“Hegemosfera” atiça III Guerra Mundial

Em 26 de abril, os ministros da Defesa de 42 países, número maior que os participantes da II Guerra Mundial, além do secretário-geral da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), se reuniram na Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, para “ajudar a Ucrânia a vencer a luta contra a injustificada invasão da Rússia”, como colocou o anfitrião, o secretário de Defesa estadunidense Lloyd Austin. O encontro resultou na formação do Grupo Consultivo de Defesa da Ucrânia, aliança de nações atreladas à hegemonia anglo-americana, à qual se aplica o rótulo coletivo de “hegemosfera”.

Na ocasião, dirigindo-se ao ministro da Defesa Oleksii Reznikov, Austin comparou a resistência ucraniana à luta dos Aliados contra o nazifascismo: “Vocês sabem, a Batalha de Iwo Jima levou 36 dias. A Batalha do Bolsão durou 40 dias. E, agora, a Ucrânia tem rechaçado as forças militares russas por 62 dias (US Department of Defense, 26/04/2022).”

E prosseguiu com uma retórica da Guerra Fria: “A sua resistência tem trazido inspiração ao mundo livre, uma determinação ainda maior à OTAN e glória à Ucrânia.”

Para que não ficassem dúvidas sobre o que estava em jogo, enfatizou: “Putin nunca imaginou que o mundo se alinharia atrás da Ucrânia tão rápida e decididamente.” A invasão russa, ressaltou, “é uma afronta à ordem internacional baseada em regras” e “um desafio aos povos livres em toda parte”.

Como se sabe, a expressão “ordem internacional baseada em regras” é um eufemismo usado e abusado pelas elites estadunidenses para rotular a sua agenda hegemônica unipolar, que enfrenta a ameaça fatal da emergência do marco cooperativo e não hegemônico estabelecido pela China e a Rússia em torno da integração do eixo eurasiático como o novo centro de gravidade geopolítico-geoeconômico do planeta.

Da mesma forma, o secretário, que trocou temporariamente um lucrativo cargo na diretoria da Raytheon pelo comando do Pentágono, deixou claro o que esperava dos “aliados”: “Eu gostaria que todo este grupo saia hoje com um entendimento comum e transparente dos requisitos de segurança de curto prazo da Ucrânia.”

Washington exige e dá o exemplo. Além dos US$ 11 bilhões em equipamentos e serviços militares já destinados a Kiev, o presidente Joe Biden assinou uma reedição da Lei de Empréstimos e Arrendamentos da II Guerra Mundial para facilitar as remessas à Ucrânia e o Congresso aumentou de US$ 33 bilhões para 40 bilhões o megapacote de ajuda futura. O montante de US$ 51 bilhões seria suficiente para colocar a Ucrânia entre os dez maiores orçamentos militares do planeta, mas há dois senões: 1) a maior parte desse dinheiro sequer chegará a Kiev, destinando-se às grandes empresas fornecedoras do “complexo de segurança nacional” estadunidense (Lockheed Martin, Raytheon, General Dynamics etc.), ou será desviado pelos oligarcas que controlam o governo do presidente Volodymyr Zelenski juntamente com os grupos ultranacionalistas; 2) esse Himalaia de dólares não é doação e terá que ser reembolsado pela Ucrânia, cujo Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 não passou de US$ 165 bilhões e, com a economia arrasada pela guerra, terá dificuldades gigantescas para pagar a dívida. Recorde-se que soviéticos e britânicos levaram décadas para pagar pelos envios do “Arsenal da Democracia” da II Guerra Mundial (perto de US$ 1 trilhão em valores atuais), mesmo com grandes descontos.

Presentes em Ramstein, estavam os representantes dos dois países nórdicos que acabam de confirmar a candidatura ao ingresso na OTAN, Suécia e Finlândia, que optaram por abandonar a sua neutralidade tradicional para juntar-se ao último suspiro da “hegemosfera”. Apesar de o presidente turco Recep Erdogan já ter anunciado a intenção de vetar a admissão e de, possivelmente, vir a contar com o reforço da Croácia e da Hungria, que também não veem com bos olhos as novas candidaturas, será preciso esperar o desfecho da fortíssima pressão que cairá sobre os “rebeldes”.

Dois dias depois da ordem unida de Ramstein, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, explicitou a expectativa do comando “aliado”, afirmando que a guerra  “poderia se arrastar e continuar por meses ou anos”.

