“Guerra ao carbono” – e vamos especular com ela

Enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU), em meio a tantos problemas realmente sérios no planeta, emprega os seus recursos para organizar uma “Cúpula do Clima”, emergem as evidências de que grande parte da motivação para tal articulação global é a velha busca de lucros.

Às vésperas da cúpula, realizada em 23 de setembro, em Nova York, cerca de 340 instituições financeiras globais, representando ativos de mais de 24 trilhões de dólares, apresentaram um pedido conjunto aos líderes mundiais para derrubarem as barreiras nacionais que impedem o estabelecimento de mercados de carbono de alcance global. Alegando estarem preparados para desenvolver planos de retirada de subsídios dos combustíveis fósseis e promover a transição para uma “economia de baixo carbono”, os investidores pediram aos líderes globais que proporcionem uma precificação do carbono que seja “estável, confiável e economicamente significativa”.

No documento, os signatários se queixam da demora na implementação de políticas públicas de combate às mudanças climáticas, que permitam a constituição de novos mercados de carbono no mundo. Com isto, afirmam, aumentam-se “os riscos para os nossos investimentos, como resultado dos impactos físicos das mudanças climáticas, além de ampliar a necessidade de medidas políticas mais radicais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”. O documento afirma ainda que uma “liderança política mais forte e com maiores ambições políticas é necessária para ampliar os nossos investimentos (Insurancenewsnet.com, 18/09/2014)”.

O texto cita a avaliação da Agência Internacional de Energia (AIE), de que o mundo precisa de investimentos de mais de um trilhão de dólares anuais em energias “limpas” (com destaque para eólicas e solares) até 2050, para impedir que o planeta se aqueça além dos alegados 2°C de aquecimento atmosférico que nos separariam de um suposto apocalipse climático. Entre os signatários, encontram-se grupos financeiros como a Ceres Investor Network on Climate Risk (INCR) dos EUA, European Institutional Investors Group on Climate Change (IIGCC), Investors Group on Climate Change (IGCC) da Austrália e Nova Zelândia, e Asia Investor Group on Climate Change (AIGCC).

Segundo Mindy Lubber, presidente da Ceres e diretor do INCR, “é significativo que as maiores instituições de investidores de todo o mundo estejam de acordo em que as mudanças climáticas sem mitigação colocam em risco os seus investimentos. (…) A comunidade financeira tem uma mensagem para os chefes de Estado que se reunião nas Nações Unidas, na próxima semana: não podemos mais esperar muito por um acordo climático”.

Na mesma linha, a executiva-chefe do IIGCC, Stephanie Pfeifer, afirmou: “A comunidade internacional de investidores deixou claro, hoje, que o status quo na política climática é inaceitável. Os investidores estão realizando ações sobre as mudanças climáticas, desde investimentos diretos ao engajamento das companhias e na redução da exposição aos riscos de carbono. Mas investir em energia de baixo carbono na escala necessária requer políticas fortes. Na cúpula da ONU da próxima semana, os formuladores de políticas públicas podem transformar ações pontuais de liderança climática em políticas centrais.”

Junto à declaração, os grupos de investidores publicaram um relatório, intitulado “Registro dos Investimentos em baixo carbono”, que detalha exemplos de ações que têm sido tomadas por eles para dar apoio à dita transição para a economia de baixo carbono e de resiliência climática. Dentre elas: a determinação do banco ASN holandês de se tornar totalmente “neutro em emissões” até 2030, por meio da compra de créditos de carbono; o projeto de parceria entre o banco HSBC na Armênia e o Banco Mundial para financiar projetos de eficiência energética no país, em até 25 milhões de dólares; e o banco ING, que reduziu os financiamentos para construção de usinas a carvão e ampliou linhas de crédito para energias renováveis, nos últimos sete anos.

Segundo Nathan Fabian, executivo-chefe do IGCC, “o ‘Registro dos investimentos em baixo carbono’ mostra como os investidores estão prontos para apoiar a transição para uma economia de baixo carbono, por meio de diversas formas de investimentos – diretamente, em projetos de energia renovável (…) por meio de títulos verdes e do estabelecimento de parcerias público-privadas”.

Como se percebe, é grande a disposição dos grandes grupos financeiros internacionais para “esverdear” a economia – especialmente, com o verde das montanhas de dólares que pretendem arrecadar com a especulação com a insana “descarbonização” da economia mundial.

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