia e do pagamento das taxas de juros da dívida “que o governo mexicano tem com os seus banqueiros”, que, neste ano, será pelo menos de 50 bilhões de dólares – com o que poderíamos, facilmente, construir cinco refinarias.

O presidente Felipe Calderón faria um ato quase heróico, se declarasse a Iniciativa Mérida como a responsável pela morte de milhares de mexicanos. Porém, não poderia fazê-lo sem terminar com o seu governo; pois deixou que os gringos entrassem por toda a casa e conhecessem toda a sujeira nela, para, então, chantageá-lo.

* O autor é general-de-divisão reformado do Exército Mexicano. Este artigo é uma condensação do publicado em vários órgãos da imprensa mexicana, em 23 e 24 de maio últimos.

x

Check Also

Brasil: o teto ou a vida

Em um editorial publicado em 27 de julho (“Urgência e oportunismo”), o tradicional jornal O Estado ...