López Obrador propõe a Trump uma nova aliança para o progresso

Em uma carta divulgada em 23 de julho, o presidente eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, propôs ao seu colega estadunidense Donald Trump o início de uma nova era nas relações bilaterais, baseada na prosperidade econômica, como eixo da segurança coletiva e dos entendimentos entre as duas nações.

A carta reitera os pontos essenciais discutidos na conversa telefônica entre ambos, logo após o anúncio da vitória de López Obrador (conhecido como AMLO) nas eleições de 1° de julho, e na reunião entre altos assessores dos dois presidentes, na Cidade do México,  realizada el 14 de julio. Nela, o presidente eleito propõe “iniciar uma nova etapa na relação entre o México e os EUA, baseada no respeito mútuo e na identificação de áreas de entendimento e interesses mútuos”. Entre elas, destaca o comércio, migração, desenvolvimento e segurança.

Curiosa e significativamente, López Obrador ressalta que tanto ele como Trump têm condições para estabelecer acordos mutuamente benéficos, inclusive, pelo fato de ambos terem sido eleitos contra os desígnios dos respectivos establishmentsnacionais:

 (…) Me anima o fato de que ambos sabemos cumprir o que dizemos e temos enfrentado as adversidades com sucesso. Conseguimos colocar os nossos eleitores e cidadãos ao centro e deslocar o establishment ou regime predominante. Tudo está disposto para se iniciar uma nova etapa na relação das nossas sociedades, com base na cooperação e na prosperidade. Façamo-la.

O programa proposto por ele é uma espécie de versão local do New Deal, o vasto programa de investimentos públicos com o qual o presidente Franklin Roosevelt enfrentou os efeitos da grande depressão deflagrada nos EUA pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, a partir de 1933.

De início, López Obrador observa um fato pouco conhecido, o de que os dois países abrigam reciprocamente as maiores comunidades de seus expatriados. De fato, se mais de 10 milhões de mexicanos vivem nos EUA, quase um milhão de estadunidenses vive no México, principalmente, idosos e, segundo o próprio Departamento de Estado, mais de 90% deles em situação irregular. “Considero que o entendimento que lhe proponho nesta carta nos deveria conduzir a um tratamento digno e respeitoso dessas comunidades”, escreve.

No tocante ao crucial Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), alvo de ferozes críticas de Trump, López Obrador  propõe um esforço dos três países signatários – EUA, Canadá e México – para concluir a renegociação proposta por Trump, para não prolongar as incertezas sobre o acordo.

Para os problemas da emigração, a sua abordagem será “conseguir que os mexicanos não tenham que emigrar por pobreza ou violência”. Para tanto, promete que seu governo “levará a cabo o maior esforço jamais realizado no México”.

“O novo projeto de nação que colocaremos em prática consistirá em desterrar a corrupção, abolir a impunidade, atuar com austeridade e destinar tudo o que se poupe para financiar o desenvovimento do país”, afirma.

E sinaliza:

A partir de 1° de dezembro deste ano, disporemos de maiores investimentos públicos, os quais serão utilizados como capital semente para fomentar a iniciativa privada e destinar orçamentos significativos à produção, à criação de empregos, à reativação dos setores agropecuário e energético, à educação, à cultura e à saúde, assim como ao financiamento do desenvolvimento regional do Sul ao Norte, colocando em prática projetos para reter a população em suas cidades, ampliando oportunidade de trabalho e bem-estar.

Mas é nos projetos e programas específicos que a proposta remete a um “Nuevo Acuerdo” de inspiração rooseveltiana, como sugerem os citados na carta:

1) Plantação de um milhão de hectares de árvores frutíferas e para a indústria madeireira, no Sudeste, tanto para fins de recuperação ambiental como para a criação de 400 mil emprgos.

2) Fomento do turismo no Caribe e nas zonas arqueológicas das culturas olmeca e mais, com a construção de uma ferrovia de alta velocidade para a rota Cancún-Tulum-Bacalar-Calakmal-Palenque.

3) Criação de um corredor econômico e comercial no Istmo de Tehuantepec (no estado de Oaxaca, no Sudeste, a menor distância do território mexicano entre os oceanos Atlântico e Pacífico), com uma ferrovia de 300 km para o transporte de contêineres. O corredor deverá ser uma zona franca, “sem menoscabo da nossa soberania e com a participação dos setores público, privado e social”.

4) Ampliação da rede rodoviária e dos portos de Salina Cruz (Oaxaca, litoral do Pacífico) e Coatzacoalcos, no Golfo do México, com a instalação de novas fábricas na região.

5) Fomento do desenvolvimento ao longo de toda a faixa de fronteira com os EUA (3.185 km), com a criação de “uma zona livre ou franca, para promover investimentos e o desenvolvimento produtivo e tecnológico, bem como a criação de empregos. Esta será a última cortina para reter trabalhadores em nosso território”.

Essas zonas francas terão regimes tributários especiais, com a redução à metade das tarifas atualmente cobradas nos impostos de renda e de valor agregado, além da equiparação geral dos demais impostos e preços de combustíveis aos níveis cobrados do lado estadunidense da fronteira, além da elevação do salário mínimo.

Em todas as cidades da faixa fronteiriça, serão empreendidos planos de desenvolvimento urbano, “incluindo a ordenação do uso do solo, a introdução de água potável, drenagem, pavimentação de ruas, construção de moradias, creches, unidades esportivas, espaços culturais, escolas, hospitais e outras obras e serviços”.

Com essas e outras mudanças, López Obrador diz a Trump estar seguro de que “poderemos chegar a acordos para enfrentar juntos, tanto o fenômeno migratório como o problema da segurança fronteiriça, com base na cooperação para o desenvolvimento e sob a premissa de que a paz e a tranquilidade são frutos da justiça. Tudo isso com absoluto respeito aos direitos humanos”.

Ademais, como já havia feito na conversa telefônica entre ambos, ele se propõe a incluir os países centro-americanos em um grande plano de desenvolvimento, para evitar que seus habitantes se vejam obrigados a buscar fora oportunidades de trabalho, principalmente, nos EUA:

(…) Se neste plano participarmos os EUA e o México e incluirmos os países centro-americanos, aportando cada um de acordo com a dimensão de sua economia, poderíamos reunir uma quantidade considerável de recursos para o desenvolvimento da região, dos quais se destinariam 75% a financiar projetos para a criação de empregos e o combate à pobreza, e os 25% restantes ao controle das fronteiras e à segurança.

Desse modo, reitera, estariam sendo atendidas as causas que originam o fenômeno migratório, ao mesmo tempo em que se combateria o trânsito ilegal de mercadorias, armas e o tráfico de drogas, “o que, consideramos, seria a forma mais humana e eficaz de garantir a paz, a tranquilidade e a segurança de nossos povos e nações”.

A resposta de Trump, divulgada dois dias depois, foi lacônica, destacando apenas que está disposto a trabalhar em conjunto, que é de interesse dos EUA ter no México um vizinho forte e insistindo na necessidade de uma rápida renegociação do NAFTA.

De qualquer maneira, será interessante acompanhar a implementação do plano, que poderá representar uma autêntica revolução no país e sinalizar exemplos efetivos para outros países da região.

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