“Grande Reset”: o Sol nunca se põe para os colonialistas

Apontado como uma espécie de transformação histórica da economia mundial pelos seus idealizadores, o chamado “Grande Reset” (adotando a nomenclatura já popularizada na língua portuguesa) não passa de uma reencadernação pós-moderna do velho impulso imperial britânico, compartilhado com novos protagonistas, análoga à reformulação encetada pelos estrategistas do Império Britânico no pós-guerra, quando a sua sustentação na forma original se mostrou inviável.

No auge do seu poderio, na segunda metade do século XIX, os apologistas do Império Britânico se jactavam de dizer que o Sol nunca se punha nas terras sob o seu controle. Foi também o período áureo do imperialismo europeu, com a repartição de 90% do continente africano e a humilhante exploração da China (depois reforçada pelos japoneses), iniciada com as vergonhosas Guerras do Ópio deflagradas pelos britânicos, em defesa do “direito” de inundar o país com entorpecentes produzidos na sua colônia indiana. Na mesma época, a geopolítica foi criada como disciplina acadêmica a serviço dos desígnios de imposição de poder pelas potências competidoras pelos recursos naturais de outros países e povos, impulso que levou às duas guerras mundiais do século XX.

Todavia, já no início do século passado, após a difícil vitória na Segunda Guerra dos Boers (1899-1902), tendo apresentado à humanidade os campos de concentração de civis, os estrategistas britânicos começaram a perceber a incapacidade de preservação por meios militares do Império estendido por cinco continentes. A partir daí, uma importante facção do Establishment oligárquico começou a articular a “recaptura” da ex-colônia estadunidense, já então a maior potência industrial do mundo, incorporando-a ao impulso hegemônico. O plano, ao qual o falecido magnata e arquiimperialista Cecil Rhodes (1853-1902) dedicou boa parte da sua fortuna, foi concretizado após a I Guerra Mundial (1914-18), com a criação de sociedades semi-secretas para a coordenação de propostas políticas entre as elites dirigentes dos dois lados do Atlântico: o Real Instituto de Assuntos Internacionais (RIIA) ou Chatham House, em Londres, e o Conselho de Relações Exteriores (CFR), em Nova York.

Logo após a II Guerra Mundial (1939-1945), com o lado estadunidense controlando praticamente a metade da economia mundial e a evidente incapacidade militar e financeira de preservar as suas colônias asiáticas e africanas, os britânicos promoveram o seu primeiro “reset”, convertendo o Império na Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth), ao mesmo tempo em que investiam em novas fórmulas – menos custosas e, com frequência, mais eficientes – para o controle de recursos naturais. Isto, já não só nas antigas colônias, mas em outros países que aspiravam ao seu pleno desenvolvimento, tarefa compartilhada com as elites estadunidenses, empolgadas com a posição hegemônica conquistada no pós-guerra imediato.

Foram, então, introduzidas as grandes causas globais, com destaque para a “proteção” do meio ambiente (um desdobramento das velhas teses eugênicas de melhoramento racial, das quais os britânicos foram pioneiros), o controle populacional e a “defesa” dos direitos humanos e da democracia, em parceria com grupos oligárquicos dos EUA. Para implementá-las, em vez de tropas de ocupação, um vasto exército de organizações não-governamentais (ONGs), a exemplo do Conselho Mundial de Igrejas (CMI-1948), União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN-1949), Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF-1952), Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF-1961) e muitas outras, dotadas de generosos financiamentos de fundações privadas e órgãos governamentais dos dois países e, posteriormente, das antigas potências coloniais europeias.

A despeito dos rótulos supostamente humanitários, tal agenda contemplava – e segue contemplando – apenas a velha aspiração daquelas oligarquias transnacionais: a consolidação de estruturas de “governo mundial”, acima e à parte dos Estados nacionais soberanos. Sua meta é a implementação de uma ordem de poder global elitista, com população e perspectivas de desenvolvimento restritas e sob seu controle, limitadas por conceitos errôneos e falaciosos, como os “limites do crescimento”, “explosão demográfica”, “pegada ecológica”, “escassez de recursos (naturais e financeiros)”, “crise climática” e outros que, lamentavelmente, têm logrado uma grande influência nas políticas públicas de quase todos os países.

Na ocasião, o advento da Guerra Fria proporcionou às oligarquias ocidentais um biombo dos mais convenientes para ocultar a sua agenda exclusivista, aprofundada com a ruptura unilateral dos acordos financeiros do pós-guerra pelo governo dos EUA, em 1971. Desvio que abriu as comportas da brutal “financeirização” da economia mundial das décadas seguintes, responsável pelo rápido crescimento das desigualdades socioeconômicas, entre os países e dentro deles, marca registrada da “globalização” das últimas décadas.

