Haiyan/Yolanda: como (não se deve) explorar uma tragédia

Era mais que previsível que os integrantes da “indústria do aquecimento global” não perdessem tempo em manipular as informações sobre a trágica passagem do tufão Haiyan pelas Filipinas (onde recebeu o nome Yolanda), para promover os cenários catastrofistas com os quais alimentam a sua cruzada contra o carbono, que passou a constituir um meio de vida.

Como de hábito, o sensacionalismo intrínseco que costuma orientar as coberturas midiáticas de tais fenômenos se manifestou com plena força, na avaliação da potência do tufão. Na sexta-feira 8 de novembro, muitas manchetes e comentários já propalavam que se tratava do “tufão mais forte a tocar a terra já registrado” (vide, entre muitos outros, o Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão). Evidentemente, tais avaliações não foram feitas pelos jornalistas que se dedicam às colunas meteorológicas, mas extraídas de informações divulgadas por órgãos especializados e reproduzidas pelas agências noticiosas. Mas os exageros foram em proporções e quantidades que desafiam o mero bom senso.

No Brasil, o jornal O Globo se superou. Na edição do domingo 10 de novembro, uma cobertura bastante detalhada sobre a devastação causada pelo tufão foi arranhada por informações sobre ondas de 40 metros (sic) e ventos de 379 km/h. E os exageros se repetiram na edição da segunda-feira 11, sendo corrigidos apenas na do dia seguinte, que falava em ventos de “quase 300 km/h” e ondas de seis metros.

Com exceção das ondas de 40 metros (possivelmente, mal traduzidas de notas da CNN e da BBC, que falavam em alturas de 40 pés), os equívocos do jornal estiveram longe de ser exclusivos. Não obstante, uma simples consulta aos sítios dos órgãos competentes filipinos proporcionaria informações mais precisas. Por exemplo, um boletim meteorológico divulgado às 17h de sexta-feira (hora local, 7h de Brasília), pelo serviço meteorológico das Filipinas (PAGASA), falava em

ventos máximos sustentados de 215 km/h próximos ao centro [do tufão] e rajadas de até 250 km/h.

Sobre as ondas esperadas, um boletim da Avaliação Operacional Nacional de Desastres (NOAH), mencionava ondas de marés de até 5,3 m, sendo de 4,5 m na região de Tacloban, que se revelou a mais seriamente atingida pelo tufão.

Embora se possa entender que as velocidades de quase 400 km/h tenham resultado de uma conversão desatenta de quilômetros por hora para milhas por hora (250 mph = 400 km/h), desconhece-se onde os jornalistas da CNN, BBC, O Globo e outros órgãos foram buscar as suas ondas gigantes.

Um fator que contribuiu para exacerbar a exploração do impacto humano do tufão foi a coincidência com a realização da 19ª. Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-19), em Varsóvia. Na sessão de abertura, na segunda-feira 11, a secretária-executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), Christiana Figueres, abriu os trabalhos com um apelo melodramático:

Nós nos reunimos hoje com o peso sobre nossos ombros de muitas realidades que nos devem fazer refletir… [como] o impacto devastador do tufão Haiyan… As próximas gerações travarão uma batalha imensa e o que está em jogo aqui, neste estádio, não é um jogo… Não há duas equipes, mas toda a humanidade. Não há vencedores ou perdedores. Ou todos ganhamos ou todos perdemos (AFP, 11/11/2013).

Ainda mais incisivo foi (até certo ponto, compreensivelmente) o delegado filipino Saderev Sano:

Há apenas 11 meses, eu estive em Doha [sede da COP-18] com minha delegação e pedimos que o mundo abrisse seus olhos e encarasse a realidade. Naquela época, a República das Filipinas tinha sido atingida por uma tempestade catastrófica. Menos de um ano depois, não podia imaginar que um desastre muito maior viria… O que meu país está experimentando, como resultado deste evento climático extremo, é uma loucura. A crise climática é uma loucura… nós podemos interromper esta loucura, aqui em Varsóvia. (…)

(…) Para aqueles que continuam negando e ignorando a realidade das mudanças climáticos, eu os desafio a sair de suas poltronas confortáveis. Eles devem ir para as ilhas do Pacífico, do Oceano Índico e do Caribe, para ver os impactos do aumento do nível do mar, devem ir até o Ártico, onde as comunidades locais estão tendo que lidar com camadas de gelo que derretem cada vez mais rapidamente (Reuters, 11/11/2013).

Mais tarde, Sano se declarou em greve de fome durante os 12 dias da conferência, em solidariedade aos seus compatriotas atingidos pela catástrofe.

Rápido no gatilho, como de hábito, o Greenpeace divulgou em seu sítio brasileiro uma nota intitulada “Haiyan: destruição e necessidade de ação”, a qual afirma:

À primeira vista, as Filipinas e o Ártico podem parecer realidades distintas, no entanto, o que acontece em ambos lugares é a prova de que as mudanças climáticas já são realidade. Os tufões que atingem o Pacífico e a perda de gelo em extensão e volume no Ártico demandam ação imediata. Foi para chamar a atenção do mundo para a urgência do aquecimento global que 28 ativistas do Greenpeace protestaram pacificamente contra a exploração de petróleo no Ártico no dia 18 de setembro. Desde então, os ativistas e dois jornalistas foram presos pela Guarda Costeira Russa, estão detidos na Rússia e são sendo acusados de pirataria e de vandalismo. Se você também quer defender o frágil ecossistema Ártico e apoia a atitude dos nossos ativistas, clique no botão abaixo e envie uma mensagem à embaixada russa para que libertem nossos ativistas.

