Lixo sem rumo gera prejuízo anual de R$ 1,5 bilhão à saúde

lixão

O Sistema Único de Saúde (SUS) gasta aproximadamente R$1,5 bilhão por ano com doenças causadas pela destinação incorreta do lixo. O dado consta do mais recente estudo sobre o tema, produzido pela ONG Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA, na sigla inglesa). O levantamento aponta, ainda, que cerca de 75 milhões de brasileiros (37% da população) têm o seu lixo descartado de forma inadequada, gerando impactos ambientais e na saúde pública.

A principal forma de disposição de lixo, no País, ainda são os lixões. Entre os problemas acarretados por eles, estão emissões de substâncias tóxicas, incluindo o dióxido de carbono, metano, cádmio e benzeno (estes últimos podem provocar câncer, com exposições prolongadas). Os principais impactados são as populações pobres que vivem nas cercanias desses depósitos precários, inclusive os que trabalham coletando materiais recicláveis e os funcionários da limpeza urbana. Os autores do estudo destacam ainda a poluição do ar e a contaminação de recursos hídricos, como outros danos consideráveis causados pelos lixões.

O relatório estima que, no período analisado, entre 2010 e 2014, o prejuízo ambiental causado pelos lixões foi equivalente a R$ 8,4 bilhões. Segundo o vice-presidente do ISWA, Carlos Silva Filho, o descarte incorreto de resíduos sólidos e a grande incidência de determinadas doenças são problemas indissociáveis: “Contabilizamos não só os custos para tratamento dos problemas de saúde das pessoas, provocados principalmente pela existência e manutenção dos lixões, mas também o impacto de perdas de dias de trabalho por afastamento médico, os custos psicossociais causados aos moradores das áreas próximas aos lixões e os danos ambientais motivados por essas unidades regulares (O Globo, 30/09/2015).”

A ISWA estima que a inadequada destinação de resíduos sólidos poderá gerar prejuízos de R$13-18 bilhões, no período 2016-2021. Entretanto, os pesquisadores reconhecem que tal prognóstico não considera o impacto do possível fechamento de lixões ao longo dos próximos anos.

Por sua vez, o presidente do Comitê Técnico e Científico da ISWA e coordenador do estudo, Antonis Mavropoulos, ressaltou que os lixões estão entre os principais desafios a ser resolvidos em âmbito internacional: “Eles estão sempre localizados onde as pessoas não têm voz ativa (…). Os catadores de recicláveis podem até fazer alguma seleção, mas não conseguem eliminar os perigos de contaminação.”

Lixo amazônico

Diariamente, cada habitante de Manaus (AM) produz em média 1,27 kg de lixo, resultando num total de 2.621 toneladas de resíduos sólidos produzidos por ano. No entanto, somente 1,2% desse volume passa pela etapa de reciclagem, o que priva a cidade de movimentar até R$10 milhões por ano com o reaproveitamento de materiais recicláveis, que, atualmente, têm o aterro por destino. Esta é uma das conclusões de outro estudo oportuno, “Perspectivas 2014”, publicado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), que apresenta também uma avaliação da situação dos aterros e lixões do Amazonas.

“Muita gente pensa que o problema termina quando ela coloca a sacolinha pra fora do portão, mas não: é ali que ele começa”, afirmou Vanderlei Soares Coelho, que trabalha com coleta e reciclagem de materiais no lixão do município de Novo Airão (AM) há mais de duas décadas. O estado conta com muitos lixões, espalhados pelos 61 municípios do interior, que enfrentam uma situação crítica devido ao grande acúmulo de resíduos e à falta de investimentos (A Crítica, 2/10/2015).

O estudo da Abrelpe aponta que a geração de lixo no País tem crescido a um ritmo bem acima do da população: entre 2010 e 2014, o volume de lixo cresceu 29%, contra 6% da população, no mesmo período. O documento, citando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da própria Abrelpe, revela que cada habitante do Amazonas produziu, em média, 0,936 quilo de lixo por dia.  Segundo a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana e Serviços Públicos (Semulsp), a média mensal de resíduos sólidos produzidos em Manaus cresceu 20,6% nos últimos dez anos.

Sendo a única cidade dotada de um aterro sanitário, Manaus está em situação crítica, tal como apontado por um estudo da empresa Fral, publicado no ano passado. Segundo o titular da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), Antônio Stroski, “a situação é alarmante. Manaus é o único município do Amazonas que possui aterro sanitário, e ele está chegando perto do limite. No interior, na maior parte das cidades não se tem ideia do que fazer”.

Segundo o titular da Semulsp, Paulo Farias, a proposta da prefeitura é terceirizar a destinação dos resíduos sólidos nos próximos cinco anos: “As grandes cidades não constroem mais aterros próprios, elas contratam. A prefeitura vai licitar serviços de disposição final de resíduos. Isso, com certeza, antes do final da vida útil do nosso aterro.”

Atualmente, 2018 é o prazo final estabelecido pela Política Nacional de Resíduos Sólidos como data limite para as prefeituras de capitais e Regiões Metropolitanas do país se adequarem à nova legislação – o prazo original era para agosto do ano passado.  Dentre as exigências dessa políticas estão a implantação de aterros sanitários e a instituição de coleta seletiva.

No entanto, esse objetivo ainda está longe de ser cumprido no Amazonas, mesmo em Manaus. O secretário da Semulsp, Paulo Farias, destacou, no entanto, que a expansão da reciclagem depende das condições e da demanda da indústria: “A reciclagem não é só coleta seletiva, ela depende da indústria de transformação, que é outro gargalo. É preciso que haja a devida capacidade de processamento para que esse potencial da reciclagem seja concretizado.”

Os dados da Abrelpe e do IBGE mostram que a situação no interior do estado é ainda mais grave, com cerca de metade (46,9%) dos municípios sem coleta seletiva no ano passado. Além disso, nos que possuem alguma iniciativa nesse sentido, o trabalho é feito por trabalhadores que coletam material reciclável em condições muito precárias, trabalhando por longas jornadas em meio a montanhas de lixo e sem qualquer proteção especial.

Um dos casos mais críticos é o de São Paulo de Olivença (a 988 quilômetros de Manaus), onde a prefeitura não realiza nem mesmo a coleta do lixo doméstico urbano. Segundo a engenheira ambiental da Associação Amazonense de Municípios (AAM), Delma Brasil, “São Paulo de Olivença não tem lixão, porque lixão é quando a prefeitura coleta o lixo e despeja num lugar irregular. A prefeitura, lá, não faz sequer coleta de lixo, só varrição e limpeza das ruas. O lixo domiciliar é queimado e jogado no rio”.

O secretário estadual do Meio Ambiente, Antônio Stroski, mostrou-se mais preocupado com o esgotamento dos lixões existentes: “A pior situação é em Tabatinga, onde o lixão já está muito além da capacidade e encontra agora limitações físicas. Ele faz fronteira com um assentamento, uma terra indígena, uma área de proteção e terras do exército. Não tem para onde crescer, está crescendo para cima. É preocupante. Sem falar na presença de catadores estrangeiros, inclusive crianças brasileiras, peruanas e até colombianas.”

De acordo com Stroski, os municípios de Itacoatiara, Tefé e Parintins também se encontram em situação crítica.

  1. dos E. – Enquanto isso, o País desperdiça tempo, dinheiro e recursos humanos preciosos, com ameaças inexistentes e falsas emergências globais, como o aquecimento global.
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