A essa altura, é evidente que a liderança russa não exagera quando afirma que o que está em marcha é uma virtual guerra mundial. Como afirmou nas Nações Unidas o representante russo Vassily Nebenzia: “Isso não é uma guerra na Ucrânia, ao contrário do que vocês dizem, isso é uma guerra por procuração do Ocidente coletivo contra a Federação Russa. É como se vocês estivessem aguardando avidamente este momento para deslanchar a repressão contra a Rússia. E se fôssemos falar de guerra mundial, sem dúvida, ela está sendo travada hoje no nível econômico (Sputniknews, 05/05/2022).”

Nebenzia observou que alguns países têm sonhado há tempos em transformar a Ucrânia numa cabeça de ponte para uma guerra contra a Rússia, desde que o país se tornou independente da antiga União Soviética, em 1992.

Referindo-se às sanções contra a Rússia, o próprio chanceler Sergei Lavrov fez considerações semelhantes: “O Ocidente coletivo declarou uma guerra híbrida total contra nós e é difícil prever quanto tempo ela irá durar, mas está claro que todos, sem exceção, sentirão as consequências (Anadolu Agency, 14/05/2022).”

Segundo ele, o mundo atravessa um momento decisivo, que determinará se haverá uma ordem mundial justa, democrática e policêntrica, ou se ela consistirá de um pequeno grupo de países empenhados em impor a sua vontade à comunidade internacional.

Sem meias palavras, disparou: “Agora, todos os países capazes de perseguir uma política independente estão sob ataque dos Estados Unidos. Aqueles que discordam serão punidos. Nós lutaremos.”

Lavrov disse esperar que a OTAN estenda as suas ambições à região do Indo-Pacífico e que a linha de defesa seguinte, após a estabelecida na Guerra Fria ao longo do Muro de Berlim, deverá situar-se na área do Mar do Sul da China.

E lamentou a opção europeia: “A União Europeia está perdendo sinais de independência, sacrificando a qualidade de vida e os interesses fundamentais dos europeus em favor dos EUA e da ordem mundial unipolar que eles estão promovendo.”

Em outro discurso, em 17 de maio, Lavrov reiterou que a Ucrânia é um peão “descartável em uma guerra híbrida total contra a Rússia”. Igualmente, lembrou que o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, já declarou que a vitória sobre a Rússia na guerra “terá que ser conseguida no campo de batalha (RT, 17/05/2022)”.

A rigor, o alcance quase global dos esforços das elites de Washington e suas satrapias para consolidar a sua hegemonia unipolar no período pós-Guerra Fria, se – ainda – não resultou em um conflito de grandes proporções, tem sido marcado por uma combinação de conflagrações bélicas e operações de guerra híbrida, a maioria envolvendo a OTAN (hoje com 30 membros). O recorde ficou com a recém-finda guerra de duas décadas no Afeganistão, que chegou a envolver nada menos que 50 países, embora a maioria em funções de apoio. A lista inclui ainda: Iugoslávia (1999); Iraque (2003); Líbia e Síria (2011); Ucrânia (2014).

A Federação Russa, um dos alvos primários dessa estratégia hegemônica, após repetidas advertências e pedidos de que seus interesses de segurança fossem respeitados, decidiu colocar um ponto final nas provocações em dois momentos decisivos: em 2014, após o golpe de Estado na Ucrânia, com a readmissão da Crimeia na Federação e o apoio às provícias separatistas de Donbass; e em 2015, com a intervenção militar na Síria, a pedido do governo de Damasco, que reverteu o que parecia ser a iminente tomada do país por um exército de mercenários jihadistas apoiado pela OTAN e pelas petromonarquias do Golfo Pérsico. A operação militar na Ucrânia, desfechada após a rejeição de todas as propostas de estabelecimento de um acordo de segurança mútua com as potências ocidentais e diante da iminência de um ataque de Kiev contra Donetsk e Luhansk, e em meio à já intensa guerra de sanções econômicas, constitui apenas a fase bélica mais recente – e mais perigosa – desse vasto conflito ainda sem nome.

Em essência, a III Guerra Mundial já começou, entre a “hegemosfera” e as forças que apóiam a multipolaridade cooperativa – resta saber quando e como terminará.

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