Na Polônia, como parte de sua campanha de propaganda para a COP-19, a ONG projetou mensagens como “as tempestades começam aqui”, nas chaminés de algumas usinas termelétricas (que fornecem mais de 80% da eletricidade do país).

Reforçando o coro, o climatologista alemão Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impactos Climáticos (PIK), disparou:

Como podem aqueles que fazem tudo o que podem para combater as medidas de proteção climáticas (sic) dormir, diante das imagens que estão vindo das Filipinas (Spiegel Online, 13/11/213)?

O Instituto Potsdam é um dos principais centros acadêmicos “aquecimentistas” da Europa. Até há pouco tempo, seu diretor Hans-Joachim Schellnhuber era o principal assessor científico do governo federal alemão, tendo sido também o inventor do famigerado “teto” de dois graus centígrados, o qual, supostamente, as temperaturas globais não poderiam superar, sob pena de provocar um descontrole geral na dinâmica climática. Tal número, que o próprio autor admite ser uma criação “política”, tem sido usado como base para todas as negociações internacionais sobre as questões climáticas.

Por outro lado, felizmente, vozes mais sensatas também se fizeram ouvir, proporcionando avaliações mais realistas do fenômeno e da tragédia por ele provocada, reforçando o que é senso comum entre especialistas e observadores não engajados na “indústria aquecimentista”: a dimensão dos impactos dos desastres naturais costuma ser inversamente proporcional aos níveis de desenvolvimento socioeconômico das populações atingidas. Porém, até mesmo países mais pobres, como Bangladesh, Índia e outros, têm aumentado a sua capacidade para enfrentar tais fenômenos, com ênfase em sistemas de previsão e na preparação de esquemas de evacuação das áreas de maior risco.

Há dois meses, o ciclone Phailin atingiu a costa leste da Índia, deixando cerca de 500 mil pessoas desabrigadas e causando 25 mortes. Em 1999, um ciclone de potência similar causou mais de 10 mil mortes na mesma região.

Em 2011, o ciclone Yasi atingiu a Austrália com ventos de até 285 km/h, mas os planos de evacuação funcionaram a contento e, apesar da grande destruição física, não se registrou nenhuma morte como consequência direta da sua passagem.

Quanto aos alegados efeitos do aquecimento global sobre o aumento da intensidade e da frequência dos furacões e ciclones tropicais, uma das principais bandeiras dos “aquecimentistas”, o Dr. Benny Peiser, presidente da Fundação para Políticas de Aquecimento Global (GWPF) britânica, um dos mais combativos opositores do catastrofismo climático, sintetiza:

No que diz respeito aos ciclones e tempestades tropicais, algo bastante notável ocorreu este ano. A temporada de furacões de 2013, no Atlântico, a qual se previa que seria mais ativa que o normal, se revelou ser um fiasco completo. Pela primeira vez em 45 anos, nenhum grande furacão atingiu a terra. Este ano também foi marcado pelo menor número de furacões desde 1982, e foi o primeiro desde 1994 em que nenhum grande furacão se formou. De fato, tem sido uma das temporadas de furacões mais fracas desde que começaram os registros modernos, há cerca de meio século, como explicam meteorologistas estadunidenses (GWPF, 12/11/2013).

No caso das Filipinas, os relatos dão conta de que, embora a chegada do tufão tenha sido prognosticada com a devida antecedência e parte das populações das áreas mais críticas tenha sido evacuada, muitos dos abrigos anteriormente preparados não resistiram à força dos ventos. Ademais, o resgate e a assistência às vítimas estão sendo consideravelmente prejudicados pela desorganização dos órgãos governamentais envolvidos, o que tem dificultado, inclusive, as iniciativas de ajuda externa.

Em síntese, à parte a sua exploração abjeta pelos catastrofistas, a tragédia filipina é mais uma de uma longa lista de outras decorrentes do subdesenvolvimento, e não de um suposto efeito das ações humanas sobre a dinâmica climática. Como já afirmou a respeito o engenheiro estadunidense Ingur Goklany, um respeitado especialista na avaliação de desastres:

Atualmente, muitos defendem que se gastem trilhões de dólares para reduzir os gases de efeito estufa antropogênicos, em parte, para reduzir hipotéticos aumentos futuros de mortalidade, induzidos pelo aumento de eventos meteorológicos extremos. O gasto de uma fração de tais somas com as numerosas prioridades maiores, em termos dos problemas de saúde e segurança que afligem a humanidade, proporcionaria retornos bem maiores para o bem-estar humano (GWPF, 15/08/2010).

Só podemos assinar embaixo.

x

Check Also

Neocolonialismo “verde” mostra suas garras

A União Europeia (UE) escancarou definitivamente a sua intenção de empregar os temas ambientais como ...