França poderá afundar navios de 1,5 bilhão de euros

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Na madrugada de 27 de novembro de 1942, uma bem armada força de combate da 2a e 7a divisões Panzer do Exército alemão, apoiada por técnicos da Marinha de Guerra do Reich, invadiu o porto de Toulon, no sul da França. O objetivo da chamada Operação Lila era capturar intactos os navios que representavam o grosso da Marinha de Guerra francesa, que ali estavam ancorados desde a rendição do país aos alemães, em junho de 1940. Como parte do acordo de armistício, os alemães não haviam ocupado o sul do país, que foi mantido sob o governo do marechal Philippe Pétain, sediado em Vichy.

Em 8 de novembro, forças estadunidenses e britânicas invadiram as colônias francesas na África do Norte, levando o ditador Adolf Hitler a se decidir pela ocupação total da França. A captura da frota de Toulon era um dos principais alvos da operação.

Antecipando-se à ação nazista, o secretário da Marinha de Vichy, almirante Gabriel Auphan, havia determinado aos seus subordinados que fizessem preparativos para afundar os navios, caso os alemães tentassem tomá-los à força. E foi o que ocorreu. Enquanto as forças alemãs invadiam a área do porto, o comandante da frota, almirante Jean de Laborde, a bordo do encouraçado Strasbourg, deu o sinal para o autoafundamento, com explosivos pré-posicionados e a abertura das válvulas de fundo dos navios.

Ao todo, foram afundados 77 navios, inclusive três encouraçados, sete cruzadores, 15 destróieres, 12 submarinos, nove barcos de patrulha, 13 lanchas torpedeiras e outras embarcações auxiliares. Aos furiosos alemães, só restou percorrer alguns navios, vociferando e disparando contra oficiais e marinheiros franceses, matando 12 deles e ferindo outros 26. Apenas 39 pequenas embarcações foram capturadas, a maioria desarmada e avariada. E o óleo derramado dificultou durante muitos meses as operações no porto.

Na semana em que se celebram os 70 anos do final da II Guerra Mundial na Europa, o autoafundamento de Toulon, que foi um heroico desafio de vencidos a um oponente vitorioso muito mais poderoso (a Esquadra de Alto Mar alemã fez o mesmo em junho de 1919, na base naval britânica de Scapa Flow), vem à lembrança diante de uma espantosa notícia vinda de Paris. Segundo o jornal Le Monde, citado pela agência Sputnik,  o governo do presidente François Hollande estaria considerando afundar os dois porta-helicópteros classe Mistral construídos para a Federação Russa, um dos quais já está pronto e o outro em fase final de construção. Embora os navios já tenham sido pagos e oficiais e marinheiros russos já estivessem recebendo instruções a bordo do Vladivostok, no porto de Saint-Nazaire, Hollande cedeu às pressões do governo dos EUA e decidiu não entregá-los, como parte do pacote de sanções impostas à Rússia em função da reanexação da Crimeia e do apoio aos insurgentes do Leste da Ucrânia.

Aparentemente, a opção de afundar os dois navios – que custaram 1,5 bilhão de euros – seria a menos custosa para o governo francês, já que eles foram construídos de acordo com as especificações russas e readaptá-los para uso na Marinha francesa ou alguma outra exigiria novos e pesados gastos. Apesar de o jornal citar o Canadá e o Egito como possíveis candidatos à compra dos navios, o seu alto custo praticamente inviabiliza esta opção. E como até mesmo o custo de manter os navios no porto chega a 5 milhões de euros por mês, a opção do afundamento pode acabar se impondo.

É comum que as marinhas de guerra afundem navios velhos em exercícios de tiro real, mas fazer isto com navios novos em folha seria algo inusitado e, certamente, não muito palatável para o profissionalismo dos militares franceses. Isto para não falar do prejuízo para os cofres públicos e a imagem do país no mundo.
Em sua tumba, o almirante Laborde deve estar rolando de indignação diante da pusilanimidade dos atuais líderes da sua outrora orgulhosa nação, vergonhosamente submissos à agenda geopolítica ditada de Washington.

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