Por ironia, coube a dois escritores ingleses os melhores relatos ficcionais do mundo de privilégios e visões excludentes resultante do empenho secular do eixo anglo-americano: Aldous Huxley, ele próprio um dos “intelectuais orgânicos” do Establishment, com o seu Admirável mundo novo (1932); outro, um refinado crítico do sistema, George Orwell (pseudônimo de Eric Blair), autor do mais atual do que nunca 1984, publicado em 1949.

Com a implosão da União Soviética, em 1991, o Establishment transnacional julgou ter chegado ao “fim da História”, com o suposto triunfo do seu “modelo civilizatório” sobre qualquer forma de organização socioeconômica e política da humanidade. Mas a ilusão foi logo desfeita, não só pela grande complexidade dos desafios impostos pela aspiração de todos os povos a níveis de vida dignos e ao controle dos seus próprios destinos, como também pela rápida ascensão da China como potência econômica e industrial e, não menos, a reemergência da Rússia como potência militar, tecnológica e científica de primeira ordem, crescentemente articuladas na consolidação do eixo eurasiático como o novo centro de gravidade geoeconômico e geoestratégico do planeta.

O “Grande Reset”, promovido pelo Establishment oligárquico da América do Norte anglo-saxã e das antigas potências coloniais europeias, é uma tentativa desesperada de repetir a estratégia de “recauchutagem imperial” do pós-guerra, sob o disfarce da vinculação do sistema financeiro internacional (por si só ameaçado pelos excessos especulativos dos seus grandes operadores) à causa aparentemente nobre da proteção do planeta contra as “ameaçadoras” mudanças climáticas, e aproveitando a comoção causada pela pandemia de Covid-19.

Desta feita, porém, não há mais uma Guerra Fria, a despeito das tentativas dos estrategistas de Washington, Londres e Bruxelas de revivê-la a qualquer custo, mesmo com o risco de uma nova conflagração militar de grandes proporções. Tanto Moscou como Pequim deixaram de lado, há tempos, as suas velhas pautas do confronto ideológico do pós-guerra, preferindo concentrar as suas capacidades e esforços na construção e consolidação de uma nova ordem de poder mundial cooperativa e não-hegemônica, com vistas a um processo de desenvolvimento compartilhado e vantajoso para todos os seus participantes.

Recordando as palavras do presidente chinês Xi Jinping, na edição virtual do Fórum de Davos, em janeiro último: “A abordagem equivocada do antagonismo e da confrontação, seja na forma de Guerra Fria, guerra quente, guerra comercial ou guerra tecnológica, acabaria por prejudicar os interesses de todos os países. (…) As diferenças, em si, não são causa para alarme. O que são alarmantes são a arrogância, o preconceito e o ódio (Asia Times, 26/01/2021).”

Reforçadas por seu colega russo, Vladimir Putin: “Está claro que o mundo não pode continuar a criar uma economia que beneficiará apenas um milhão de pessoas, ou mesmo o bilhão dourado. Este é um preceito destrutivo. Esse modelo é desequilibrado por definição. Os acontecimentos recentes, inclusive as crises migratórias, têm reafirmado isso novamente. (…) Obviamente, a era ligada às tentativas de construir um mundo centralizado e unipolar acabou. Para ser honesto, ela nem mesmo começou. Foi feita uma mera tentativa nessa direção, mas, agora, isto também é história. A essência desse monopólio vai contra a diversidade cultural e histórica da nossa civilização (Kremlin, 27/01/2021).”

É evidente que a crise civilizatória gerada pela presente mudança de época histórica não pode ser solucionada por uma mera “reinicialização” de um sistema global viciado em privilégios para uma ínfima minoria, em detrimento das legítimas aspirações e dos direitos da esmagadora maioria da humanidade ao pleno desenvolvimento dos seus potenciais e ao gozo de níveis de bem-estar semelhantes aos conquistados pelas nações avançadas. Viabilizar esta perspectiva, em uma geração ou pouco mais, é o grande desafio real para a humanidade, não as ameaças artificiais ou distorcidas pelos oligarcas saudosos do imperialismo, que resistem ferozmente ao ocaso do seu mundo excludente e construído sobre privilégios anticivilizatórios.

(Imagem: Segunda Guerra do Ópio, 1860 – Wikimedia Commons.)

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