Francisco investe contra lavagem de dinheiro pelos bancos

O papa Francisco disparou uma dura acusação aos elementos do sistema financeiro internacional dedicados à lavagem do dinheiro oriundo do narcotráfico e outras atividades ilícitas, responsabilizando-os diretamente pela dramaticidade do problema mundial das drogas.

Em uma conferência internacional sobre as drogas, promovida pela Pontifícia Academia de Ciências, realizada no Vaticano, em 24-25 de novembro, Francisco não titubeou em colocar o dedo na chaga da droga: “Sabemos que o sistema de distribuição, mais ainda que a produção, representa una parte importante do crime organizado, porém, constitui um desafio identificar o modo de controlar os circuitos de corrupção e as formas de lavagem de dinheiro. Não há outro caminho senão desconstruir cadeia, que vai desde o comércio de drogas em pequena escala até as formas mais sofisticadas que se aninham no capital financeiro e nos bancos que se dedicam à lavagem de dinheiro sujo (Rádio Vaticano, 24/11/2016)”.

No discurso, o Pontífice definiu a droga uma “ferida” da sociedade e a dependência química como uma “nova forma de escravidão”.

“É evidente que não existe uma única causa que leva à dependência da droga, mas são muitos os fatores que influenciam: a ausência da família, a pressão social, a propaganda dos traficantes, o desejo de viver novas experiências etc”, disse o papa, recordando que cada dependente carrega uma história pessoal e que não podemos cair na injustiça de classificá-los como se fosse objeto ou um vaso quebrado. “Toda pessoa precisa ser valorizada e apreciada em sua dignidade para poder ser recuperada. Vamos ao encontro da sua dignidade. Continua tendo, mais do que nunca, uma dignidade enquanto pessoas que são filhas de Deus.”

Para Francisco, “não é de se estranhar que tanta gente caia na dependência da droga, pois a mundanidade nos oferece um amplo leque de possibilidades para alcançar uma felicidade efêmera, que – ao final – se converte em veneno, que corrói, corrompe e mata. A pessoa começa a se destruir e, com ela, todos a seu redor. O desejo inicial de fuga se transforma na devastação da pessoa na sua integridade, repercutindo em todas as camadas sociais”.

Neste contexto, ele acrescentou que é importante conhecer qual é o alcance do problema da droga – que é destruidor, é essencialmente destruidor – e, sobretudo, a vastidão de seus centros de produção e de seu sistema de distribuição. “As redes, que possibilitam a morte de uma pessoa. A morte não física: a morte psíquica, a morte social. O descarte de uma pessoa. Redes imensas, poderosas, que vão aliciando pessoas responsáveis na sociedade, nos governos, na família.”

Lembrando a sua própria experiência na Argentina, o Pontífice citou um caso que exemplifica o alcance das redes do narcotráfico: “Um juiz de meu país começou a trabalhar seriamente sobre o problema da droga. Tinha milhares de quilômetros de fronteira sob sua jurisdição. Pouco tempo depois, recebeu através do correio uma foto de sua família. Teu filho vai a tal escola, tua esposa faz isto… nada mais. Um aviso mafioso, Ou seja, quando alguém procura chegar às redes de distribuição, encontra-se com esta palavra de cinco letras: máfia. Porém, é sério. Porque, assim como na distribuição se mata quem é escravo do consumo da droga, igualmente se mata quem queira destruir esta escravidão.”

Segundo ele, em três décadas, a Argentina passou de consumidor, local de trânsito a produtor de drogas.

No evento, o diretor do Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), Yury Fedotov, afirmou que, em 2013, uma de cada 20 pessoas entre 15 e 64 anos de idade experimentou pelo menos uma vez uma substância ilícita, o que representa cerca de 246 milhões de pessoas em todo o mundo (equivalente à população da Indonésia). Em sua palestra, ele ressaltou as consequências devastadoras do narcotráfico e atividades a ele vinculadas sobre “a saúde, a paz, o desenvolvimento e os direitos humanos”.

Fedotov apontou, também, os países mais golpeados pela praga das drogas: o Afeganistão, “pátria do ópio, onde os produtores do cultivo de papoula, além de estarem crescendo, financiam o terrorismo dos talibãs, além de criar drogadicção, violência e insegurança”. Depois, os Bálcãs, principais canais de trânsito da heroína oriunda do Afeganistão, que se espalha por todas as direções. E as Américas, sendo que a América do Norte concentra mais de 40% do consumo mundial de cocaína, sendo os principais produtores, a Colômbia, Peru e Bolívia (Zenit, 24/11/2016).

O que Fedotov, um experiente diplomata russo, não disse é que o Afeganistão e os Bálcãs (especificamente, o Kosovo) têm em comum o fato de serem virtuais protetorados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que ocupa o primeiro desde 2001 e tem bases militares em Kosovo, desde a guerra de 1998. Ou seja, de modo algum, tais atividades poderiam ocorrer sem a devida anuência ou vista grossa da entidade.

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